Governo «não acertou» nos apoios às PME diz investidor alemão no Algarve

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«É muito mais difícil fazer arrancar um comboio parado, do que mantê-lo a andar», considera Karl Heinz Stock, empresário e empreendedor alemão sediado no Algarve desde 1996. Layoff e linhas de crédito não resolvem problemas das empresas, critica. «Repetir medidas do passado não salvará a economia», que precisa de «uma mudança de paradigma».

Depois de uma carreira bem sucedida na banca, na Alemanha, Karl Heinz Stock focou-se na imobiliária, no direito e até no negócio petroleiro na Rússia. Em 1996 olhou para Portugal onde viu grande potencial, já lá vão 24 anos.

Na altura, decidiu redirecionar os seus investimentos nos mercados financeiros tradicionais e aplicá-los em pequenas e médias empresas portuguesas, enquanto proprietário ou acionista, embora na verdade, a sua ideia original era ter uma vida um pouco mais tranquila no sul do país.

Hoje é conhecido sobretudo no mundo do vinho, enquanto proprietário e gestor da multi-premiada Quinta dos Vales, em Estômbar, concelho de Lagoa, onde também desenvolve enoturismo e se dedica à arte.

Ao todo, o empresário alemão investiu mais de 20 milhões de euros em 12 empresas que empregam cerca de 200 pessoas em sectores como o turismo, media, construção, e produção de equipamento industrial.

«Nos últimos dias tenho vindo a analisar toda esta situação, não apenas no que diz respeito ao turismo, mas numa perspetiva global, com especial atenção às Pequenas e Médias Empresas (PME) que são a espinha dorsal da economia portuguesa», começa por dizer ao barlavento.

«Uma coisa é certa: as soluções de combate à crise que funcionaram no passado não vão resultar no presente, porque foram desenvolvidas no contexto de uma economia dinâmica. Nunca foram pensadas para uma paralisação forçada de quase todos os sectores de atividade, como hoje estamos a viver, e que, muito provavelmente irá durar, pelo menos até ao final de 2021», diz.

Karl Heinz Stock tem um background académico em direito, gestão, além de vários anos experiência à frente de vários negócios (quer em tempos de crescimento, quer em alturas de crise), e portanto, vê com clareza o que está a acontecer.

Um facto interessante na biografia é que trabalhou de perto com o major Lushkov, em Moscovo, onde fundou a primeira sociedade de advogados privada na Rússia.

Neste contexto, e enquanto consultor, ajudou a iniciar e implementar legislação imobiliária naquele país (antes disso, não existia o conceito de propriedade privada), o que lhe valeu a oferta de um doutoramento honoris causa pela Universidade de Moscovo.

«Temos de pensar fora da caixa em estratégias de sobrevivência para as empresas e também para os seus trabalhadores. O impensável aconteceu. Os nossos afinados modelos de negócio, até aqui bem integrados em economias democráticas e socialmente progressistas, simplesmente ruíram por causa deste vírus. Ou seja, todos os procedimentos, legislação e regulamentos, que até hoje foram tão desenvolvidos na teoria e na prática, não conseguiram evitar o desastre. A meu ver, a razão pela qual falharam é simples. Ninguém pensou num congelamento forçado da economia como o que estamos a viver», explica.

«Pelo que já todos percebemos, o vírus não pode ser curado com nenhuma da farmacologia que existe no mundo. A pandemia só poderá ser travada com novos tratamentos. Se usarmos o Coronavírus como analogia para a economia, pouco ou nada do que foi feito em crises anteriores irá funcionar. É preciso uma mudança de paradigma», acrescenta.

«Claro, há uma grande probabilidade dos procedimentos de layoff tal como estão definidos hoje, e também das linhas de crédito que entretanto foram abertas, poderem ajudar a resolver alguns dos problemas de liquidez na tesouraria que enfrentamos. Mas vão criar mais problemas amanhã. Ora, isto não é uma cura, mas uma terapêutica sintomática», compara.

«Aliás, o objetivo da luta contra esta crise económica deve ser a estagnação a longo prazo, que é bastante mais letal para as economias que um golpe duro».

Na opinião do empreendedor alemão, Portugal deve adotar já «as medidas de layoff mais protecionistas em vigor na União Europeia (UE), durante o tempo que for necessário. Estas medidas devem também suportar os custos a 100 por cento com o pessoal em dispensa temporária. Isto permitiria aliviar a pressão na liquidez das PME. Isto é mais do que justo, porque quer as empresas, quer os seus trabalhadores pagaram as devidas contribuições para a Segurança Social».

Enquanto empreendedor, Stock considera que neste aspeto, «Portugal não está a ser eficiente. Longe disso. Enquanto que outros países da UE estão suportar os custos do layoff até 1 ano, em alternativa ao subsídio de desemprego, o governo português oferece este instrumento por apenas três meses e coloca 30 por cento dos custos nas costas das empresas, o que não é, de todo, aceitável».

O empresário explica porquê: «o Estado deveria olhar para o dinheiro que dá às empresas como um investimento para reiniciar a economia, e não como empréstimos a pagar no futuro. Esse capital já está e será perdido na função solidária do Estado. É um facto com que hoje somos obrigados a viver».

«Acho que alguns governos já perceberam que é preciso novo capital para ultrapassarmos estes tempos improdutivos e perigosos. Só assim será possível fazer um restart a todo o tecido empresarial e a toda a vida em sociedade, tal como a conhecíamos antes desta pandemia. É muito mais difícil e requer um cruzamento múltiplo de força para fazer arrancar um comboio parado, do que mantê-lo a andar», sublinha.

Agora, «o governo deve aproveitar este momento único para agir não apenas como um regulador, mas como um player ativo no mercado, usando os seus poderes, de forma a que podemos comparar a um hipotético monopolista, para investir na economia, em vez de doar. Uma ação deste tipo resultará num maior Retorno sobre o investimento (ROI)», sugere.

Stock lembra que o Estado Português não só cobra até 23 por cento de IVA ao volume de negócios das empresas: «é preciso que as pessoas percebam o interesse que o Estado deve ter em manter o tecido empresarial vivo, pois grande parte do PIB vai, direta ou indiretamente parar aos cofres do país».

«Cada euro que gastamos foi taxado várias vezes ainda antes de chegar às empresas e será outra vez taxado (impostos sob os lucros, taxas sobre os dividendos, salários, nas despesas de consumo financiadas através dos ordenados e nas contribuições para a Segurança Social). Tudo isto é extraído do volume de negócio das empresas. Além disso, os empresários investem em pessoal e em equipamentos para criarem valor», sublinha.

«Quase 50 por cento da faturação doméstica das empresas ativas vai parar aos cofres do Estado, que por sua vez, os reinveste de acordo com os interesses do país. Cada vez que uma empresa perde rendimento, quem perde mais é o Estado. Porque é também o Estado que cobra a maior fatia. Por isso é que todos os apoios que possam e venham a ser dados às PME não devem ser vistos como fundos perdidos, mas como investimento do interesse do Estado», conclui.