Comida Esquecida pode ser produto turístico sustentável

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Aceitação do Festival da Comida Esquecida está a superar as expetativas da organização e já há operadores interessados em marcar, de forma pontual, incursões gastronómicas fora do roteiro comercial.

O grupo mal chegara a João Roupeiro e já os ouriços, apanhados de manhã bem cedo, na Praia do Barranco, ali pertinho, perfumavam a terra com o cheiro do mar.

«Sou filho de pescadores e o ouriço foi-me introduzido logo em criança, assim que tive idade para comer petiscos, como o caranguejo. Isto era muito específico nesta altura, estávamos sempre desejando que viesse o inverno para apanharmos ouriços. Apanham-se na maré vazia, de preferência com mar manso, em sítios que não tenham muita areia, porque o ouriço prefere a pedra», conta o mariscador José, que ao lado do colega Miguel fez questão de receber as cerca de 30 pessoas que participaram no Festival da Comida Esquecida – Percursos para Colher e Cozinhar, no domingo, 23 de fevereiro.

«Este ano, a interdição para apanhar os ouriços só foi levantada no dia 21», dizem os mariscadores.

Turistas canadianos e polacos picam-se. Perguntam quais os restaurantes que servem tal iguaria e como se cozinha. A resposta viria mais tarde, pelo menos, para a segunda pergunta.

Entretanto, a atenção vira-se para a horta de António Rosa, produtor biológico e anfitrião do almoço domingueiro. Colhe-se couve galega, poupada ao assédio das borboletas graças a uma infusão de artemísia-absinto, assim como acelgas e coentros para a salada. Rosa é o centro das atenções. Fala sobre a arte da enxertia numa terra rija e explica a sua técnica.

«Antigamente era proibido plantar vinha em solo fértil porque era uma planta tão rústica, tão forte, que se utilizava nas terras mais pobres», descreve, ao exemplo do que faz na sua propriedade.

António Rosa mostra a vinha e fala sobre a arte da enxertia numa terra rija e explica a sua técnica.

Mas não tardou até o grupo descobrir o sólido maço de madeira, usado para partir o amendoim, no armazém da batata-doce. O produtor sorri e demonstra como o vento ajuda a separar o fruto da casca, sendo esta última aproveitada como fertilizante natural.

«Isto é muito bom para limpar a tijoleira de Santa Catarina, porque liberta óleo. Era usado nas taberna», brinca António Rosa, enquanto traz as tengarrinhas (cardos) colhidas de fresco perto da Praia da Amoreira, «um autêntico espargo» que será cozinhado com ovos caseiros para delícia dos convivas.

Feijão-carito, bacalhau e pão

São estranhos, mas não se importam. Há mesas, cadeiras e comida a ser confecionada num regime quase de família. O almoço prepara-se em Monte do Acoreiro, Rogil, em casa de António Rosa.

O lume já arde para cozer os ouriços. Mãos voluntárias preparam as acelgas e picam-se nos cardos. Corta-se o pão.

Alexandra dos Santos, coordenadora e programadora do festival está há cerca de um ano na QRER – Cooperativa para o desenvolvimento dos territórios, entidade que organiza o Festival da Comida Esquecida.

«Estamos num ano de experimentação, a criar eventos em sítios que por vezes nem cozinha têm. É desafiante, mas por um lado estamos a descobrir todo um património alimentar», descreve ao barlavento.

«Um facto que está a surpreender é que estamos a ter um público sobretudo nacional, numa faixa etária acima de 30/40 anos, desejoso destas vivências. Dizem-nos que querem comer coisas que se comiam anteriormente e que hoje já não se conseguem encontrar. O nosso objetivo não foi a procurar o mercado da saudade, mas sem querer, acabámos por encontrá-lo», diz.

O festival arranca no âmbito da quarta edição do programa 365 Algarve, mas numa altura em que ainda não há certezas que venha a ter seguimento, a responsável admite que poderá haver outros caminhos para assegurar a continuidade. «Gostaríamos de transformar isto em algo que pudesse funcionar como um produto para a cooperativa, no futuro. Todo o material que temos adquirido tem sido na lógica da continuidade».

