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Em Albufeira, um novo conceito de cozinha inspira cada vez mais turistas a confeccionarem comida portuguesa. Já na capital algarvia, há cinco anos, que uma academia se dedica a formar novos cozinheiros.

Aberta há menos de um ano, a escola de culinária Mimo Algarve, está localizada no resort Pine Cliffs, em Olhos de Água, Albufeira. Por ali já passaram mais de 2800 formandos. «Somos uma escola de experiências gastronómicas e não uma escola convencional», sintetiza a head chef Lúcia Ribeiro, 40 anos, responsável pelo espaço, natural de Armação de Pêra, embora tenha vivido mais de metade da sua vida em Londres. No currículo conta com colaborações como Gordon Ramsay, Paul Walsh, Claude Bosi e Dieter Koschina, até que decidiu regressar às origens.

Lúcia Ribeiro coordena agora uma equipa de 15 pessoas. O espaço reúne conceitos tão diferentes como «aulas de culinária para adultos, adolescentes, crianças e famílias, uma loja com produtos gourmet, provas de vinho português, e noites gastronómicas com showcookings».

Lúcia Ribeiro, 40 anos, chef e responsável pela escola de culinária Mimo Algarve, em Olhos de Água, Albufeira.

Além disto, disponibiliza ainda cursos de culinária intensivos, com a duração de dois a sete dias, e cujos preços podem variar entre 225 e 785 euros. São procurados sobretudo por estrangeiros que querem aprender receitas como Caldo verde, açorda de bacalhau, carne de porco à alentejana, numa abordagem mais gourmet e contemporânea.

«Estamos abertos durante todo o ano e temos tido uma procura muito positiva. Desde meros curiosos, a profissionais em busca de novas ideias, ou pessoas apaixonadas pela cozinha, muitos têm passado por aqui». Tanto assim é que as reservas para o verão de 2019 continuam a crescer a bom ritmo.

O workshop de cataplana é um dos mais requisitados. «Todos acham surpreendente misturar a carne com marisco, e o facto de como com tão poucos ingredientes se cria algo tão saboroso», sublinha. Em Taiwan, um casal proprietário de um restaurante, decidiu introduzir a iguaria algarvia no menu, depois de terem frequentado um curso curso intensivo de três dias.

Já as aulas para crianças e para famílias, direcionadas para um limite máximo de 12 a 14 pessoas, em simultâneo, estão disponíveis todos os dias da semana. E há quem venha à noite, apenas para assistir ao showcooking dos pratos portugueses, sem a preocupação da confecção.

O conceito de turismo gastronómico Mimo nasceu originalmente em San Sebastian, Espanha, e expandiu-se depois até Sevilha e Algarve.


Em abril chegou a Londres, onde tem tido um «estrondoso sucesso». Até ao final deste ano, deverá abrir um quarto espaço em Tenerife. Em Portugal, a chef Lúcia Ribeiro revelou ao «barlavento» que muito em breve o conceito deverá chegar também às grandes cidades do Porto e Lisboa.

A chef considera ainda que projetos como o Mimo Algarve podem preencher uma «lacuna no sistema de ensino público em Portugal. Noutros países, como Inglaterra, as aulas de gastronomia já fazem parte do currículo de estudos. As nossas aulas para crianças e adolescentes pretendem, de alguma forma, colmatar essa falha no ensino público. Há que preparar os jovens para a vida, e ensiná-los a cozinhar bem e de forma saudável desde uma tenra idade é muito importante», defende.

Faro tem academia para todos

Foi a primeira da região e a terceira a nível nacional. A Algarve Cuisine Academy, em Faro, nasceu em 2014, a «pedido do público», segundo conta ao «barlavento» José Domingos, chef de cozinha, fundador e gerente do projeto.

«Depois de 15 anos a dar aulas na Escola de Hotelaria e de Turismo do Algarve (EHTA), muitos workshops e showcookings um pouco por toda a região, senti que havia uma lacuna na educação não estatal de cozinha», explica.

«Estava limitada a cursos de longa duração e não havia formações disponíveis para pessoas que já trabalham» e apenas querem adquirir ou aprofundar competências, num horário compatível com a vida profissional.

