Exposição «Trajectos» reúne a obra de Fernando Silva Grade

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É conhecido sobretudo pelo ativismo cívico e ambiental. Mas a pintura tem sido uma constante ao longo da sua vida. Como começou este percurso nas artes?
Fernando Silva Grade –
Nos anos setenta ser artista não era uma opção a considerar em termos profissionais (a menos que fossemos filhos de artistas). Havia os cursos de direito, de letras, de engenharia, de medicina e pouco mais. Quando tive de escolher optei por biologia, fintando à última hora o que me estava destinado: ser engenheiro.
Gostei de ir para biologia pois tinha a ver com a minha atracão e sensibilidade pela natureza. Tinha como ídolo e referência o Jacques-Ives Cousteau e sonhava ser biólogo num barco como o Calypso. Contudo, ao longo do curso constatei que a minha envolvência com a natureza era sobretudo de teor emocional, isto é, tinha apetência para com ela interagir artisticamente e não cientificamente. Depois de tirar o curso ainda trabalhei um ano na Reserva Natural da Ria Formosa (denominação da altura) e, depois, como não havia Calypsos desmobilizei e tentei encontrar um caminho para as minhas aspirações em múltiplas atividades. Nessa altura já desenhava com frequência e também me envolvia na música. Até que aos trinta anos experimentei pintar um quadro a óleo e tive o grande flash da minha vida. Percebi instantaneamente que esse era o meu caminho.

Desenvolveu algum estilo pessoal ao longo da carreira na pintura. Ou melhor, como descreveria a sua pintura a quem não a conhece?
Costuma dizer-se que somente 10 anos depois de se sair da escola de Belas Artes é que se consegue começar a desenvolver um nicho próprio, original e inconfundível. Isto nos tempos que correm ainda é mais verdade, pois, parece que já tudo foi inventado e experimentado.
Eu pinto a óleo, geralmente sobre tela e por vezes sobre madeira (MDF). Aliás, atualmente, já se torna raro haver artistas visuais a trabalharem exclusivamente com estes materiais, os materiais tradicionais. A pulverização de suportes e materiais e a hibridização dos procedimentos criativos são assombrosas hoje em dia. Depois de acabar o curso de pintura do Ar.co em 1992, experimentei, durante alguns anos, vários caminhos até que, naturalmente, comecei a desenvolver séries de quadros sujeitas a uma matriz temática, e que já se contam por mais de dez, e que se traduzem na exploração e desenvolvimento de um nicho criativo identitário.
Não é fácil descrever, hoje em dia, os vários estilos de pintura, pois já não há correntes estilísticas onde nos possamos enquadrar, como sempre existiu até aos anos sessenta do século passado. A minha pintura é figurativa (tenho uma série abstrata). Poderei dizer que sou um paisagista, embora esta denominação no contexto da pintura contemporânea muito pouco tem a ver com o paisagismo da pintura tradicional. Contrariamente ao cariz urbano dos trabalhos da esmagadora maioria dos artistas visuais atuais, eu vou buscar os motivos para os meus trabalhos à natureza e também à arquitetura tradicional. A luz tem uma grande importância nas minhas composições, ou eu não vivesse num dos sítios do mundo onde o céu e a luz são mais exuberantes e extraordinários.

Tem alguma influência, um artista ou pintor?
Todos os artistas sofrem influências e, naturalmente, eu não sou excepção. Começo por dizer que me fascina a técnica portentosa dos pintores clássicos e impressionistas. A sofisticação pictórica daqueles ultrapassa de longe a dos pintores atuais (existem algumas, poucas, excepções). Isto tem a ver, para lá de outras razões, com o facto de já ninguém ensinar a pintar nas escolas de belas artes. A pintura a óleo é uma técnica muito complexa e sem apoio didático nunca conseguiremos manipular convenientemente o óleo. Foi a partir do início do séc XX que se começou a perder o contacto com esse legado que abrangia, para lá do procedimento, também o conhecimento profundo dos materiais como médiums, vernizes, pigmentos, primários para telas, etc. Por exemplo, hoje em dia, é quase impossível arranjar os materiais adequados que permita fazer uma pintura cuja superfície tenha aquela qualidade de nobreza que se distingue nos quadros antigos. Bom, relativamente a pintores em concreto que são, para mim, referências fundamentais, cito o Gauguin, pela cor, poética e exotismo e o Eduard Hopper, pela luz, composição e atmosfera. Relativamente a pintores portugueses atuais que me influenciaram quero citar o João Queiroz.

Pode falar um pouco sobre o seu método de trabalho?
Só consigo pintar durante o dia. Quando o tempo está muito nublado uso um holofote com luz do dia como auxiliar. Na minha pintura as cores são muito importantes, assim como as relações de luz/sombra. À noite as cores são completamente diferentes. Pinto todos os dias e só descanso um dia por semana em média. Pintar é uma atividade muito exigente e às vezes exige esforços tremendos. Em média pinto cinco horas por dia. Em alturas de exposições pode chegar às 7/8 horas. O planeamento dos quadros é muito importante. Saio para o campo, tiro slides e faço apontamentos. Depois seleciono as imagens que vão servir de base para os quadros. Não pinto a partir de fotografias, mas sim de slides que coloco numa espécie de óculo e que me permite ver o sítio como se lá estivesse, com a riqueza de cores e luz reais. Habituei-me a este método. Penso que não há mais ninguém no mundo que pinte espreitando para esta espécie de óculo, pois não é nada fácil fazê-lo. Também já pintei vários quadros ao vivo. Um quadro de tamanho médio (130x81cm) leva-me cerca de 2 meses a fazer, ou mais. Os meus trabalhos costumam ser bastante complexos.

Porquê só agora uma retrospetiva?
Esta exposição é mais antológica que restrospetiva. Como não arranjei em Faro um espaço em que pudesse meter 60 ou 70 quadros tive que fazer uma seleção de 24 quadros. Na verdade já podia ter feito uma exposição retrospectiva há mais tempo, mas por esta ou aquela razão não houve condições para isso. Não é fácil fazê-lo, pois, a organização de uma tal exposição exige muita despesa e uma logística complexa, como, por exemplo, a recolha e transporte de quadros dos colecionadores. E como se sabe, as instituições culturais estão muito limitadas em termos de verbas. De qualquer forma penso que agora está na altura certa de poder mostrar um pouquinho daquilo que tenho feito ao longo dos anos.

Vários colecionadores emprestaram obras para esta mostra. Qual é a mais emblemática?
Dos quadros a expôr, 17 pertencem a colecionadores privados. Por exemplo, há um quadro que vem de Lisboa e que pertence ao conhecido sismólogo João Fonseca, e que é o maior quadro que já fiz em madeira (MDF) e que tem 195×130 cm. Devido ao material é extremamente pesado o que coloca problemas no transporte. É um quadro que vendi há uns anos atrás na feira internacional de arte «Arte Lisboa». A exposição também vai ter alguns trabalhos recentes.

Que planos para o futuro?
O mercado de arte, principalmente o nacional, está sob a influência de uma crise profunda. Depois de ter atravessado tempos áureos, como nas décadas de 1980 e 1990, a compra e venda de quadros entrou numa recessão a qual não vislumbro o fim. A situação em Portugal, com um mercado pequeno, é para esquecer. Por isso estou a equacionar estratégias que passam pelo mercado internacional.