COVID-19: Algarve com «situação preocupante e trabalhosa»

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Os lares de idosos e a falta de recursos humanos são consideradas as maiores preocupações do momento em relação à pandemia da COVID-19 no Algarve.

Durante a conferência de imprensa quinzenal para fazer o balanço da situação, esta manhã, nas instalações do Comando Regional de Emergência e Proteção Civil do Algarve, em Loulé, António Miguel Pina criticou os portugueses «que não se sabem comportar» e que a continuar assim, terão de ser aplicadas «medidas mais duras».

«Continuamos com bastantes casos e com uma situação trabalhosa», corroborou Ana Cristina Guerreiro, delegada regional de saúde.

Em relação ao números mais recentes, em 24 horas, somaram-se mais 26 casos positivos, estando agora o Algarve com 83 casos ativos.

Em relação aos internados, o número é de 36, que segundo a delegada, tratam-se de pessoas de «várias faixas etárias e muito heterogéneas em termos de disposição geográfica».

Apesar de não existirem crianças em internamento, Guerreiro mostrou-se muito preocupada com a Unidade de Cuidados Intensivos (UCI) onde estão quatro pessoas internadas, duas delas, jovens, na casa dos 20 anos.

«Temos vários doentes graves também de vários grupos etários. Por norma são pessoas com outras patologias associadas. No entanto, temos dois jovens internados em UCI. Ambos têm passado por situações complicadas. São infetados recentes, mas eram saudáveis e não tinham qualquer morbilidade», sublinhou.

Ainda na lista de preocupações da delegada regional, o foco mantém-se nos lares de idosos, em específico no Lar de Balurcos, concelho de Alcoutim e num lar, não especificado, do concelho de Tavira.

Em ambas as instalações há residentes positivos e negativos, além de funcionários que também já foram infetados.

No lar de Alcoutim, em 36 utentes, 14 testaram positivo, sendo que dois estão internados, nenhum em UCI. Já dos 29 funcionários, 11 estão com COVID-19.

«A situação em si é complexa e exige um esforço muito grande do funcionamento da instituição», descreveu.

Em relação ao lar de Tavira, há 28 idosos positivos, no total de 84 residentes. Também dois deles estão internados, mas nenhum em UCI. Quanto aos 61 funcionários, seis estão infetados.

«Os lares têm estado a ser assistidos pelos profissionais que são necessários. Estamos a acompanhar a situação e estão a ser tomadas as decisões necessárias.

O número de óbitos no Algarve também aumentou, estando agora nos 24. O último cidadão a falecer de COVID-19, de acordo com Ana Guerreiro, tratava-se de um homem «muito doente», na década dos 50 anos, utente de um lar em Portimão, que dera entrada no hospital na terça-feira, dia 13 de outubro, tendo vindo a ser declarado o óbito no dia seguinte.

«O lar já tem sido alvo de testagem e todos os testes deram negativo. Na sequência deste último caso começámos hoje a fazer uma testagem alargada, sendo que os resultados só estarão disponíveis amanhã à tarde», revelou.

Paulo Morgado, presidente do conselho diretivo da Administração Regional de Saúde (ARS) do Algarve deu conta do número de profissionais de saúde infetados na região, 17.

«Nos serviços onde estes profissionais trabalham, temos testado todos os contactos destes profissionais. Continuamos a testar e a testar muito», disse.

Apesar de acrescentar que a ARS Algarve se encontra «preocupada com a situação nacional do ponto de vista epidemiológico, do ponto de vista daquilo que é o rt [indicador que define o grau de transmissibilidade de infeção], a região algarvia é, neste momento, aquela que em todo o território continental tem o valor mais baixo, de 0,91 por cento», estimou.

«É um número que nos dá algum conforto, mas não nos retira a preocupação, a atenção e o cuidado que temos de ter nesta situação. A única certeza que temos é que esta é uma situação muito volátil e que a todo o momento podem surgir complicações, mas cá estaremos para dar a melhor resposta», garantiu.

Ainda sobre os casos de profissionais de saúde positivos para o novo Coronavírus, a delegada de saúde regional deu alguns pormenores.

«Temos um caso registado no serviço de Ortopedia e dois no serviço de Medicina I. O que acontece, na maior parte dos casos hospitalares, é que as pessoas infetam-se no exterior. Tem sido essa a história sistemática».

Segundo a responsável, o primeiro caso foi detetado na Ortopedia no dia 10 de outubro.

No serviço de Medicina I, houve um positivo registado no dia 11 e outro no dia 13.

