Grupo «Libertas» renova a zona noroeste de Faro e aposta no Algarve

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O grupo imobiliário «Libertas» tem trabalhado sobretudo para o mercado europeu, mas o projeto «Alta de Faro», urbanização que está a nascer na Lejana, zona noroeste da capital algarvia é uma aposta no mercado habitacional. «Exatamente. Nesta primeira fase que estamos a construir, mais de cinquenta por cento tem sido adquirido por clientes portugueses. Este ano prevemos entregar 96 apartamentos e a totalidade está pré-vendida. Faltam alguns, porque há sempre desistências», contabiliza António Gonçalves, presidente do conselho de administração, em entrevista ao «barlavento».

Se ainda há alguns anos, a crise foi implacável para o sector da construção civil, hoje, além da retoma da economia, sente-se uma carência na oferta. «Existe procura. Em Faro estamos a construir 597 fogos. Em Albufeira, estamos a desenvolver um projeto para cerca de 400 fogos. São 35 mil metros quadrados, 15 mil para fogos comerciais e 3000 de habitação social (20 por cento). Já temos 260 feitos e vendidos», contabiliza.

Em Lagoa, estamos a construir sobretudo vivendas, no Parchal (Sítio dos Corgos) e em Ferragudo. Temos ainda projetos alargados para Tavira e Portimão, embora estes últimos não vão arrancar este ano. Terão início mais tarde porque são projetos específicos», revela.

«Temos um outro para turismo junto à Praia dos Tomates, em Albufeira, com 40 hectares de terreno. Estamos a pensar em algo integrado com agricultura biológica, ao exemplo do que estamos a implementar em Palmela». Fora do Algarve, a empresa tem ainda projetos em Pombal e na Figueira da Foz prontos para arrancar ao longo deste ano.

Com todo este portfólio de ativos, «prevemos um volume de negócios, um pouco acima dos 160 milhões de euros. Desde há dois anos estamos a entregar 300 casas por ano e estamos a subir para as 400, 200 no Algarve e o resto em Lisboa e na região centro».

Ainda em relação a Faro, o grupo avança com vários edifícios, e o foco será no condomínio fechado «Lux Garden». «A preparação da obra já está a ser feita, e só aguardamos a licença para arrancar. Destina-se a uma clientela sénior estrangeira, reformada ou em vias de se reformar, e também a uma clientela portuguesa algo abastada que está interessada em comprar produtos novos. Para já, temos um mix entre portugueses e franceses», descreve.

O futuro «Lux Garden».

«Os nossos projetos têm sempre de ter uma certa dimensão para podermos colocar-lhes a nossa marca, o nosso cunho e a nossa maneira de fazer». Caraterísticas como terraços privativos, zonas comuns com ginásio e envolventes ajardinadas «são detalhes inovadores, sobretudo em relação aos sítios onde os implementamos. Não conhecemos tudo o que há em Faro, mas este é do que de melhor temos feito, por exemplo, em Alcochete, na Praia do Sal».

A autarquia de Faro tem vindo a trabalhar na versão final do Plano de Pormenor da Lejana. Esteve em discussão pública, entre a abril e maio do ano passado, e segundo fonte municipal, foram recolhidos diversos contributos e propostas. Neste momento, as sugestões estão a ser introduzidas num novo documento, que, em breve, voltará a ser discutido. No caso da «Libertas», «já tínhamos tudo aprovado. Mas a abertura da Câmara fez com que as soluções que temos hoje no terreno fossem possíveis. Esteve aberta a uma quantidade de pequenas alterações que vão alterar toda a fisionomia deste loteamento».

Na prática, «são adaptações ao mercado, essenciais para transformarmos tudo isto num produto diferenciado» que promete revitalizar uma zona que durante alguns anos teve uma imagem quase de abandono. «Uma cidade faz-se de bairros e este vai ser um novo, a que gostaríamos de chamar Alta de Faro. Terá várias novas valências, entre outras, um edifício para estudantes. Estamos perto dos campi da Universidade do Algarve, e penso que um produto deste tipo terá aceitação. Será para investidores, mas, os que não vendermos, alugaremos», detalha. António Gonçalves revela que se tratam de «apartamentos de tipologia T0, T1 e alguns T2» e justifica o interesse.

