Finalistas da Pinheiro e Rosa cozinham para o MAPS

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Turma de terceiro ano do curso profissional técnico de Cozinha e Pastelaria do Agrupamento de Escolas Pinheiro e Rosa preparou as 150 refeições diárias entregues pelo Movimento de Apoio à Problemática da Sida (MAPS) aos mais necessitados do concelho de Faro.

No final do curso, todos os alunos finalistas têm de realizar um estágio curricular, regra geral, em unidades hoteleiras ou restaurantes. No ano letivo de 2019/2020, contudo, a pandemia da COVID-19 mudou o paradigma.

Em vez de esperarem por outra oportunidade, ou até mesmo realizarem o estágio em casa, como a Escola Secundária Pinheiro e Rosa chegou a propor, seis jovens escolheram concluir a etapa final na cozinha do Movimento de Apoio à Problemática da Sida (MAPS).

Depois do final da iniciativa «Alimentar a Saúde», criada por um conjunto de chefs em Tavira, no final do mês de abril, o MAPS deixou de receber refeições quentes diárias que chegavam por via daquele projeto solidário. No entanto, a procura por parte de quem precisa, continuou.

«Na nossa sede confeccionávamos alguma comida, mas em muito menor quantidade. Não tínhamos capacidade para o fazer em larga escala. Ainda tentámos aguentar uns dias, mas quando a Refood voltou à sua atividade plena, deixámos de usufruir dos excedentes dos supermercados e dos seus parceiros. Apontávamos mesmo para terminar este serviço de entrega de refeições, quando surgiu esta oportunidade», conta ao barlavento, Fábio Simão, presidente do MAPS.

Como esta instituição já tem parceria com o Agrupamento de Escolas Pinheiro e Rosa, «solicitámos a possibilidade de haver uma escola disponível para darmos continuidade a esta resposta social. Desde logo foi-nos facilitado o acesso à cozinha da EB 2/3 Dr. Neves Júnior».

«Nesse mesmo momento surgiu também a oportunidade de virmos a acolher os alunos para fazerem o estágio connosco. Falámos com o município de Faro, que nos disse que tinha todo o interesse em que mantivéssemos este serviço, levaram a reunião de Câmara e no dia 1 de junho foi aprovado um protocolo com um valor adequado às refeições que distribuímos por dia», explica o presidente.

Assim, até pelo menos ao final do mês de junho, serão os jovens que todos os dias irão garantir as 150 refeições quentes que o MAPS distribui na sua sede a quem tem fome.

«Quando falei com os meus alunos, apoiaram logo a iniciativa de início. Dividimo-los em dois grupos para criar o horário espelho. A instituição garante o transporte dos jovens. Trabalham sempre de máscara, chegam às 8h30 e apoiam em tudo. Na cozinha, duas funcionárias coordenam os trabalhos e serão elas que os irão avaliar no final do estágio», conta o chef de cozinha e professor responsável pelo curso André Pereira Rodrigues.

De segunda a sexta-feira, da escola saem 150 packs alimentares que incluem sopa, prato principal, fruta, água e alguns reforços, de acordo com as doações que a instituição recebe, que podem ser salgados, bolos, pão e croissants.

«Damos refeições equilibradas e durante 24 horas, uma pessoa não passa fome com o que doamos. Isso está garantido», diz-nos o professor.

Ainda de acordo com aquele formador, este estágio é sobretudo importante «para que os jovens se sensibilizem para as causas sociais. As pessoas não têm noção da realidade. Até a mim me chocou muito o primeiro dia que cheguei ao MAPS e vi 200 pessoas na fila à espera de comer. Estes alunos são muito motivados. Estão aqui todas as manhãs porque querem e estão a fazer uma grande diferença».

«A tipologia que praticam agora é diferente de outro estágio que tivessem em circunstâncias ditas normais, mas acaba por ser comida de conforto. Algo que muitos restaurantes já começam a adotar. Somos todos, em equipa, que decidimos o que vamos cozinhar no dia seguinte, consoante o que temos. Os alunos aprendem muito e acabam por gostar» ainda mais da futura profissão.

Vitória Salgadinho, de 19 anos, corrobora a ideia do professor. «Estou a gostar porque além de estar a trabalhar na minha área estou a ajudar pessoas que precisam. Prefiro estar aqui a aprender, do que estar em casa. Sinto que a minha ajuda é importante e a verdade é que no futuro vou estar mais atenta às causas sociais».

A coordenadora Vitória e dos seus dois colegas, que compõem a segunda equipa de trabalho, é a monitora Lígia Costa, funcionária do MAPS há seis anos.

«Não sei se na idade deles teria esta predisposição. Vejo-os muito motivados porque a base é garantir que alguém não vai dormir de barriga vazia. Se não fosse esta parceria, não seria possível darmos aso à nossa vontade» de continuar a servir refeições diárias.

«Não valeria de nada querermos muito continuar a dar o apoio alimentar porque o nosso espaço físico não permitia. Com a parceria e com estes alunos é óbvio que tudo se torna mais simples, mais rápido e muito melhor para o nosso objetivo», refere.

«Trabalhar na área social já é uma experiência profissional e pessoal que fica para a vida. Nesta situação, que nos surgiu a todos do nada, tivemos de nos reinventar, aprimorar e esmerar para fazer face a tantas necessidades. Seremos, com toda a certeza, seres humanos muito melhores depois disto. O mesmo acontece com estes jovens. Acho que esta experiência vai torná-los melhores adultos. Não tenho dúvidas. Por mais voltas que a vida dê, por muito que não sigam este rumo, esta forma de estar e de ser, nunca mais ninguém lhes tira esta experiência».

