COVID-19: a aventura de nascer durante a pandemia

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Durante o estado de Emergência, nas salas de parto da região não foram permitidos acompanhantes. Todas as visitas às puérperas e bebés foram proibidas. A máscara e os profissionais de saúde foram a única companhia
das mães até receberem alta hospitalar.

Deu entrada na unidade de Faro do Centro Hospitalar Universitário do Algarve (CHUA) no dia 22 de abril para indução de parto. Andreia Dias, residente em Olhão, 27 anos, sempre quis um parto normal e planeava o nascimento do primeiro filho há alguns anos.

Durante a gravidez foi acompanhada no Hospital Particular do Algarve (HPA), em Gambelas, mas devido à pandemia do novo Coronavírus acabou por decidir ter o filho no hospital público.

«Já me tinham preparado para todas as condicionantes cerca de um mês antes do parto. Sabia que não podia ter o meu marido comigo e que não podia receber visitas. Chorei muito e foi muito complicado. Mas quando chegou o dia, achei que estava preparada. Entrei no hospital sozinha com as malas, com máscara na cara e saí com um filho nos braços. A verdade é que nenhuma mulher vai preparada para aquilo que nos acontece», começa por relatar ao barlavento.

Oito horas depois da indução do parto, o bebé entra em sofrimento e a cesariana de urgência acabou por ser a solução mais segura, até porque Andreia Dias estava com a tensão muito elevada na última semana de gravidez.

«Esperei o tempo todo sozinha, não tive apoio de ninguém e estive várias horas sem telemóvel. O meu filho nasceu às 20h00 e o meu marido deixou de ter notícias minhas às 18h30. Só entrei em contacto com ele às 22h00 porque pedi o meu telemóvel a uma auxiliar», descreve a jovem mãe.

Andreia Dias, Bruno Alves e o filho João.

No pós-parto, o momento também não foi fácil. Segundo a olhanense, «só não mudei a primeira fralda porque não conseguia levantar a cabeça devido às duas anestesias que levei. A segunda fralda mudei-a deitada. Há poucas enfermeiras e auxiliares para tantos bebés e ninguém toca nos recém-nascidos sem a mãe pedir. Quem faz tudo é a mãe».

«Os banhos agora não existem porque o serviço onde estão as grávidas não tem banheira. O menino só tomou o primeiro banho no sábado, dia 25 de abril, à noite. É uma daquelas experiências muito complicadas de passar e traumatizante, por tudo, pelo que aconteceu, pela situação que vivemos, pelas medidas de segurança, por não poder ter acompanhamento, pelos tempos de espera, os tipos de exames feitos e por te sentires completamente sozinha. Não se pode sequer andar pelo quarto perto de outras grávidas ou mães. Há perigo. Há umas que já fizeram teste, outras que não. Estamos sempre a saltar de cama», recorda.

Essa foi outra situação que a recente mãe não conseguiu entender, a realização de testes à COVID-19.

«Disseram-me que o teste seria obrigatório e realizado no hospital, mas eu só o fiz no dia 26, já depois de ter tido alta. Tinham-me informado que nenhuma grávida ou mãe sairia do hospital com o bebé sem o teste realizado. Não aconteceu. No meu quarto estavam internadas algumas mulheres, há vários dias, que também ainda não tinham feito o teste» ao novo Coronavírus.

A juntar a isso, também o momento da alta se tornou um «pesadelo», nas palavras da algarvia. «Primeiro o gabinete para o registo está fechado, o que dificulta muito a vida. Só consegui registar o meu filho no dia 6 de maio, depois de ter tido imensos problemas. Estive desde as 14h00 do dia 25 de abril à espera da alta. Era sábado e feriado. Estava vestida e pronta para sair e às 18h30 dizem-me que tenho de fazer análises e repetir exames. Eu e outras mães saímos a chorar porque estávamos desesperadas, já só por volta das 20h30. O meu marido esteve seis horas no estacionamento do hospital à minha espera. Depois disso, ainda tivemos de ir realizar todos os testes, como os auditivos e o do pezinho, no Centro de Saúde».

Apesar disso, na sua opinião, todas as enfermeiras, auxiliares e médicos do serviço são «cinco estrelas, espetaculares, e fazem um trabalho sobre-humano. Percebo que as medidas sejam necessárias, mas emocionalmente é muito difícil. É uma situação muito traumática. Mas, no final de contas estamos os dois bem e isso é o mais importante», conclui Andreia Dias.

Andreia Dias e Bruno Alves.

Uma experiência um pouco diferente teve Jessica Soares, também de 27 anos, residente em Faro.

«Fui acompanhada em na unidade do grupo HPA em Gambelas, mas sempre esteve planeado ter a minha filha no Hospital de Faro. No dia 28 de abril comecei com contrações e dirigi-me às urgências. Já sabia que o meu marido não podia estar presente e que não iria receber visitas».

«Foi tudo muito rápido, mas tive de estar sempre de máscara, mesmo durante o parto, que foi normal. As enfermeiras também estavam de máscara. Tudo o que puderam não fazer, não fizeram, mas explicaram como se fazia com um boneco e foram super atenciosas. Estive sempre com o telemóvel, mesmo na sala de partos. Saí logo no dia 30, mas é um processo complicado porque é um projeto a três».