«Os meus filhos estudaram em cidades como Bordéus, onde habitaram apartamentos muito pequeninos, porque os havia. Este tipo de oferta está a crescer muito em Lisboa e acho que Faro também merece. Numa primeira fase vamos fazer um edifício, com cerca de 30 a 40 fogos. Queremos atrair massa crítica suficiente para que os espaços comuns sejam viáveis, com alguma dimensão». Além disso, «a Câmara está muito receptiva à ideia e portanto, vamos alterar o alvará para este produto».

Habitação social também no horizonte

«Eu nasci numa família muito pobre, não tinha dinheiro para comprar sapatos e andava descalço quando era novo. Mas não era por isso que eu não queria ter qualidade de vida», afirma. Natural de Pombal (1946), na juventude José Gonçalves trabalhava de dia para poder estudar à noite, antes de imigrar para França onde viveu 30 anos. «Por isso digo que não estamos condenados à pobreza quando nascemos nela. Mas, claro, é necessário que o Estado fomente mais a possibilidade de mobilidade social». Apesar de a sua empresa se focar nos segmentos de topo (médio alto e alto), o presidente do conselho de administração não descura a outra ponta do mercado.

Neste momento, tem em carteira um lote em Portimão para habitação social, e cuja construção está prevista para arrancar já em 2019. Há ainda um outro projeto em Albufeira, no qual 20 por cento da urbanização será para este nicho. A comercialização poderá ser venda ou arrendamento. «As duas coisas. Ambos os preços estão limitados e regulados por lei. Terá de haver um misto de oferta, pois nem toda a gente pode comprar», admite.

Ainda neste domínio, «ganhámos o primeiro concurso para habitação social em Lisboa. Penso que o Tribunal de Contas quer anulá-lo, mas isso está em discussão. Visto a dificuldade que há em contratar mão de obra e os preços, é um concurso em que a empresa não vai ganhar dinheiro. Mas gostaria de fazer, pois é a nossa responsabilidade social. Quando concorremos, não foi por uma questão de lucro, mas porque é algo que faz falta à população», esclarece.

Estes projetos «também têm de ter qualidade. Eu não vejo os bairros sociais como ghettos. Vejo a habitação social inserida nas cidades. Uma mistura entre classes é benéfico para todos, porque os pobres também podem passar a ser ricos, e os ricos também podem vir a ser pobres. Tem acontecido a muitos, ultimamente. Claro que isso tem a ver com o andar da economia e do mundo. Mas para mim, não faz sentido nenhum estigmatizar», sublinha. «O país mudará pouco a pouco se cuidarmos da educação, da cultura e da arte. Mas primeiro é preciso que as pessoas não estejam constantemente a debater-se pela comida do dia a dia».

Faltam casas para alojar a mão de obra que o Algarve precisa

Um problema que António Gonçalves, presidente do conselho de administração do grupo «Libertas» se queixa tem a ver com a mobilidade laboral. «Estamos a fazer 200 frações por ano no Algarve. E temos uma dificuldade enorme em encontrar mão de obra. Vem quase toda do norte do país. Também há pessoal local, mas na maioria são imigrantes. E quando convido alguém para vir trabalhar» as propostas encontram resistência por falta de alojamento temporário, a preços acessíveis. «Eu também acho que as pessoas têm razão em não virem, se ficarem mal alojadas. A vida é só uma e não podemos viver em barracas», considera. «Esse tempo já passou e acredito que a riqueza do país é suficiente para criar todos esses instrumentos», diz.

A solução, contudo, poderá ser importada. «Quando eu fui para França, fiquei num alojamento para jovens trabalhadores, onde tínhamos uma cozinha e sala comuns. Uma espécie de uma república, com o essencial para viver. Não sei se um modelo com esse conceito não faria sentido em certos sítios do Algarve, para que as pessoas se possam inserir num primeiro tempo, e depois, mais tarde, comprarem as suas casas e continuarem a vida», opina. «O que aconteceu a mim, foi que tive onde alojar-me com alguma dignidade para pôr o pé no estribo. E depois, tive de subir o resto do caminho a pulso. Mas se não tivesse tido isso, teria sido difícil», admite.

