COVID-19: Saúde preocupada com surto nas comunidades ciganas

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Surtos no Hospital de Faro e nas comunidades ciganas do Algarve são as principais preocupações da saúde. Região totaliza agora o maior número de sempre de cidadãos em vigilância ativa no domicílio.

Na conferência de imprensa para traçar o ponto de situação, na manhã de quinta-feira, dia 1 de outubro, Ana Cristina Guerreiro, delegada de saúde regional começou por referir que «estamos numa fase diferente quer no Algarve, quer no país, quer na Europa. O número de casos veio a aumentar, estando agora numa fase em que há um maior número de casos diários».

Em bom rigor, até à meia noite de dia 1 de outubro, na região do Algarve somavam-se 1508 pessoas em isolamento profilático em casa, devido a doença, ou a contactos de alto risco com pessoas infetadas com COVID-19. Trata-se do maior número desde o início da pandemia.

Para a delegada de saúde, dos 610 casos ativos, a «situação que mais preocupa, é o foco de cidadãos positivos dentro de populações de etnia cigana dispersas pela região».

Isto porque, até à meia noite, eram 60 as pessoas infetadas. Apesar das maiores concentrações serem nos concelhos de Portimão e de Albufeira, Guerreiro disse que «poderão abranger outros municípios em breve porque temos já conhecimento de focos noutros locais. Estamos a fazer centenas de testes para conseguir tomar as nossas decisões e conseguir tomar as medidas mais corretas que começam pelo isolamento, sendo que temos já bastantes cidadãos destes grupos em isolamento profilático e as crianças não vão às escolas».

A situação, contudo, nas palavras da responsável, «não é fácil, dadas as características destas comunidades que são muito móveis e convivem muito umas com as outras». De qualquer maneira, Ana Cristina Guerreiro garantiu que: «estamos confiantes e estamos a utilizar todas as estratégias para conter» essas cadeias de transmissão.

Por outro lado, Paulo Morgado, presidente do conselho diretivo da Administração Regional de Saúde (ARS) do Algarve, revelou que existem 14 profissionais de saúde infetados.

Números que remetem às unidades de Faro e de Portimão do Centro Hospitalar e Universitário do Algarve (CHUA) e também a uma entidade privada.

Ainda de acordo com o presidente da ARS Algarve, o maior surto é o do Hospital de Faro, onde se somam sete profissionais positivos e outros 33 em isolamento profilático.

No entanto, «não houve nenhum encerramento de serviços. Todos se encontram a funcionar de forma normal em ambos os hospitais», esclareceu.

Ainda no uso da palavra, Morgado referiu que esta é «uma situação que acompanhamos com precaução. É impossível prever o futuro, mas muitos profissionais já foram testados e à partida é uma cadeia que parece estar contida».

O presidente explicou também que este surto deverá estar relacionado com o que decorre no Hospital de Beja, uma vez que «é do nosso conhecimento que há um profissional que trabalha em ambos os hospitais».

Questionado pelos jornalistas se os internamentos de pessoas infetadas pela COVID-19 se vão cingir ao Hospital de Faro, Morgado respondeu que «neste momento sim, porque não temos a necessidade de internamento em Portimão. Se houver essa necessidade, só depois de ultrapassarmos a capacidade do Hospital de Faro, que ainda está bastante longe com 16 doentes internados. A capacidade máxima é elástica, mas as camas que temos preparadas para o Hospital de Faro rondam as 60 para internamento geral. Como tal, estamos muito longe de atingir esse número. Se chegarmos lá, e esperemos que não, ativaremos o Hospital de Portimão. Isso é algo previsto nos nossos planos de contingência», disse.

O presidente da ARS do Algarve, deu ainda a novidade de que já se encontram em instalação novos equipamentos de apoio ao Laboratório Regional de Saúde Pública Dra Laura Ayres, onde se concentra a maior capacidade de testagem da região.

«A instalação de novos equipamentos vai permitir-nos aumentar muito significativamente a capacidade de testagem e ultrapassar a barreira dos 1000 testes diários. Vamos conseguir ultrapassá-la, com alguma facilidade, a partir da próxima semana».

Por fim, já quanto ao aumento exponencial de casos positivos, Morgado afirmou que é uma conjuntura «que exige esforço de todas as nossas equipas, sempre em coordenação com as autarquias, com a Proteção Civil Municipal e Distrital e que só com esta excelente coordenação é que conseguimos, pelo menos, evitar males maiores. É isso que nos move».

Ana Cristina Guerreiro completou, falando ainda de quais as estratégias. «A nossa intervenção ainda é no sentido de contenção de quebra de cadeias. Não mudámos de estratégia e isso significa que a análise se mantém consciente de que o número de casos é maior, mas não mudou a avaliação para outro tipo de situação. Portanto, continuamos a isolar os contactos e esta é a nossa maior estratégia. Neste momento existem muitas pessoas isoladas porque temos muitos doentes na região, como por exemplo o concelho de Vila Real de Santo António que tem imensa gente em isolamento profilático».

Já para António Miguel Pina, presidente da Comissão Distrital de Proteção Civil, o aumento «já era expectável e até agora até está um pouco abaixo do esperado».

A mensagem do também presidente da AMAL – Comunidade Intermunicipal do Algarve e autarca de Olhão foi clara: «primeiro vivíamos todos assustados com o turismo e afinal os números não aumentaram muito com o turismo. Agora os números aumentam, mas com aquilo que são os comportamentos dos que cá vivem. É hora de voltar a chamar a atenção de que isto é para levar a sério».

Até às 23h59 do dia 30 de setembro registavam-se 610 casos ativos, 16 doentes internados e quatro em Unidade de Cuidados Intensivos (UCI). 1066 era o total de pessoas recuperadas e 21 o de óbitos.