Cientistas estudam impactos do mergulho recreativo em Alvor

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A corveta Ex-NRP Oliveira e Carmo foi afundada a 30 de outubro de 2012, para integrar o recife artificial do parque subaquático «Ocean Revival», a 2,5 milhas náuticas ao largo de Alvor, Portimão. No primeiro inverno, durante uma forte tempestade, o navio partiu-se em dois, mesmo estando no fundo há já alguns meses. O pedaço maior, cerca de 2/3 do navio, da parte da proa, foi arrastado por correntes oceânicas para mais de 200 metros de distância do destroço mais pequeno, cerca de 1/3 da estrutura, na popa.

Estas condições proporcionaram uma oportunidade única para os investigadores João Encarnação e Gonçalo Calado investigarem os impactos que o mergulho de recreio tem no meio aquático. Isto porque enquanto a parte que inclui a proa do navio continuou a receber mergulhadores, a popa deixou se ser atrativa para os visitantes. Como tal, não recebeu a visita de mergulhadores desde o inverno de 2013. Dado ambos os destroços da corveta estão sujeitas às mesmas condições ambientais, quaisquer diferenças observadas no desenvolvimento das comunidades biológicas podem ser atribuídas à presença ou ausência de mergulhadores recreativos.

«Este acaso permitiu a realização de uma experiência controlada, como só se consegue fazer em laboratório ou com manipulação, o que seria muito difícil neste caso concreto», explica Gonçalo Calado, professor da Universidade Lusófona, responsável pelo programa de monitorização biológica do projeto «Ocean Revival». «Estas estruturas estão ainda nos primeiros anos do estabelecimento de uma comunidade biológica. Desde o início, o parque tem um programa de monitorização que tem estudado o estabelecimento das comunidades biológicas nos novos recifes. O que não se esperava é que surgisse esta oportunidade para fazer, de forma tão controlada, um estudo do impacto dos mergulhadores neste processo», detalha.

Os resultados do estudo «Effects of recreational diving on early colonization stages of an artificial reef in North-East Atlantic» revelam diferenças na ocupação das espécies já fixadas em ambas as parte da corveta Oliveira e Carmo.

Os organismos em que se nota mais o impacto dos mergulhadores são as gorgónias (leques da família dos corais, das anémonas e das medusas), cujo desenvolvimento foi significativamente menor na proa, visitada por mergulhadores, do que na popa. Em muitos casos, tem-se concluído que os danos são causados pelas barbatanas dos mergulhadores, sobretudo as dos menos experientes. Esta ação física direta afeta mais este tipo de espécies, frágeis e que formam estruturas eretas. Pelo contrário, as cracas estão melhor implantadas na proa. As duras placas calcárias oferecem-lhes protecão natural contra este tipo de agressões, o que lhes dá vantagem competitiva. «As cracas estão a aproveitar o nicho ecológico das gorgónias», explica Gonçalo Calado. «A partir destes dados, podemos retirar importantes lições. Por exemplo, para planos de gestão e restauro de ecossistemas marinhos naturais degradados, fixando os períodos mais eficazes de restrição de visitação, se for esse o caso», conclui o investigador.

O parque subaquático «Ocean Revival», situado 2,5 milhas náuticas ao largo da praia do Alvor é constituído por quatro antigos navios da Marinha Portuguesa, afundados para constituir um recife artificial para fins turísticos. Antes do afundamento, foram sujeitos a um meticuloso processo de limpeza exterior e interior, destinado a remover todos os potenciais poluentes. No final, restou apenas a estrutura de aço e alumínio. A corveta Ex-NRP Oliveira e Carmo, que pesava 1400 toneladas e media 85 metros de comprimento, ficou pousada em paralelo à costa, num fundo de areia a 32 metros de profundidade, com o convés principal a 24 metros e o mastro erguendo-se até aos 13 metros.

O aumento do interesse pelo mergulho de recreio em todo o mundo tem feito crescer a preocupação com os seus possíveis efeitos nos ecossistemas marinhos. Em várias partes do mundo, os recifes artificiais têm sido propostos como forma de reduzir a pressão sobre os habitats naturais. O turismo subaquático no Algarve tem aumentado. Os recifes artificiais beneficiam não só a economia local mas também os recifes naturais da região, que são assim poupados à carga de mergulhadores recreativos. No centro de mergulho Subnauta, a operar a partir da marina de Portimão, cerca de 70 por cento de todos os mergulhos realizados são no parque «Ocean Revival».

Fotos: João Encarnação.