Linha de crédito e marketing respondem ao colapso da Thomas Cook

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Turismo de Portugal anuncia 150 milhões de apoio às empresas afetadas e um novo plano para captar turistas para o Algarve e Madeira. Hoteleiros aplaudam mas pedem mais tempo para amortizações.

Cerca de três dezenas de empresas reuniram-se na sede do Turismo do Algarve, em Faro, ao final da manhã de sábado, 28 de setembro, para discutirem as consequências da falência da Thomas Cook.

Filipe Silva, vogal do Conselho Diretivo do Turismo de Portugal, veio anunciar uma linha de 150 milhões de euros para minimizar os prejuízos.

«Uma resposta rápida de financiamento à tesouraria para garantir um maior desafogo às empresas afetadas», disse aos jornalistas no final dos trabalhos.

Além desta linha, vai ser lançado um plano promocional para o Algarve e a Madeira «para estimular os níveis de procura durante o inverno 2019/2020».

«Sentimos que, sem dúvida, a confiança por parte dos consumidores nos vários mercados emissores vai sair abalada com toda esta turbulência e portanto, rapidamente temos que ter uma capacidade de resposta em termos de implementação de marketing específico com parceiros estratégicos em cada um dos mercados emissores e em conjunto com os nossos parceiros regionais», disse Filipe Silva.

O responsável enalteceu também o «trabalho constante para conseguir reforçar a operação aérea e turística nestes dois destinos, para garantir um bom nível de conetividade e assegurar níveis de crescimento mais sustentáveis».

Por outro lado, a reunião serviu para informar como e onde as empresas podem «reclamar os seus créditos».

«Trabalho de diagnóstico» continua, diz João Fernandes

A sessão contou com a presença de 28 empresas. O montante total apurado de prejuízos ronda 4,3 milhões de euros, segundo revelou aos jornalistas João Fernandes, presidente do Turismo do Algarve.

«É naturalmente um valor que não engloba tudo, na medida em que há empresas que ainda estão a apurar o verdadeiro impacto nos diferentes mercados», disse.

Durante os trabalhos, foi discutida «a situação de cada país e de cada subsidiária da Thomas Cook. Há empresas que estão em insolvência, outras já em falência declarada. Qual a tramitação a observar face a essas realidades em cada país, quem é o administrador de insolvência, quais os procedimentos que hoje já são passiveis de serem adotados. No fundo, qual a realidade a adotar em relação aos créditos vencidos e aos créditos vincendos», detalhou João Fernandes.

«Foi também apresentada um conjunto de iniciativas que visam suprir necessidades das empresas, como é o caso da linha de apoio à tesouraria. Permite às empresas solicitarem um crédito até 1,5 milhões de euros. Estamos a falar de um período de três anos para reembolso e de 50 por cento da taxa de garantia mutua na solicitação desse crédito. São boas condições», considerou o presidente do Turismo do Algarve.

João Fernandes, presidente do Turismo do Algarve.

«Ouvimos também situações específicas de cada mercado, e situações concretas de turistas que estão no território e que foram apanhados de surpresas pela falência. Acabámos por transmitir às empresas todas as informações recolhidas pelas agências externas do Turismo de Portugal que estão a acompanhar a par e passo este processo», resumiu.

Foi também apresentado um plano de promoção da Associação de Turismo do Algarve, no valor de 1,5 milhão de euros, «que visa não só compensar as perdas, mas também aproveitar a oportunidade para diversificar mercados. Estamos a falar em sete mercados de aposta, diferentes canais de distribuição, desde o reforço das linhas aéreas até um investimento nos tour de operadores para compensar a falência da Thomas Cook. Estamos também, atendendo ao mercado atual, a apontar para um investimento nas online travel agencies».

Apesar de uma primeira estimativa oficial contabilizar o peso da Thomas Cook em 0,2 por cento do total anual de passageiros desembarcados no Aeroporto de Faro, cerca de 10 mil turistas, o certo é que as empresas algarvias não ficaram imunes a um certo rombo.

«Bem, na primeira fase em que nos referimos a este tema, estávamos a falar na falência da Thomas Cook UK. Desde então, seguiu-se a insolvência da Thomas Cook Alemanha, Holanda, Polónia e Bélgica com três subsidiárias. No caso dos nórdicos, felizmente, está a funcionar normalmente. É uma realidade que tem vindo a ser progressiva e que obviamente tem um impacto maior do que aquele que foi o ponto de partida».

De qualquer forma, «como referi na altura, a Thomas Cook já teve uma presença maior no Algarve. A natureza da sua atividade e as dificuldades financeiras eram conhecidas. E portanto, houve empresas que garantiram esse risco através da aquisição de seguros, e outras através de adiantamentos. De qualquer forma, não deixa de ser significativo este resultado das 28 empresas que aqui se apresentaram a nosso pedido e que há outros que ainda não apuraram o valor. Estamos a continuar esse trabalho de diagnóstico, para saber não apenas o montante em dívida, mas o valor por mercado», concluiu João Fernandes.

Hoteleiro satisfeitos mas pedem mais prazo

«O governo acedeu e bem às reivindicações dos empresários relativamente aos prejuízos causados pela falência da Thomas Cook através de uma linha de crédito de apoio à tesouraria cujo montantes me parecem ajustados à realidade, mas com prazos para amortização demasiado curtos», considerou Elidérico Viegas, presidente da Associação dos Hotéis e Empreendimentos Turísticos do Algarve (AHETA), no final da reunião.

«Pensamos que o prazo deveria ser alargado de três para seis anos e fizemos essa proposta. Em relação ao reforço da linha promocional, que nos parece também ajustada e adequada, é bem-vinda e satisfaz as preocupações empresariais», disse ainda.

Há diferente graus de prejuízos. Há mais lesadas com montantes muito significativos e outras cujas perdas não são tão importantes. O que importa ressalvar é que e a falência da Thomas Cook tem um impacto negativo enorme na região, afetando sobretudo as empresas que tinham negócios mas também a região como um todo. O facto de neste momento haver menos um grande operador a operar para o Algarve vai dar grande poder negocial aos que ficam no mercado, sobretudo ao nível das condições de contratação em matéria de preço, quer em capacidade de alojamento contratada. Direta ou indiretamente, a falência da Thomas Cook acaba por afetar a região e todas as empresas em geral», considerou Elidérico Viegas aos jornalistas.

Elidérico Viegas, presidente da Associação dos Hotéis e Empreendimentos Turísticos do Algarve (AHETA).

No entanto, o presidente da AHETA afasta cenários de mais insolvências ao nível local. «Essa questão não se coloca, não é isso que está em causa. Não deixam de ser prejuízos enormes para as empresas afetadas, mas felizmente, não chegam para pôr em causa a sua sobrevivência», garantiu.

Em Espanha, a tutela sugeriu o Fundo Europeu de Ajustamento à Globalização. «É um dos mecanismos que estão disponíveis para o nosso país e não deixará de ser utilizado. Claro que estas medidas, apesar de decididas pelo governo, são articuladas com a União Europeia e nesse aspeto não somos diferentes dos nossos vizinhos espanhóis. As situações são idênticas e aplicar-se-ão as mesmas regras».