Jovens de Albufeira criam associação para a cidadania

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Fundada por 16 jovens de todas as áreas, da advocacia à arquitetura, passando pela gestão, contabilidade, desporto, marketing, informática, a JuvAlbuhera assume-se como uma associação «muito plural». Quem o diz é Roberto Leandro, 32 anos, formado em Comunicação e presidente desta nova «comunidade», que esteve à conversa com o «barlavento» acompanhado por Miguel Viegas, de 27 anos, trabalhador na área do turismo e vogal de direção.

O processo de criação é simples de explicar. «Juntámos um grupo de amigos, que convidaram outros amigos. Discutimos ideias, visões, filtrámos os que estavam realmente interessados e começou a nascer o projeto», revela o presidente.

«Começámos as reuniões em janeiro de 2018, ficámos algum tempo em banho-maria durante os meses de verão. E só em outubro conseguimos oficializar o coletivo». Era uma enorme lacuna, pois, afinal de contas, «Albufeira é um dos concelhos mais jovens do país» e não faltam questões que preocupam bastante os membros da JuvAlbuhera, às quais os dirigentes dão agora voz.

«Os transportes públicos acabam o serviço cedíssimo, e quem trabalha, por exemplo, no Algarve Shopping (Guia) não tem como regressar à cidade, à noite. Estamos a falar de um dos maiores centros de empregabilidade do concelho de Albufeira. Esta situação tem de mudar. E há resistências a novos projetos por parte de certas empresas», criticam.

Ainda no campo da mobilidade, «dentro da própria cidade, deveriam existir transportes em horário noturno para incentivar às saídas à noite sem carro. É triste a população de Albufeira não poder assistir a espetáculos fora do concelho se não tiver carro próprio ou boleia», acrescentam.

Roberto Leandro e Miguel Viegas | Foto: João Chambino

Os dois dirigentes associativos mostram ainda preocupação com o abandono do concelho por parte de «muita gente nova e válida». Neste momento, verifica-se «uma debandada para Loulé e Faro», pois os jovens albufeirenses «arranjam lá emprego e as casas são arrendadas por valores inferiores» aos praticados na sua cidade natal.

Miguel Viegas sublinha que «Albufeira está a perder muita mão de obra de qualidade, e depois vai-se buscar a mesma a outros pontos do país e da região».

A JuvAlbuhera promete ainda sensibilizar o executivo para a questão da habitação social, outra grande carência à qual praticamente nenhum município do Algarve tem hoje respostas concretas para dar aos seus jovens.

No que toca à educação, o dedo é apontado à falta de apoios para quem quer prosseguir estudos na universidade, seja ao nível das propinas, seja ao nível do custo exagerado dos transportes que os estudantes albufeirenses e as famílias têm de suportar.

«Pagar 80 euros por um passe de comboio Faro-Albufeira é um preço ridículo para o nível de serviço prestado», apontam. Por último, e não menos importante, a direção da JuvAlbuhera está preocupada com um flagelo «cada vez mais presente» no concelho, o consumo de drogas.
«Muitas vezes as intervenções suaves não resultam.

A legalização também não ajuda nestes casos, porque os jovens consomem cada vez mais substâncias que nunca serão legais, drogas pesadas». A solução? «Passará por uma terapia de choque», porque mais que as palavras, «o que ensina os jovens é ver os resultados a que determinado comportamento os pode conduzir».

Poder local aplaude nova associação, mas tem de ouvir propostas dos jovens

O albufeirense Roberto Leandro rejeita ligações políticas e promete nortear o mandato à frente da JuvAlbuhera pela independência. Assume, contudo, que alguns sócios são jovens com militância partidária, mas «não ocupam cargos de direção na associação, e pertencem a diversos quadrantes ideológicos e não apenas a uma força política».

Cientes de que muitas vezes os jovens têm vergonha de expor as suas ideias, por medo da rejeição, os dirigentes dizem-se «disponíveis para ouvir todas as propostas e para ajudar no seu encaminhamento». Miguel Viegas acrescenta que «muitas vezes os mais novos apenas precisam de um empurrão na direção certa, porque tudo o resto está dentro deles».

Quanto aos mais graúdos e crescidos, indispensáveis para abrir caminho às ideias juvenis, existem pontos a melhorar em Albufeira. Roberto Leandro explica que «a comunicação institucional tem de melhorar no concelho». Incitado a pormenorizar, acaba por dar mais uma achega: «o município comunica os eventos muito em cima da hora, e muitas vezes de forma algo deficiente, o que impede um maior sucesso dos mesmos».