Por outro lado, operadores privados já mostraram interesse no conceito. «Temos tido propostas e há essa intenção. Vamos continuar, não sabemos se será no formato festival, ou num diferente». Conversa puxa conversa e António Rosa emprata o bacalhau com feijão-carito de sua safra, também chamado fradinho. Laranja, batata-doce de Aljezur e medronho fecham a refeição, mas não o convívio entre todos.

Eventos onde não há eventos

«Comida é cultura, é política é um ato social. Porque é que as pessoas deixaram de comer algumas coisas? Porque queriam simplesmente desvincular-se de uma época de pobreza. Começaram a consumir produtos de supermercado, embalados e bonitos, por conveniência e porque houve um quase desligamento da terra. E com isso não houve uma passagem de legado, deste conhecimento empírico. Isto notou-se no artesanato e nas tradições alimentares. A nossa ideia com o festival foi trabalhar a gastronomia, com as pessoas locais e dar-lhes uma valorização», descreve ao barlavento Alexandra dos Santos da QRER – Cooperativa para o desenvolvimento dos territórios.

E a verdade é que não é apenas o público, que apesar de ser de nicho, que tem aderido. «Sim. Temos tido muita aceitação por parte dos parceiros. As pessoas têm-nos recebido muito bem ao longo do festival. Quando estivemos em Giões, fizemos o evento num Alojamento Local e todas as pessoas locais foram chave, desde a Junta de Freguesia que se envolveu logo à partida, à população. Ficaram entusiasmadas por fazermos eventos em locais onde não há eventos».

E há ainda outro aspeto levado em conta. «Quando vamos aos sítios perguntamos quais os pratos que se faziam. Neste almoço, por exemplo, temos ouriços do mar porque estão na época certa. Era tradição comerem-se no Carnaval», remata.

Loulé, Tavira e Cacela com picnics temáticos

Segundo Alexandra dos Santos, coordenadora e programadora do Festival da Comida Esquecida da QRER – Cooperativa para o desenvolvimento dos territórios, já não haverá mais percursos para colher e cozinhar, como o que teve lugar no domingo, dia 23, no eixo Maria Vinagre – Rogil – Aljezur.

Os próximos eventos serão «picnics temáticos dos anos 1930/40. Vamos estar vestidos à época. A comida será levada em cestos e vamos ter mantas no chão, música e um acordeonista a tocar. É um formato diferente», distingue. Terá lugar no dia 28 de março em Loulé; no 18 de abril em Tavira e por fim, em Cacela Velha no dia 2 de maio.

Os bilhetes já estão à venda e custam 20 euros (com descontos para o público infantojuvenil entre os sete e os 14 anos).

Em todos, contudo, a organização já aprendeu uma lição importante. «As pessoas querem comida não adulterada, genuína. Já tentámos um componente de inovação com recriações gastronómicas, mas público não aceitou muito bem», admite.

António Rosa teme pelo futuro da agricultura biológica no Mira

António Rosa é produtor biológico, em João Roupeiro, tem quatro hectares de terreno agrícola certificado, entre Maria Vinagre e Odeceixe, uma zona beneficiada pelo Perímetro de Rega do Mira e cada vez mais cobiçada pela indústria intensiva.

Encontrou um nicho de mercado entre a batata-doce, o vinho, o feijão-carito e o amendoim. A retoma da economia teve como consequência um aumento das estufas e estruturas afins no Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina.

«Da forma como as coisas estão a evoluir, a pequena produção tem cada vez menos hipótese de comercialização. Nunca imaginei que isto se direcionava neste sentido. Sinto-me revoltado e triste. Todo o meu projeto tem a ver com a sustentabilidade» e agora nem sabe se terá água.

«Tem que ser feita uma pré-inscrição» na Associação de Beneficiários do Mira «e fico sujeito a esperar se me dão ou não» o recurso indispensável para continuar a produzir.

«Desprezamos aquilo que era nosso, em que todos tinham um pouco de terra, todos produziam e todos tinham para comer. Agora estamos a ser escorraçados. Ao nativo tudo é proibido, ao colono tudo é permitido», diz com desencanto ao barlavento. No entanto, Rosa não hesitou em ser parceiro do Festival da Comida Esquecida.

«Poderá ser uma boa maneira de garantirmos a sobrevivência. O que irá restar será a pedagogia» de partilhar todo o conhecimento da terra que acumulou, com o público deste nicho.

«Será um pouco um macaco dentro de uma jaula em que jogam pão para nos irmos aguentando», lamenta.