Lavrar o Mar traz novo circo em dose dupla a Monchique no fim do ano

  • Print Icon

Continuando a tradição que tem vindo a trazer, desde 2016, cada vez mais pessoas a Monchique para festejar a passagem de ano, o Lavrar o Mar – as artes no alto da serra e na Costa Vicentina promete um acontecimento «nunca antes visto no interior algarvio».

Quem o diz é a coreógrafa Madalena Victorino, mentora deste projeto em conjunto com o programador italiano Giacomo Scalisi. Desta vez serão duas tendas, a instalar no heliporto, onde haverá dois espetáculos de novo circo, entre os dias 27 de dezembro e 5 de janeiro (com exceção nos dias 30 e 2).

O primeiro é Les dodos pelo coletivo francês L P’tit Cirk. «É um trabalho de um grupo de jovens recém-formados nas artes performativas que têm uma relação muito especial com guitarras. São mais de 100 em cena e fazem tudo com elas, desde a música à acrobacia», descreve Giacomo ao «barlavento».

«É um espetáculo muito inesperado. Queremos mostrar fórmulas menos tradicionais de fazer o novo circo», acrescenta Madalena Victorino. Será exibido à 18 horas.

«A ideia é que as pessoas possam vir mais cedo, que fiquem para jantar em Monchique e vejam também o que temos a seguir». É que é às 21h30, da Bélgica chega Forever, happily pelo Collectif Malunés.

«A história inspira-se no universo dos contos de fadas, em capuchinhos vermelhos e belas adormecidas que encontram um destino contrário» do que é narrado na tradição oral. «É um espetáculo bastante político que questiona estereótipos. Será que os lobos são sempre maus e as princesas sempre boas?”, brinca Madalena Victorino.

Forever, happily é o principal espetáculo de novo circo que estará em Monchique antes e depois do ano novo.

E como tem vindo a ser hábito, o ponto alto da festa será na noite da passagem de ano, a 31 de dezembro. Além do novo circo, haverá também um concerto da recém-estreada Orquestra Vicentina, «que com os seus ritmos quentes nos ajudarão a enfrentar o frio da serra, juntamente com as comidas e bebidas que fazem parte desta festa simples, mas muito divertida», avança a coreógrafa.

«Estamos à espera de 1200 pessoas por noite. É um grande salto que estamos a dar, e será também uma alternativa ao que acontece no Algarve todo» nesta quadra.

Bacalhau no Festival da Batata-Doce de Aljezur

Uma aposta constante do Lavar o Mar tem sido o teatro culinário, que também não fica ausente nesta que é a quarta temporada (2019/20).

Assim, «O Presente de César», espetáculo encomendado pelo Teatro Viriato (de Viseu) para fazer uma digressão na região de Dão-Lafões, em 2014, será exibida no Festival da Batata Doce de Aljezur, de 28 de novembro a 1 de dezembro, na Casa do Povo do Rogil.

«É um espetáculo muito forte, político sobre como a ditadura de Salazar utilizou esta faina como propaganda do regime. Era uma vida duríssima, que causou muitos dramas familiares. O nosso diretor técnico, o Joaquim Madaíl, é de Ílhavo. O seu pai era capitão nessa pesca e ele contava-me muitas histórias. É uma coisa tão forte e tão portuguesa que merecia mesmo um espetáculo», comenta Giacomo Scalisi ao «barlavento».

Bacalhau seco e salgado , alimento típico do natal português.

Durante a peça será servido um jantar de bordo com uma ementa especial, composta por sopa (chamada chora), prato (bacalhau com batata-doce), sobremesa (línguas de bacalhau fritas com canela, mel e pêra de Monchique) e claro, vinho.

«O Presente de César» será reposto, de 5 a 8 de dezembro às 19h30 na Casa do Povo de Alferce. Os bilhetes para todos os espetáculos podem ser comprados online.

Ciclo de passeios na natureza em 2020

Para o ano, a grande novidade é um ciclo de caminhadas com arte na natureza. Serão «10 percursos em Aljezur e outros tantos em Monchique, no meio da natureza, para grupos de, no máximo, 15 pessoas, acompanhados por coreógrafos, atores, encenadores, cientistas, filósofos, ao domingo de manhã. Pessoas que estão a olhar o mundo e têm um pensamento próprio. Que se aventuram por caminhos onde o silêncio é grande e possibilita o diálogo», avança Giacomo Scalisi.

Os passeios vão terminar com um almoço convívio. O calendário ainda está a ser definido em conjunto com a Rota Vicentina. Mais tarde, no domingo de Páscoa, tal como no ano passado, haverá «um grande concerto de música, num local maravilhoso». E claro, Madalena Victorino já está a preparar a sua criação, com o título provisório de «Quando for para a Terra».

Giacomo Scalisi e Madalena Victorino.

Será exibido de 28 a 31 de maio, em Monchique. «Tem a ver com a ideia de a grande maioria dos portugueses terem saído das suas terras para irem trabalhar no litoral, dos tempos mais antigos aos mais recentes. E também coma a ideia de que quando estão na cidade, imaginam um tempo suspenso, muito privilegiado de regresso às origens. É também uma metáfora para a morte e para o retorno à nossa verdadeira origem».

A criação vai envolver João Tuna, fotógrafo e videógrafo. «Vamos fazer vídeos com pessoas que trabalham a terra, em situações de entrevista que ele vai transformar em pequenas ficções imagéticas que vão ser projetadas nas copas das árvores. Essas imagens vão dar o impulso à dramaturgia, àquilo que se fala, que se canta, que se dança, come e vive. É um espetáculo de arte comunitária, em que as pessoas entram presencialmente ou através de filme. Ainda está tudo em aberto». Terá também a colaboração dos músicos Joana Guerra e Remi Gallet.

O Lavrar o Mar conta com os apoios das Câmaras Municipais de Aljezur e Monchique, 365 Algarve, CRESC Algarve e a Direção-geral das Artes.