Imobiliário tem de saber como baixar os preços

Dada a inflação dos preços das casas hoje, há quem preveja que o tempo das barracas possa mesmo regressar. «É verdade que o preço do imobiliário subiu muito. E o nosso preço de custo, para construir, também. No nosso caso, só fazemos casas com classe energética A ou A+. Noutros tempos, as janelas eram caixilharia de alumínio. Hoje são vidros duplos com corte térmico, as águas sanitárias são aquecidas pelo solar térmico. Em Albufeira estamos a instalar painéis fotovoltaicos para alimentar todas as zonas comuns e dessa forma reduzir as despesas do condomínio e a pegada energética. Mas tudo isto tem custos», explica.

De novo, José Gonçalves mostra uma visão progressista e admite que é urgente encontrar formas de baixar os preços. A solução poderá passar pela construção pré-fabricada. «Mais dia, menos dia, as casas terão que ser pré-feitas em fábricas antes de serem implementadas. Não vejo grande problema nisso até porque já se conseguem fazer com qualidade e longevidade. Os preços é que ainda não são assim tão diferentes dos da construção tradicional. Ou seja, a diferença, para já, ainda não compensa. Mas terá que compensar. Uma casa feita em blocos terá que ser mais barata, mas com a mesma qualidade que as outras». O grupo «Libertas» não fecha a porta a essa possibilidade. «É provável, sobretudo em parceria com outras empresas» fornecedoras.

RGEU não pode continuar a ser à medida de cada Câmara

Para António J. Gonçalves, as autarquias têm hoje a obrigação de investir em casas para a população. «Quando não tinham dinheiro, não tinham. Mas hoje recebem IMI, IMT e mais as taxas que cobram. Devem dedicar uma parte para construir habitação social. O mercado não resolve tudo». Este construtor assume-se como «apologista de um mercado controlado, mas sem tanta burocracia». Uma das queixas tem a ver com a aplicação do Regulamento Geral das Edificações Urbanas (RGEU), cujos procedimentos variam de autarquia para autarquia. «Inventa-se uma quantidade de coisas que nunca sabemos. Essa burocracia faz com que tudo atrase. E é uma chatice termos que ter um especialista para cada Câmara do país», lamenta.

«São opções políticas e cada um quer fazer o seu jardim. Por exemplo, na década de 1980, houve um problema em Albufeira porque morreu um turista num apartamento que tinha gás. E portanto, alteraram o regulamento para os apartamentos que hoje, já nem gás têm. Mas o regulamento ainda proíbe cozinhas abertas… quando já não há risco nenhum. Para alterar isto é uma complicação. Sugiro que se altere o RGEU para todos, quando for preciso alterar. Não digo que seja uma coisa estática, mas que seja para Portugal inteiro. Há Câmaras mais fundamentalistas, e depois fica à discrição do técnico. Não pode ser», critica.

Próximo ciclo será positivo para Portugal

O núcleo duro da «Libertas» ronda as 140 pessoas, engenheiros, arquitetos, encarregados de obra, administrativos, comerciais e pós-venda. «Temos uma equipa moderna, de gente nova. O nosso core business é a construção e imobiliário e temos participações em empresas de energia hídrica e fotovoltaica. Eu sou um apologista das energias renováveis e da agricultura biológica», assume.
Com a atual conjuntura positiva, «não temos tido muitas dificuldades. Até há dois anos, os bancos não financiavam nada. E agora já são mais flexíveis. Passámos todos por uma crise brutal e quem estava neste sector saiu convalescente. Os que escaparam, porque 85 por cento faliu».

Questionado sobre como vê o próximo ciclo para Portugal, José Gonçalves admite que «toda a gente fala numa nova crise, mas penso que não vai chegar a Portugal imediatamente. Será uma crise muito relativa e penso que vamos continuar a crescer, embora não seja um crescimento enorme. O Brexit preocupa-me, é uma pena o Reino Unido sair deste núcleo europeu. Eu que vivi com fronteiras, prezo muito a Europa e a liberdade, não precisar de passaporte, nem de mudar de moeda. Eu vivi isso profundamente e as pessoas nem sequer se dão conta da chatice que é. Gostaria que a Inglaterra ainda voltasse atrás».