Pedidos de ajuda continuam a aumentar Esta resposta social, que a IPSS não possuía, começou com apenas 20 beneficiários, a meio do mês de março, quando foi decretado o estado de Emergência nacional. Na altura, Fábio Simão disse que os pedidos de ajuda chegavam todos os dias.

Quase três meses depois, «os números continuam a subir, mas notamos um certo equilíbrio. Os layoffs foram levantados e parte dos beneficiários voltou a trabalhar e deixou de precisar da nossa ajuda. Agora estamos focados nas pessoas que estão desempregadas e em situação de sem-abrigo. Só estes últimos são cerca de 90, só em Faro. Por dia confeccionamos sempre as 150 refeições completas. Temos capacidade para mais, mas os números são difíceis de controlar porque às vezes damos comida para dois dias e há famílias que recebem apoios semanais», assegura.

Quem procura agora por apoio alimentar, de acordo com o responsável da instituição «são pessoas que perderam o emprego. Temos várias situações de estabelecimentos que tentaram abrir e ver como corria. Não correu bem e os cortes foram necessários, sendo que a mão de obra foi logo o primeiro. Depois as pessoas em situação de sem-abrigo sempre existiram, mas recorriam aqueles trabalhos muito precários de arrumar carros, pedir esmolas, fazer limpezas ou biscates de carpintaria. Desenrascavam-se ao dia e isso agora já não existe com tanta frequência».

Uma situação, que segundo o responsável, poderá piorar. «O verão não vai ser o que se espera. Prevê-se uma vaga de turistas, mas acho que será um turismo muito português e muito controlado. Há estabelecimentos que no ano passado, por esta altura, faturavam 2500 euros por dia e agora estão a fazer 50 ou 100».

A juntar a isto, a pandemia trouxe ainda um novo problema.

«Tivemos a situação de um casal com uma criança, que já apoiávamos a nível alimentar, que nos ligou a chorar porque o senhorio despejou-os. O atraso nas rendas, e muitas delas sem contratos, está a levar as pessoas para a rua. A nossa estrutura não está preparada. Alugar uma casa continua a ser muito caro e a capacidade para as pagar diminuiu muito».

«Acredito que nos próximos meses vamos ver ainda mais os efeitos sociais desta crise. No final deste mês voltaremos a falar com o município de Faro para se verificar se continuamos a ter apoio. Não sei qual será a disponibilidade, porque estamos a falar de um valor considerável. Temos de ponderar a possibilidade de parar. Tem sido um esforço muito grande da nossa parte, com uma valência que não tínhamos. Estamos a tentar perceber se existe a necessidade de dar continuidade ou não. Junho está garantido. Se tivermos financiamento e capacidade, iremos ponderar continuar, pelo menos por mais um mês», garante Fábio Simão.

MAPS precisa de ajuda para concluir Centro de Alojamento de Emergência Social de Faro

Tal como o barlavento já tinha noticiado, o MAPS preparava-se, em março, para assinar o protocolo de cedência de um edifício no Patacão, de forma a criar um Centro de Alojamento de Emergência Social (CAES), com resposta para quase 50 pessoas em situação de sem-abrigo.

Foi no primeiro dia do mês de junho que a Instituição Particular de Solidariedade Social (IPSS) tomou posse do edifício e celebrou o protocolo com a Câmara Municipal de Faro.

Segundo Fábio Simão, o Algarve, tem um número de casos «assustador e desde 2017, quando a região deixou de ter o único CAES, em Tavira, que pensamos neste projeto de querer dar dignidade a quem a perdeu».

«Esta resposta social é urgente porque o Algarve, de momento, não tem resposta quanto a alojamento social e a que possui, promovida pelo MAPS com nove camas, não consegue dar resposta às necessidades da região», sobretudo no atual contexto de pandemia.

O responsável pelo MAPS acredita que o CAES é urgente, «uma vez que há muitas pessoas que se encontram sem rendimentos e que estão a ser despejadas de casa pelos seus senhorios».

E «quando as obras estiverem completas, temos a ideia de montar um refeitório social». Para que tudo isto se torne realidade, a instituição precisa «de donativos e parceiros. Procuramos empresas e fábricas que nos possam doar materiais. Não pedimos dinheiro, mas precisamos de material elétrico, de construção, de canalização e de alumínios. Outro custo que nos assusta é a mão de obra e, verdade seja dita, estamos com financiamento zero. Mas é urgente avançarmos para que a obra possa ser feita no menor tempo possível. O nosso objetivo, otimismo ou não, é no final de setembro termos o CAES operacional», aponta.

O primeiro passo será agora construir a vedação à volta do edifício. Um custo suportado em 50 por cento pela Câmara Municipal de Faro, «um grande parceiro de excelência» do MAPS, nas palavras do presidente. Além disso, «candidatamo-nos ainda ao projeto Frota Solidária, da Fundação Montepio, para ver se conseguimos uma carrinha com nove lugares».

Faro assina protocolo amanhã

O protocolo de cooperação entre o município de Faro e o MAPS – Movimento de apoio à Problemática da Sida, com vista à criação de um equipamento social destinado ao alojamento temporário de pessoas em situação de sem abrigo, será assinado amanhã, dia 18 de junho, quinta-feira, às 11h00, no Salão Nobre da Câmara Municipal de Faro.