«É um dia que levamos a planear durante nove meses. E o pai sempre acompanhou tudo. É um pouco frustrante até porque ele só conheceu a filha com dois dias, não ouviu o primeiro choro. Compreendo que seja uma defesa para os profissionais de saúde e mantive-me forte psicologicamente porque já estava mentalizada de como ia ser», descreve ao barlavento.

Quanto ao teste da COVID-19, Jessica Soares não o realizou. «Perguntaram-me se tinha sintomas, mediam-me a febre todos os dias, mas nunca me falaram sobre a hipótese de o realizar. Sei que uma rapariga que estava no quarto comigo fez o teste e até me perguntou se já o tinha feito porque todas o estavam a fazer. A mim nem me falaram no assunto».

Já nos primeiros tempos da pandemia, a situação era bastante diferente, como recorda a arqueóloga Eliana Correia, 28 anos, de Estoi. Teve o filho no hospital do Grupo HPA, em Gambelas, no dia 17 de março. Não usou máscara, também não fez teste à COVID-19. Embora só tenha sabido que não podia ter acompanhamento, nem visitas, no dia anterior ao parto.

Eliana Correia e o filho Francisco.

«Foi estranho. O meu marido deixou-me no hospital e a sensação que tive foi que estava a ser deixada e que tinha de me desenrascar sozinha. Estava bem disposta nesse dia, mas o anterior foi um pranto. Acabei por realizar uma epidural e foi complicado com as dores. Mas só tenho a agradecer aos enfermeiros e assistentes que foram cinco estrelas e acabam por ser pais ao mesmo tempo. Tive uma força psicológica brutal, mas nem todas as mães a têm. É um momento que marca e que vai marcar para sempre. Quando o meu filho crescer, vou-lhe explicar em que circunstâncias nasceu», explica.

Pai já pode estar presente no parto

O novo Coronavírus veio também alterar as dinâmicas de todos os profissionais de saúde, incluindo na unidade de obstetrícia das unidades do CHUA em Faro e Portimão, onde os turnos passaram a ser de 12 horas, para «haver o mínimo de trocas possíveis, em vez das oito horas que tínhamos», descreve Lurdes Barroso, enfermeira de sala de partos de Faro há 26 anos.

«É desgastante porque 12 horas com máscara é dose. Acabamos por respirar muito do ar com mais dióxido de carbono e chegamos ao fim do dia muito mais cansadas do que habitualmente. Só tiramos a máscara para comer e beber, rigorosamente mais nada. Além das batas e de todo o equipamento de proteção, é dose» diária para estes profissionais.

Segundo conta ao barlavento, as mudanças dentro do serviço passaram pela criação de uma ala específica para suspeitas ou infetadas com COVID-19.

«Não há banhos, mas ensinamos tudo às mães e elas também ficam internadas menos tempo. Somos todos obrigados a usar máscaras, mas na sala de partos é tudo igual, se a grávida não tiver sintomas. O que difere é não haver acompanhante, mas facilitamos o uso de telemóveis. Se houver suspeita de COVID-19, o contacto do bebé com a mãe é reduzido. E o leite é recolhido, em vez de se fazer amamentação. Além disso, todos os doentes internados, após 24 horas fazem teste, não só a grávida».

Em Portimão, Rita Grilo, enfermeira de sala de parto há 22 anos refere que também existe uma ala para infetadas ou suspeitas e são realizados testes a todas as mulheres que dão entrada no serviço. Os banhos continuam a ser feitos, assim como a envolvência das mães em todas as atividades.

«Sentimos é falta do acompanhante, porque a mulher, pelo cansaço, não absorve tudo e o pai é um ponto de abrigo que está lá para ajudar. Sentimos essa necessidade, mas todos os outros procedimentos com o recém-nascido, são iguais».

Situação que foi alterada desde segunda-feira, dia 11 de maio, dia em que ambos os hospitais decretaram que o pai pode estar presente, apenas no parto e mediante algumas medidas: «a grávida estar negativa para COVID-19, o acompanhante não ter sintomas, nem contactos de alto risco conhecidos, utilização de máscara e bata de proteção e distância de segurança», explicita Rita Grilo.

Ambas as enfermeiras concordam com uma questão. O pior da pandemia nos seus serviços, além da utilização de uma máscara durante 12 horas é a ansiedade e a alteração nos contactos familiares.

«Não vejo a minha mãe desde que isto tudo começou. O meu marido é polícia, por isso ambos estamos na linha da frente. Estamos sozinhos em casa porque as nossas filhas estão noutro apartamento. Isso mexe muito connosco, mais que o próprio ambiente de trabalho, até porque o número de urgências até diminuiu. Neste momento, só vai ao hospital quem realmente precisa, ao contrário do que acontecia até aqui. Trabalhamos com verdadeiras urgências. É a carga psicológica, o estarmos longe dos filhos e da família, que mexe connosco e nos abala bastante», conclui Lurdes Barroso.