Roberto Leandro, presidente da JuvAlbuhera | Foto: João Chambino

Prossegue, lamentando que «existam sobreposições de eventos importantes que mostram alguma falta de coordenação entre as diversas associações, acabando por não dar oportunidade de participação em tudo, porque ninguém se pode dividir para estar em locais diferentes ao mesmo tempo». Uma possível solução? «Existem muitos jovens albufeirenses formados em comunicação», atira. Mas a associação vai entrar em campo para tentar «que haja maior coordenação», pelo menos, dentro do concelho.

Além disso, «estão para breve alguns debates nas escolas secundárias, sobre temáticas variadas e acompanhadas pelo executivo municipal para registo de sugestões e resposta às reclamações», revela o dirigente, acrescentando que a autarquia de Albufeira tem planos para «criar uma Assembleia Municipal Jovem, e para fazer um Orçamento Participativo Jovem».

Ainda assim, ambos elogiam o autarca José Carlos Rolo pela «frontalidade» e por dizer de imediato «com o que se pode, e o que não se pode contar, ao nível dos apoios ao associativismo». E até sugeriu um ponto de atuação, «a sensibilização ambiental dos miúdos e adolescentes». Também Custódio Moreno, diretor regional do Instituto Português do Desporto e Juventude (IPdJ), «ficou muito entusiasmado com o nosso projeto». Quanto às Juntas de Freguesia do concelho de Albufeira, a resposta também tem sido positiva. Em quatro, já reuniram com duas, e tiveram muita recetividade por parte de outra.

Parcerias e projetos em curso

Apesar de jovem e recém-formada, a JuvAlbuhera já meteu mãos à obra. Apresentou-se à Universidade Sénior, ao Centro de Apoio ao Sem Abrigo (CASA) de Albufeira, aos postos da GNR do concelho, aos Bombeiros Voluntários, ao Futebol Clube de Ferreiras e ao Conservatório». Com os últimos até já existe uma parceria. E em dezembro, fizeram uma recolha e doação de bens no concelho.

Roberto Leandro, presidente da direção da JuvAlbuhera tem ficado surpreendido com a «recetividade» por parte de outras associações do concelho e da região. Aproveitando essa ausência de barreiras, estão a nascer laços e ideias. «Vamos reunir com a Associação de Apoio à Pessoa Excepcional do Algarve (APEXA) e com a Associação Humanitária Solidariedade Albufeira (AHSA). Ainda este mês pretendemos também lançar nas escolas do concelho e nas redes sociais um inquérito para jovens dos 13 aos 35 anos», revela».

A associação quer ainda aproveitar o facto de Albufeira ser uma cidade com «muitos estudantes de artes que podem ajudar a recuperar e embelezar edifícios devolutos e degradados, com arte urbana».

Miguel Viegas, da JuvAlbuhera | Foto: João Chambino

Estão ainda pensados eventos culturais e desportivos, como Concursos de fotografia, concursos de bandas de música, literários e workshops diversos. E Uma feira do livro «focada no que temos por cá, com editoras algarvias e com um palco onde poderiam atuar também artistas locais, servida por barraquinhas de gastronomia local», exemplifica Roberto Leandro. O dirigente tem consciência de que os jovens gostam de «ser premiados», e por isso «queremos oferecer prémios palpáveis, que não se fiquem por um certificado de participação. Prémios que façam falta aos jovens, e acima de tudo que não lhes imponham caminho algum». Porque «os mais novos têm de aprender a tomar decisões, caso contrário quem serão os adultos de amanhã?».

Quanto a sonhos maiores e mais complicados, «o Festival F e o Festival MED, a noite branca de Loulé e de Carvoeiro, são bons exemplos de atividades que podiam ser recriadas em Albufeira. Temos cidade para isso».

Como apoiar?

Em negociação estão várias parcerias que podem vir a dar descontos aos associados, que a seu tempo serão anunciadas, seja em «espetáculos culturais», mas também em «conferências e outros eventos importantes». Os interessados podem ser sócios por valores que oscilam conforme a idade, que não tem limites (existem já associados dos 16 aos 60 anos): até aos 18 anos, a quota é de 5 euros anuais. Dos 18 aos 30, sobre para os 10 euros anuais. A partir dos 30, o pagamento ascende aos 15 euros por ano.