Com este mote, surge a Algarve Cuisine Academy, onde qualquer interessado se pode inscrever quer nas formações, quer nos workshops que são organizados com regularidade. «Num grupo, podemos ter um chef de cozinha, um profissional de hotelaria e alguém que não sabe sequer estrelar um ovo. A formação é direcionada para todos», detalha José Domingos.

José Domingos, chef de cozinha, fundador e gerente da Algarve Cuisine Academy.

No que toca a formações de cozinha, a academia tem à disposição duas opções, ambas em regime pós-laboral. Uma de 100 horas, e outra de 60 horas. Em cada sessão é dado um módulo, desde sopas, entradas frias, entradas quentes, carne, peixe, sobremesa e acompanhamentos.

Ambas são lecionadas durante a época baixa, de setembro a maio, de forma a ser mais fácil aos profissionais de cozinha poderem frequentá-las. No final, cada formando leva para casa uma certificação profissional.

Já nos workshops, não faltam escolhas. São dados aos sábados, entre as 17 e as 21 horas, por norma pelo chef José Domingos e abordam todo o tipo de gastronomia, desde o sushi à comida vegetariana, e até ao cake design. Cada grupo tem a lotação máxima de 16 pessoas que preparam entre nove a 11 receitas, quase todas da autoria do fundador da academia.

«Primeiro fazemos um briefing onde eu apresento as receitas e explico o porquê das coisas e como estas devem ser preparadas. Depois, divido os formandos em grupos e são distribuídas tarefas», explica. No final, é tempo de degustar as iguarias. «Jantamos e tiramos ilações do que se passou, do que correu bem e do que poderia ter ficado melhor executado».

Também para os mais novos há oferta. Nas férias de verão, em junho e julho, há uma semana dedicada às crianças. «O objetivo é que se consigam desenrascar em casa, que percam o medo das facas e que comecem a ganhar o gosto pela cozinha», garante.

Outro público-alvo são os jovens que se preparam para ir para a universidade, «que precisam de saber fazer uma sopa, arroz e todas as coisas básicas» da alimentação. «Tem tido muito sucesso e espero que este ano se repita».

Fatores de distinção

A ideia é que «qualquer pessoa possa ter acesso à formação», de forma prática, sem disciplinas teóricas e num «ambiente de harmonia e de amizade». Além disso, todos os equipamentos da Algarve Cuisine Academy são domésticos.

«Não são específicos, nem industrializados. Quando idealizei esta academia, foi com o objetivo de ter o máximo de utensílios iguais aos que as pessoas têm em casa. Assim quem cozinha aqui, pode repetir em casa. Já os profissionais, se confeccionam em fornos com vetores, também o podem fazer em modelos mais básicos», explicita. Os ingredientes também seguem esta filosofia. «Nós usamos produtos que as pessoas não tenham fácil acesso, ou de preços alcançáveis».

Joel Nunes, 34 anos, veio da Zambujeira do Mar. Fez 300 quilómetros para participar no workshop de cozinha vegetariana, no sábado, 4 de maio. «Licenciei-me em Engenharia Alimentar na Universidade do Algarve, mas depois senti necessidade de aprofundar conhecimentos. O meu objetivo é abrir um projeto ligado à culinária», conta ao «barlavento».

Também os estrangeiros passam por aqui, segundo revela Margarida Domingos, mulher do chef José. «Já tivemos um curso de 100 horas com três formandas de Brasília. Vierem de propósito e ficaram dois meses alojadas num hostel da cidade. Também já acolhemos moçambicanos, pois segundo percebi, é um país escasso em formação específica de cozinha».

Mas mesmo na Europa, não é fácil aprender a cozinhar. «Na Holanda, este tipo de cursos são muito caros, segundo nos disse uma formanda daquele país que queria abrir um negócio próprio e nos procurou». Para o futuro, José Domingos quer apenas manter o standard elevado e não pensa em expandir o negócio. «Estou satisfeito e orgulhoso. O objetivo é continuar o que tenho feito, com qualidade e não com quantidade».