Designers de moda algarvias transformam lixo em coleções de luxo

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Jovens farenses, licenciadas em design de moda, criaram juntas duas coleções a partir de materiais e tecidos rejeitados. As peças já desfilaram no Portugal Fashion do Porto e tiveram destaque na revista Vogue de Itália. Em breve, vão entrar no mercado asiático.

«A ideia surgiu em 2017. Ambas queríamos participar nas plataformas de moda nacionais e decidimos que juntas teríamos mais hipóteses», começa por contar ao «barlavento» Ana Eusébio, de 24 anos, uma das criadoras da marca «LESS buy.less».

«Não queríamos apresentar apenas um portefólio de moda, queríamos um projeto com pés e cabeça. Fizemos estudo de mercado, analisámos o consumidor, desenvolvemos a identidade gráfica e o marketing. Demos por nós com uma candidatura ao Bloom – Portugal Fashion e com uma marca coesa e diferenciadora que acabou por ser lançada oficialmente em março de 2018, nessa mesma plataforma», revela a designer.

A marca com assinatura algarvia destaca-se por ser sustentável e assente sobretudo no conceito de economia circular – um modelo que defende que os resíduos devem ser transformados, através da inovação, em subprodutos ou outros materiais, que promovam a reutilização, recuperação e reciclagem de materiais.

«Ao trabalharmos na área têxtil apercebemo-nos do enorme desperdício que existe nas fábricas, seja devido a estampados com defeito, cores erradas, entre outros motivos para a rejeição. Juntas fazemos uso desse desperdício [dead stock] e criamos peças únicas com imenso valor. Infelizmente, a moda é considerada, muitas vezes, como algo fútil, e numa tentativa de mudar essas mentalidades, criámos este projeto que se destaca por ser sustentável e colaborativo», explicita a colega Catarina Gonçalves, de 24 anos.

Designers algarvias

Mas não é só na sustentabilidade que o projeto se destaca. Ambas as coleções já criadas são inspiradas em histórias e temas da sociedade, «que muitas vezes são considerados tabus», acrescenta Catarina. «Queremos que o público se questione e reflita sobre si mesmo e sobre o mundo ao seu redor», afirma Ana.

Com essa linha de pensamento, surgiu a «ISOLATION», uma coleção de peças de inverno inspirada na temática da ansiedade, stress e depressão.

Segundo Ana Eusébio, «são situações cada vez mais presenciadas por todos, mas que continuam a ser um tabu na sociedade. Para este conceito realizámos um questionário e foi a partir das respostas do nosso público que definimos silhuetas, cores, detalhes e toda a coleção».

O segundo trabalho das jovens algarvias foi feito em colaboração com a designer Rita Sá. Uma coleção cápsula de malas, denominada «T-SHI#T».

«Para esse projeto desafiámos o público para, através de uma imagem, mostrar a importância da arte e da cultura na sociedade. Depois, com um design de um saco incrível realizado pela Rita, estampámos as imagens que recebemos, criando um produto que o próprio consumidor pode personalizar ao ter a possibilidade de escolher a imagem/estampado que mais gosta», esclarece Ana Eusébio.

Designers de moda algarvias

A juntar às duas coleções, as designers desenvolvem ainda peças para o TANTO FAZ, um projeto solidário criado em 2017, com o objetivo de angariar fundos para a Associação Amigos da Criança (AMIC), que ajuda a reintegrar as crianças talibé no Senegal, escravas e vítimas de maus tratos nos seus países de origem. «Tivemos oportunidade de fazer uma pequena cápsula com pano de pente, vindo diretamente dos teares da Guiné e todos os lucros das vendas foram revertidos para as crianças da AMIC. Neste momento estamos a desenvolver mais uma cápsula para a segunda edição do TANTO FAZ», refere Catarina Gonçalves.

Para o futuro, a marca faz planos de se internacionalizar e abrir um espaço próprio, que sirva de galeria múltipla de arte e cultura, «onde as pessoas se possam dirigir não só com o intuito do consumo material, mas principalmente de consumo emocional e cultural», revela Ana Eusébio.

Ainda segundo a designer, o projeto criado pelas algarvias «representa uma nova visão sobre a moda e acima de tudo uma oportunidade pessoal. A LESS é a nossa forma de interpretar o mundo e mostrar ao mesmo as nossas preocupações. É o nosso escape e a nossa forma de fazer a diferença através de arte e design. Representa todo o esforço e dedicação que depositamos desde crianças num sonho que sabemos ser difícil de alcançar. É a nossa oportunidade de mostrar o que valemos, o que somos e de marcar o mundo da melhor forma possível».

A próxima coleção da dupla sai no primeiro trimestre de 2020 e apesar de não desvendarem pormenores, Ana Eusébio garante que «será um hino às mulheres».

Crowdfunding é o primeiro passo para a internacionalização

As farenses Ana Eusébio e Catarina Gonçalves, de 24 anos, criaram em 2018 a marca LESS buy.less com o objetivo de se destacarem no mercado nacional como um projeto sustentável e assente na economia circular. Duas coleções depois e as designers preparam-se agora para registar a marca no mercado asiático.

«Estamos em fase de expansão e decidimos começar pela Ásia, nomeadamente Hong Kong Taiwan, China e Macau. O primeiro passo é o registo da marca», conta Ana ao «barlavento».

Para alcançar o sonho, a dupla está a realizar uma campanha de crowdfunding, de forma a atingirem os três mil euros necessários.

Para Ana: «toda a ajuda é importante e consideramos que não só é uma boa forma de recolher a verba necessária, como também será benéfico para a nossa expansão na rede de consumidores.»

Neste momento, a campanha conta com 18 doações, com um total de 2300 euros.

Já para Catarina, «se a marca continuar a crescer assim, tem tudo para ser um projeto de sucesso. Depois da Ásia pretendemos entrar no mercado australiano e dos Emirados Árabes Unidos».