«Temos agora conhecimento de que também já existem doentes infetados. Os resultados chegaram ontem, dia 14 de outubro, e dão conta de cinco cidadãos, do serviço de Medicina I, que já foram transferidos para o serviço COVID-19. No total. estão vários profissionais em isolamento profilático, mas ambos os serviços estão a funcionar», contabilizou.

O presidente da ARS Algarve foi questionado pelos jornalistas acerca da possibilidade de se contratarem mais profissionais de saúde, caso o número de infetados e/ou de isolamentos aumente.

«O hospital, assim como os serviços de saúde e o Ministério da Saúde têm uma possibilidade legal, criada na pandemia, que lhes permite contratar recursos à medida que forem necessários. O hospital vai gerindo e se precisar de mais, contrata. O grosso da necessidade do ponto de vista da contratação são os enfermeiros».

«Aquilo que muitas vezes existe é alguma dificuldade no mercado em ter enfermeiros disponíveis. Essa é uma das dificuldades com que às vezes nos deparamos. O Centro Hospitalar e Universitário do Algarve (CHUA) e a ARS podem contratar os profissionais que sejam necessários, assim o mercado os tenha», afirmou.

António Miguel Pina, presidente da Comissão Distrital de Proteção Civil, acrescentou e mostrou-se também preocupado com a falta de recursos humanos.

«O Serviço Nacional de Saúde (SNS), a Proteção Civil e a Segurança Social há meses que se andam a preparar e temos respostas para o cenário A, B e C».

«O que nos começa agora a preocupar é a falta de recursos humanos e gente disponível para trabalhar, mesmo nos lares, com o risco de serem contaminadas. Esse é que pode vir a ser o problema. Estamos a procurar contratá-los e há essa disponibilidade financeira, o problema tem sido é em arranjar pessoas disponíveis», admitiu.

Por fim, Jorge Botelho, secretário de Estado e Coordenador da execução da Declaração da Situação de Calamidade na região do Algarve, no uso da palavra, afirmou mesmo que esse é um dos desafios para os próximos tempos: «a pressão para encontrar pessoas que possam ser recrutadas».

Comportamentos individuais são culpados

Ainda durante a conferência de imprensa regional, Ana Cristina Guerreiro abordou a questão do comportamento individual.

«É preciso que as pessoas tenham consciência que devem ficar em casa se estão infetadas, mas nós conhecemos casos de cidadãos que não são do Algarve, que testam positivo e apanham o autocarro para Lisboa. Estas coisas acontecem», exemplificou.

Paulo Morgado foi ainda mais explícito: «aquilo que é o comportamento individual e social é que determina o que acontece nesta doença. Sabemos disso desde o início. O que é difícil prever são estas situações relacionadas com um certo cansaço que se nota nas populações e que leva a que as pessoas relaxem sobre as medidas a tomar».

Segundo Morgado, que também é médico, «quanto mais rigorosos formos connosco próprios e com os outros, no sentido de cumprir todas as medidas, mais fácil é o controlo da doença».

Por outro lado, António Miguel Pina não poupou nas críticas. «Durante muito tempo andámos à procura do turista como um problema e afinal o problema somos nós que relaxámos», afirmou.

«O problema está em nós e no nosso comportamento diário. Não vamos procurar por o problema nos outros. Da mesma maneira que os algarvios e os portugueses se comportaram muitíssimo bem na primeira fase e antes do verão, agora não se estão a comportar», acusou.

«No Algarve e em todo o país, provavelmente muito breve, se não continuarmos com bons comportamentos, as medidas terão que ser muito mais duras».

«As pessoas parece que já se esqueceram. Os jovens entre os 25 até aos 50, em idade ativa, são aqueles que são afetados hoje em dia porque sentiram que a doença a eles não lhes afeta? Então e os vossos pais? E os vossos avós? Não pensam?», interrogou.

Também Jorge Botelho seguiu a mesma linha de pensamento. «A mensagem é de preocupação. Há um aumento de números em todo o país. O Algarve não é alheio, mas isto depende dos nossos comportamentos individuais e de acompanhar as regras que estão, a partir de ontem, um pouco mais apertadas».

«Se a consciência individual e sobretudo os comportamentos de cada um fizerem com que as nossas relações de proximidade possam fazer baixar os números. É fundamental que adotem comportamentos socialmente responsáveis. Os números têm de baixar. Somos uma região aberta e as pessoas têm de continuar a trabalhar e isso para nós é essencial», concluiu o Secretário de Estado da Descentralização e da Administração Local e ex-autarca de Tavira.