Em Alcoutim, por trilhos de guardas e contrabandistas

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Caminhadas, natureza, saberes portugueses e espanhóis e história. Estes são os ingredientes do 6º Festival de Caminhadas de Alcoutim que teve ontem, sexta-feira, 8 de março, o seu início, prolongando-se até domingo, 10 de março. O abertura ficou marcada pela inauguração oficial de um trilho da Grande Rota do Guadiana (GR 15), que liga Alcoutim à Ribeira do Vascão, já bem conhecido da população local. São aproximadamente 12 quilómetros em solo algarvio, aos quais se juntam mais quatro em solo alentejano.

Sílvia Madeira, diretora executiva da Odiana – Associação para o Desenvolvimento Local do Baixo Guadiana, entidade responsável pela implementação da GR 15, afirmou aos jornalistas a intenção de querer «continuar a mexer com as vilas e os territórios de baixa densidade», de forma a dinamizar toda a região afastada do litoral, mas cheia de potencial para um outro tipo de turismo. Para os interessados, existe já um «Guia Completo» com informações sobre dormida, locais para comer, pontos de interesse histórico e dicas de exploração.

O caminho ontem inaugurado permite recriar um percurso utilizado pela Guarda Fiscal entre os anos 1950 e 1970, no combate ao contrabando vindo do lado espanhol. Por ali, os guardas deslocavam-se entre postos, alguns dos quais visíveis ao longo da caminhada. Para Nuno Roxo, um guia mertolengo, este percurso é «fantástico».

«Temos sempre o rio ao lado, e é um dos melhores trilhos da Grande Rota». O guia acrescentou que «qualquer pessoa pode fazer este percurso, sendo apenas necessário ter alguma preparação para andar», disse aos jornalistas.

Júlio Cardoso, do serviço de turismo da Câmara Municipal de Alcoutim, classificou este troço num nível de dificuldade médio-baixo. Cardoso revelou também que Alcoutim criou o festival em 2014, inicialmente no verão, mas que a data foi sendo antecipada para evitar o calor, que «prejudicava os caminhantes». A fidelização ao festival é «muito boa», com muitos participantes a regressar. O responsável admite que algumas «dificuldades técnicas na execução dos percursos» ao longo dos anos, mas que tem sido atingido o objetivo de «apresentar trilhos interessantes para competir com os melhores da Europa», conseguindo assim captar algum mercado deste nicho para o interior algarvio.

João Ministro

A caminhada apresentada aos jornalistas colheu o interesse de dezenas de pessoas. A língua espanhola era a mais ouvida, talvez fruto dos 190 metros que distam Alcoutim de Sanlúcar de Guadiana, facilmente transpostos através de uma viagem marítima de cinco minutos, com um custo de apenas 2,50 euros em percurso de ida e volta.

Este Festival de Caminhadas em terras alcoutenejas está inserido na Algarve Walking Season, projeto regional de promoção conjunta destas iniciativas, executado pela Cooperativa para o Desenvolvimento dos Territórios de Baixa Densidade (QRER) em parceria com a Região de Turismo do Algarve (RTA).

Desta Season de caminhadas fazem parte ainda o Walking Festival Ameixial, entre 26 e 28 de abril, e o Barão de São João Walk & Art Fest, agendados para 1 a 3 de novembro.

Segundo explicou Cláudia Ruivinho, da Região de Turismo do Algarve (RTA), estes festivais são idealizados para «combater a sazonalidade da região. Os estrangeiros começam a ter muito interesse pelo Algarve para o turismo de caminhadas, principalmente os alemães, holandeses e ingleses».

Ainda de acordo com a mesma fonte, «a Região de Turismo do Algarve apoia este projeto com uma verba que ronda os 36 mil euros, e o retorno tem, sem dúvida, justificado o investimento».

Para o futuro, as expetativas são de «crescimento», corroboradas por João Ministro, empresário de turismo na natureza um dos organizadores do projeto Algarve Walking Season, que revelou ainda a intenção de «criar um festival de caminhadas do sul da Europa».

Ministro afirmou que estes eventos são feitos «a pensar no território e nas pessoas que lá fazem vida». Fazendo da projeção internacional do Algarve um objetivo, aproveitando a tradição que as caminhadas têm no estrangeiro, vê na «dinamização equilibrada do território e sensibilização das comunidades para o valor dos recursos» algo a ter em conta. O sucesso destes eventos, esse, é inegável. «Em 2018 tivemos 1300 participantes no Ameixial, e o convívio que se gera na zona é espetacular, são momentos muito bons».

As preocupações estão de mão dada com estes certames de exploração natural. «No Ameixial, o conceito zero plástico é para levar avante». Por fim, uma palavra elogiosa para Alcoutim e Sanlúcar, «estas duas localidades tiram um excelente partido da cooperação». No entanto, João Ministro deixou um aviso: «se queremos competir com os melhores, temos de oferecer boas alternativas e percursos cada vez mais naturais. Ainda existe muito alcatrão nas nossas rotas».

Outro  evento em franco crescimento é o Walk & Art Fest do Barão de São João. Anabela Santos, da Almargem, afirmou mesmo que inicialmente, «a ideia era desenvolver este festival em Silves. No entanto, o município não mostrou disponibilidade, ao contrário de Lagos que acolheu de imediato o projeto».

A partir daí, a escolha do Barão de São João foi fácil, até porque na ótica de Anabela Santos, aquele local é uma «incubadora de mentes brilhantes», onde residem muitos estrangeiros, grande parte artistas.

Junto desta comunidade, a aceitação foi enorme. «Esperavam há muito tempo que alguém se lembrasse deles». Ciente de que o nome estrangeiro pode gerar críticas, a Anabela explicou que «é também uma forma de homenagear os muitos estrangeiros que ali vivem e que tão bem acolheram a ideia». A primeira edição do Walk & Art Fest foi um sucesso – 1160 participantes, dos quais 535 caminharam pelos trilhos propostos.

Devido à veia artística presente naquela zona, um dos ex-libris do  festival é mostrar uma instalação artística ao longo da mata, devidamente autorizada pelo Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF).  Anabela Santos explicou que este ano «vai ser enfatizada ainda mais esta vertente» deste festival de caminhadas. E se pensa que as criações ficam ao abandono na floresta, desengane-se. «Os artistas são os primeiros a querer remover o que tiver em mau estado, para depois voltarem a criar algo que substitua a obra anterior».