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Ricardo Monteiro está a concluir um curso, gere a sua própria empresa e sozinho criou um projeto de sensibilização, com o qual já conseguiu com que 20 estabelecimentos públicos de Olhão se adaptassem às necessidades de pessoas com mobilidade reduzida. É um exemplo para todos os que hoje celebram o Dia Internacional das Pessoas com Deficiência.

Ricardo Monteiro, residente em Olhão desde a primeira idade, não passa despercebido no seu concelho. Nasceu com paralisia cerebral, que lhe afetava a mão direita e as pernas, mas foi uma operação ao apêndice que o deixou preso a um cadeira de rodas com apenas 18 anos. Uma década mais tarde não desistiu da vida e tem uma história para contar.

«Apercebi-me que ficar parado e resignado não era opção. Era insustentável. Por isso tomei muita consciência das capacidades do meu corpo. Senti necessidade de ajudar a minha família porque nem tenho ideia do valor que gastam mensalmente comigo. São consultas, medicamentos, materiais, terapias, equipamentos, é mesmo muita coisa. Foi aí que me lembrei de lançar a minha marca» de artesanato, conta ao «barlavento» o jovem de 28 anos.

Surge assim, em 2014, a marca registada «Trapilho com Graça», de artigos para a casa e bijuteria, todos feitos pelas mãos de Ricardo. «É um negócio e ao mesmo tempo uma forma de terapia para as minhas mãos. Esta é uma técnica desconhecida ainda por muitos e que me permite criar coisas tão variadas como cestas, bases, pegas, tapetes e até colares. Destaco-me, acima de tudo, por fazer as coisas à medida de cada cliente. Dizem-me o que pretendem, as cores que gostam e eu executo», simplifica.

Uma marca que, cinco anos depois de ter sido apresentada, já vende, através das redes sociais, por todo o país e até no estrangeiro. «O mais longe que levei o trapilho foi à Alemanha, mas a maior parte dos meus clientes são nacionais e de fora do Algarve», detalha.

Apesar de estar a correr bem, Ricardo Monteiro afirma que cedo percebeu que não era suficiente. «Não dá para sobreviver durante um mês. É um escape que me faz sentir útil, mas a nível financeiro não chega». E foi com essa linha de pensamento que ainda no mesmo ano, o jovem lançou sozinho a campanha «Muita Tampa», depois de conhecer a empresa intermunicipal Resialentejo – Tratamento e Valorização de Resíduos, de Beja.

«Pesquisei bastante e descobri crianças que criaram campanhas idênticas à minha e deparei-me com a entidade que estava por detrás de todo o processo. O que fazem é transformar lixo em dinheiro. Ou seja, cada tonelada de tampas de plástico e caricas de metal equivale a 500 euros numa conta fictícia. Esse dinheiro pode ser utilizado para diversos fins: adquirir ou reparar cadeiras de rodas, camas articuladas, fraldas, pagar terapias, entre outros fins», refere.

Começou assim uma nova etapa na vida do jovem. As semanas começaram a ser preenchidas com visitas a vários estabelecimentos públicos de Olhão com o objetivo de dar a conhecer a sua campanha e recolher este tipo de material reciclável.
Lançou apelos nas redes sociais e conseguiu o apoio da Associação de Escoteiros de Portugal. Em pouco mais de ano e meio, Ricardo já tinha conseguido juntar 30 toneladas.

«Na altura, comprei a minha primeira cadeira elétrica de rua e topo de gama. Hoje, sei que tenho quase o município inteiro a juntar tampinhas para mim e há muitas pessoas que as deixam à porta da minha casa. Neste momento, consigo enviar para a empresa de Beja cerca de 100 quilos por semana», contabiliza.

Foi ainda com a sua campanha que Ricardo Monteiro se deparou com outro problema: a mobilidade.

«Percebi que faltam rampas de acesso e passeios adaptados em Olhão. Tenho de andar sempre na estrada porque se subir para um passeio, 200 ou 300 metros mais à frente tenho de voltar para trás porque não há rampa para descer. E atenção que falo de todo o concelho. É um perigo e não sou o único a queixar-me», sublinha.

A solução? «Como sou empreendedor, tive de começar com um novo projeto. Não podia cruzar os braços». Nasce assim o «Olhão Acessível», em que, como o próprio nome indica, tem como objetivo tornar o concelho mais amigo das pessoas com mobilidade reduzida.

A ideia é muito simples. Basta dar a cara. «Vou diretamente aos sítios, sejam restaurantes ou clínicas e pergunto se querem ser acessíveis. O passo seguinte,será criar autocolantes com uma frase em português e em inglês, para colocar à entrada de todos os locais que aceitem as minhas sugestões».

