«Macarrão», o ardina da Ria Formosa

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Carlos Alberto Reis, 53 anos, mais conhecido por «Macarrão» leva a imprensa do dia, vende jogo, botijas de gás, carvão, faz recados, transporta todo o tipo de carga, e até vai às compras em terra se lhe pedirem. Esta é a história do último e mais multifacetado ardina do Algarve.

A manhã já tarda. «Macarrão» dá-nos de vaia, ao fundo da rua paralela ao Mercado de Olhão. Está atrasado e cheio de pressa. Dormiu até mais tarde, vencido pelo cansaço da faina. À noite é pescador. Tripula a traineira «Selma», juntamente com uma dezena de homens.

«Macarrão» vem do quiosque, e traz o carrinho vermelho de compras carregado com 30 jornais: os diários da bola, os generalistas e as revistas mais populares. O seu primeiro barco chamava-se «O jornal». Já não navega. Agora tem um maior – o «Faz Tudo» – como o dono. Em gestos despachados, o ardina mete a imprensa na popa e salta para bordo. O motor arranca em direção à Culatra, num rasto branco de espuma e salpicos de ria.

À chegada, voam os primeiros jornais na esplanada do café «Janota». Não há grandes conversas. O ardina conhece bem as leituras dos clientes, que já estavam à sua espera. Depois de um giro rápido de porta em porta, Ana Paula, moradora do 166, pede-lhe o registo do Euromilhões. Ainda não foi desta que saiu a sorte grande…

De novo a bordo do «Faz tudo», rumo ao Farol, «Macarrão» corta o motor perto da praia. Aproxima-se de um bote a remos, em plena ria para entregar revistas a um descontraído casal de veraneantes. «Logo me pagam, está tudo controlado!»

A grandeza de uma figura popular mede-se, também, pelos seus conhecimentos. De óculos escuros e calções de banho, vindo no barco da carreira, o jornalista Luís Pereira de Sousa sorri ao ver o ardina.

«É um homem muito simpático e muito diligente. É uma das pessoas com quem lido com mais frequência, porque desta maneira vou também auscultando as populações. Hoje em dia, os ardinas estão em casa, a distribuir o jornal pelo computador. É o que me está a acontecer a mim», brinca.

O antigo jornalista da RTP tem um barco atracado ali próximo, o «Aries». A sua relação com as ilhas da Ria Formosa já é antiga. Vem do tempo da tropa em Tavira, além disso, o avô era armador de traineiras em Olhão. Aproveita ainda as declarações ao «barlavento» para dar a sua opinião sobre a questão das demolições.

«Quem retirou os camaleões foi quem veio para cá. É muito importante que tirem as pessoas que se locupletaram dos lugares. Mas por outro lado, é muito importante que a população portuguesa, sobretudo as pessoas mais carenciadas, tenham hipótese de virem às terras onde nasceram, onde estão próximas das suas raízes, e das quais precisam para viver e reviver. É um direito que nos assiste também», considera.

«Eu concordo com as demolições, mas dentro de um espírito de respeito para com as pessoas. Não é simplesmente pô-las daqui para fora, e amanhã fazerem disto um resort onde os portugueses, onde eu próprio, não poderemos pôr os pés. Sejam bem claros naquilo que pretendem fazer. Não é daqui a dois ou três anos darem as ilhas a investidores estrangeiros que aterram em Faro e vem para aqui de helicóptero, para um resort», privativo de luxo.

Contudo, a atenção mediática e a polémica das demolições, segundo nos conta o ardina da Ria Formosa, não fez aumentar as vendas de jornais. E mais: raramente traz no saco, a imprensa regional. Só quando lhe pedem, o que é raro acontecer. Antes de deixar o Farol, «Macarrão» ainda faz um giro pela praia, que ao fim da manhã, está cheia de turistas.

«Aí há uns sete anos atrás, trazia dois carros destes carregadinhos», diz. Vendia quase tudo. Hoje, «isto está complicado». De facto, a praia não rende. Navegamos para os Hangares.

É neste núcleo que vive Manuel Luís, seu amigo de infância. Conversamos na casa do avô deste jornalista algarvio. A primeira construída nos Hangares, em 1932, devidamente autorizada pela então Hidráulica do Guadiana, entidade que tinha jurisdição sobre esta área, com sede em Vila Real de Santo António.

«O Macarrão é um filho da Culatra, tal como eu, que cresci na venda do Faz-gostos», uma mercearia que antigamente monopolizava todos os divertimentos da ilha, como o café, os matraquilhos, as sessões ocasionais de cinema, e até a televisão que, quando apareceu, a população pagava para ver.

«É o homem da amêijoa, o faz tudo. Serve quem cá vive e quem vem cá de férias. São estas raízes, são estas tradições, que este país não pode permitir que se percam. E porque é que há um ardina aqui todos os dias? Porque há cá gente o ano inteiro. Ao contrário do que se quer fazer crer que aqui só há casas de férias. E é por isso que os tribunais estão a dar razão às pessoas», explica.

Rute Rodrigues, há 11 anos a viver na ilha, trabalha na cantina da Associação de Moradores dos Hangares. Diz-nos que «Macarrão», no inverno, traz tudo o que é preciso, até o pão fresco. «A gente telefona-lhe e ele está sempre disposto» a ajudar. Relativamente ao estado de espírito desta comunidade, «agora está tudo parado, mas a partir de setembro começa de novo a dor de cabeça…»

Judite José, de Setúbal, está de férias. Tem aqui raízes familiares por parte do pai. «O Macarrão é uma pessoa de referência. Quando às vezes estou aqui sozinha com os miúdos, ele vem ter comigo. Os meus tios que são pescadores mandam-me o peixe por ele. É uma pessoa estimada e útil», confirma.

A imprensa entregue. «Macarrão», alcunha que herdou, primeiro do avô e depois do pai, quer regressar a Olhão. Depois do almoço vai mariscar com a maré. Amanhã haverá mais notícias para vender. Oxalá haja também quem as queira ler…