Geek Girls de Faro provam que a tecnologia é para todas

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Mas afinal, o que é uma geek girl? Responde Raquel Ponte, administradora da empresa de software alemã Turbine Kreuzberg PT e fundadora do núcleo desta comunidade em Faro, à margem de um encontro sobre inteligência artificial e marketing digital, na sexta-feira, dia 5 de abril, na Escola de Tecnologias, Inovação e Criação do Algarve (ETIC_Algarve), em Faro.

«É o termo que se utiliza para descrever uma mulher que de algum modo trabalha ou tem interesse pelas áreas da ciência, tecnologia, engenharia ou matemática. Neste momento, torna-se premente cativar as mulheres para estas áreas, pois corremos o risco de falta de mão de obra no futuro. As mulheres ainda estão sub-representadas, muito devido à educação e estigmas de género», sintetizou.

Além disso, e de acordo com a sua própria experiência, «as equipas de trabalho quando são heterogéneas, quer em termos de género, quer multiculturais, são mais inovadoras e resilientes. Está comprovado que a diversidade faz a força», sublinhou.

No entanto, «há vários estudos que comprovam que as mulheres tendem a prosseguir estudos nas ciências humanas, e os homens nas ciências exatas», tendência esta que causa disparidades.

«Apenas 22 por cento de todas as pessoas que trabalham em inteligência artificial são mulheres e esta é apenas uma de muitas áreas tecnológicas. Além de ser uma questão da igualdade de género, interessa à economia que cada vez mais mulheres adiram às designadas ciências exatas e às tecnologias, precisamente pela resiliência e maior inovação que lhe irão conferir», acrescentou ainda Raquel Ponte.

Para o encontro na ETIC_Algarve, as Geek Girls de Faro convidaram Sara Rijo e Ana Raquel Melo a partilharem as suas experiências. A primeira tem 26 anos, fez o curso de Engenharia Informática no Instituto Superior Manuel Teixeira Gomes (ISMAT), em Portimão, e mais tarde concluiu mestrado na mesma área, em Évora, onde se especializou em inteligência artificial. «Sempre estive em turmas só de rapazes, mas a integração foi máxima da parte deles. De qualquer maneira sempre conheci mulheres no mundo das tecnologias e foi isso que me influenciou. Senti que também era algo que eu podia fazer», afirmou Sara Rijo ao «barlavento». Começou por trabalhar à distância numa start-up americana e, dois anos mais tarde, decidiu abrir a sua própria empresa, a Hyperstage.ai. «Iniciei-me em fevereiro. É um projeto muito recente, mas trabalho não me tem faltado», contou a jovem algarvia.

Ana Raquel Melo, de 41 anos, tem um percurso diferente. A primeira licenciatura foi em jornalismo, e após ter trabalhado na área cinco anos, percebeu que a paixão que sempre sentira por computadores e números falava mais alto. «Eu vivia num meio rural. Na minha altura as mulheres eram professoras, enfermeiras ou lojistas. Eu sempre brinquei com rapazes, porque as raparigas aborreciam-me. Sempre tive gostos diferentes e o meu pai ofereceu-me um computador em segunda-mão quando tinha 14 anos», numa altura em que ainda eram máquinas algo invulgares para se ter em casa. Tirou uma segunda licenciatura, desta vez em Estatística e Gestão de Informação, na Universidade Nova de Lisboa. Mais tarde, concluiu um mestrado em Publicidade e Marketing. Há cinco anos abriu a sua primeira empresa, a Inboundware, muito focada no marketing digital.

Ana Raquel Melo e Sara Rijo

As palestrantes encheram por completo o auditório da ETIC_Algarve, naquele que foi o segundo evento das Geek Girls Portugal de Faro. O primeiro realizou-se em novembro do ano passado e funcionou para apresentar o grupo. Para o futuro, Raquel Ponte quer focar-se na «educação, que é um dos pilares das Geek Girls Portugal. A ideia é deslocarmo-nos às escolas. Queremos trabalhar com instituições de proteção de raparigas e organizar workshops tecnológicos». O evento contou com o apoio logístico da Ambifaro e do município de Faro.

Coletivo tem quase uma década mas tardou a chegar à região

A comunidade Geek Girls Portugal nasceu em 2010, mas só chegou a Faro no final do ano passado. Raquel Ponte, gestora da empresa alemã de software Turbine Kreuzberg PT contou ao «barlavento» que, «quando entrei deparei-me com a total ausência de mulheres na equipa e aquando dos recrutamentos achei que deveria focar-me também em resolver esta lacuna». Daí a aproximação às Geek Girls Portugal, «para entrar na rede e tentar construi-la aqui no Algarve», onde não existia. «A sul do Tejo era um deserto. A maior parte dos grupos eram de Lisboa, Leiria, Coimbra, Aveiro, Porto e Braga». Juntou-se a Vanessa Nascimento, gestora de outra empresa congénere a trabalhar na capital algarvia e assim nasceu o núcleo regional.

Porém, como nenhuma das fundadoras tem formação em tecnologia ou programação, era essencial acrescentar mais membros à comunidade. Surge então Penélope Gonçalves, da empresa Contentserv Technologies e Patrícia Ribeiro, que acabou por se juntar à equipa da Turbine Kreuzberg PT, que conta agora com três mulheres: uma gestora, uma responsável de recursos humanos e uma programadora. Até ao final deste ano, Raquel Ponte e Vanessa Nascimento querem recrutar mais 10 colaboradores para a empresa, o que representa também uma oportunidade para a paridade de género. «Claro que não pretendemos fazer discriminação positiva só porque sim. Mas se nos aparecer uma mulher programadora, e se der provas de estar à altura, vamos tentar puxar por ela», concluiu.

ETIC_Algarve parceira das empresas

A Escola de Tecnologias, Inovação e Criação do Algarve (ETIC_Algarve) está há cinco anos em Faro, sendo que a empresa alemã Turbine Kreuzberg PT está na mesma cidade há quatro, data em que surgiu a parceria entre ambas. Segundo o diretor Nuno Ribeiro, a oferta formativa está alinhada com as necessidades das empresas deste sector, e no que diz respeito ao desenvolvimento de software, a escola tem hoje três cursos de programação. Um relacionado com a indústria dos videojogos, outro voltado apenas para a web e um mais recente, para o desenvolvimento de novas aplicações web e mobile.

No conjunto, o objetivo é formar uma bolsa de massa crítica capaz e especializada na região. Em relação aos alunos que procuram estes cursos, o responsável admite que, se no início, a presença masculina dominava, agora o paradigma está a mudar. Nuno Ribeiro acredita que haverá mais Geek Girls nas novas gerações, não só na programação, como também a trabalhar em áreas especializadas como a realidade aumentada e a inteligência artificial.

«Cada um vale pelo seu trabalho, pela sua vontade, pela sua forma de estar, pelo seu empenho, por amar o que faz e isso não tem sexo, nem idade», explicita, embora a lacuna feminina que hoje existe nas ciências exatas, terá que ser resolvida cedo, nas escolas básicas, «como já se faz noutros países que apresentam resultados brutais» na paridade tecnológica.

Fotos – Maria Simiris