Desta forma, «as pessoas como eu percebem de imediato que ali podem entrar» sem dificuldades.

Isto porque, «a maior parte dos sítios que estão equipados, têm rampas amovíveis. Mas são as pessoas que as têm de solicitar. O problema é que muitas vezes não é claro se as possuem ou não. Com os meus autocolantes, todos vão perceber que determinado estabelecimento é acessível a todos».

A verdade é que com este projeto pragmático, o jovem já conseguiu que cerca de 20 estabelecimentos se adaptassem, entre «restaurantes, cafés, pastelarias, clínicas, lojas e até bancos».

Aos 28 anos, Ricardo Monteiro, sente que já ultrapassou muitas barreiras. Mas ainda falta realizar um sonho, talvez o mais difícil. «Poder voltar a andar». Neste momento, está a concluir o curso de administração e contabilidade, mas o objetivo é, no futuro, trabalhar em algo que una gestão, produção de eventos e relações públicas, uma atividade que já desenvolvia antes de ficar incapacitado.

«Tirei formações nessa área porque era manager de uma banda de Olhão. Mesmo depois da operação, ainda estava no hospital e continuava a marcar concertos. O meu sonho é voltar a trabalhar em algo parecido. Já pensei em tirar o curso de Produção e Criação Musical na ETIC_Algarve, mas não tenho capacidade financeira para isso. Quero um dia fazer isso tudo e quem sabe abrir a minha agência ou editora», ambiciona.

«Não vou parar e quero continuar a vencer barreiras por mim e por todos os algarvios portadores de deficiências», conclui.

Operação ao apêndice que mudou uma vida

Ricardo Monteiro tinha acabado de se mudar para Lisboa. Com 18 anos, estava a tirar a carta de condução e preparava-se para entrar na Universidade. Escoteiro desde criança, acampava, fazia espeleologia e atividades radicais. Certa noite, depois de um jantar com os amigos começou a sentir fortes dores na barriga. Foi ao hospital e mandaram-no para casa a beber água gaseificada. Três dias depois, e sem melhorias, regressou ao hospital onde lhe diagnosticaram apendicite. Foi operado no dia seguinte, mas quando acordou deparou-se com uma realidade completamente diferente.

«Não conseguia andar, não urinava sozinho e nem conseguia falar. Estive internado mais de dois anos e até hoje não me conseguiram ainda diagnosticar ou dizer o que aconteceu na operação. Só mais tarde, depois de ter vários episódios de espasmos no corpo todo, um médico falou-me na doença do movimento. Nasci com paralisia cerebral, afetava-me a mão direita e as pernas, mas sempre andei e fui independente».

«Hoje faço fisioterapia, terapia da fala, sou algaliado, só me desloco de cadeira de rodas e tenho uma assistente de companhia todos os dias comigo. Preciso de ajuda para tudo. A minha casa foi toda adaptada, para não falar das despesas constantes que tenho. A juntar a isto sou seguido na psiquiatria e por uma psicóloga porque uma coisa é quando se tem um acidente de carro porque se bebeu, ou quando há culpados, outra é quando acontece algo em que tu não fizeste nada para isso, nem ninguém saber dizer o porquê de ter acontecido. Sinto-me muito revoltado e já passaram 10 anos», relata ao «barlavento».

Falta de apoio e mentalidades

Ricardo Monteiro não nasceu em Olhão, mas mudou-se para a terra natal do pai com apenas três anos. Desde 2009 que se tornou uma pessoa com mobilidade reduzida e segundo diz, «não sinto apoio neste momento». Isto porque «Há autarquias pequenas como Castro Marim que têm veículos para transportar pessoas para consultas, escolas e atividades fora da localidade. Entrar e sair de um automóvel, para mim, é muito complicado e custa-me imenso. Conduzir está fora de questão porque são precisos, no mínimo, dois membros com capacidades», explica ao «barlavento».

«Era fundamental que houvesse uma carrinha adaptada para mim e para todos como eu» em Olhão. Além disso, o jovem é da opinião que «não se fala abertamente sobre os temas que nos dizem respeito e claramente as ruas e os estabelecimentos não estão preparados. A Câmara Municipal deveria ser o maior alicerce para ensinar, apoiar e divulgar esta causa», recomenda.

Hoje, terça-feira, dia 3 de dezembro, celebra-se o Dia Internacional das Pessoas com Deficiência, instituído, em 1992, pela Assembleia Geral da ONU.