Centro Ciência Viva do Algarve «pouco acarinhado» por Faro

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Durante o 22º aniversário do primeiro Centro Ciência Viva do país foram anunciadas iniciativas para a nova época e lamentada a «falta de interesse do executivo camarário» pelo equipamento.

No terraço com vista para a Ria Formosa, o Centro Ciência Viva do Algarve (CCVAlg), em Faro, celebrou o seu 22º aniversário ao pôr do sol de sábado, 3 de agosto.

Cristina Veiga-Pires, diretora daquele equipamento, revelou ao «barlavento» as próximas apostas, as atividades em curso e os objetivos estabelecidos para o futuro.

A docente de Geologia da Universidade do Algarve (UAlg) denunciou ainda várias fragilidades que o edifício, propriedade da Câmara Municipal de Faro, possui, e que podem inclusive, resultar no fecho do próprio CCVAlg.

«Durante o verão temos atividades um pouco por toda a região. Observação solar ou de estrelas, engenhocarias, espeleologia, visitas a indústrias locais, trabalhos com cal e observação de aves são algumas das atividades dinamizadas. Hoje, no nosso aniversário, inauguramos um pequeno planetário que expõe, a 360 graus, o filme do Apollo 11, sobre o primeiro passo na Lua. Até dia 15 de setembro essa é a nossa oferta, além de toda a exposição que temos no Centro», começa por contar a diretora.

Antes disso, no fim de agosto, em parceria com a Associação Portuguesa de Matemática, o Centro irá lançar o livro «Percursos que Contam».

A versão bilingue «junta o passeio histórico pela Cidade Velha de Faro com algumas curiosidades matemáticas. O livro terá o custo de dois euros e estará disponível no nosso Centro, na Associação e em instituições ligadas à educação».

Para setembro, também já há planos. Um projeto desenvolvido em conjunto com o Centro Ciência Viva de Tavira, vai permitir «ter na nossa estufa uma estação de reciclagem de plástico. Vamos ter máquinas de triturar, fundir e transformar plástico noutro produto, juntamente com uma impressora 3D. Além disso, estamos neste momento também à espera de desafios da UAlg que serão interessantes do ponto de vista da microscopia e da aplicação de alguns produtos no crescimento dos peixes», revela Cristina.

A juntar a isso, no mesmo mês, uma vez por semana começam a realizar-se aulas de Tai Chi, abertas ao público em geral.

Mais tarde, em outubro, o CCVAlg marca presença nas Ruínas de Milreu, no quadro do projeto DiVAM, com um dia recheado de atividades científicas ligadas à Época Romana. E em novembro, celebra-se a semana da Ciência e da Tecnologia.

Também o jardim, localizado ao lado da doca de recreio de Faro, vai apresentar novidades. «Os nossos lagos estão a ser remodelados e renaturalizados para se transformarem numa Fito ETAR. Queremos dar a conhecer às pessoas o que é, para que serve e quais os seus benefícios. Estamos a falar de uma estação de limpeza de águas residuais feita a partir das plantas».

Cristina Veiga-Pires, diretora do CCVAlg desde janeiro de 2015, confidenciou ainda algumas aspirações para o espaço.

«Gostaria de transformar a exposição que agora existe sobre o mar, focando-a apenas na Ria Formosa e utilizá-la como uma mostra de toda a investigação que se faz na UAlg. Há estudos sobre acústica, poluição, reprodução, medicina, aquacultura, entre outros. Os turistas precisam de conhecer a nossa Ria e os estudantes precisam de ver exemplos práticos daquilo que está escrito nos manuais escolares».

A responsável sublinha que «não faz sentido comprar exposições já montadas com um tema único. Estes pequenos centros, para poderem ser sustentáveis, têm que se basear em exposições modulares com base no conhecimento existente nas instituições superiores que têm. Gostava que UAlg e o Centro Ciência Viva se unissem. Temos de continuar a bater às portas dos investigadores para que eles percebam que a comunicação do seu trabalho pode ser feita aqui. Qualquer investigação pode ter o seu espaço aqui porque conseguimos relacionar tudo».

«Um espaço pouco acarinhado pelo executivo camarário»

Cristina Veiga-Pires, diretora do Centro Ciência Viva do Algarve, em Faro, lamenta o desinteresse e falta de apoio da Câmara Municipal de Faro, sócia fundadora daquele equipamento.

«A nossa exposição já está velhinha e a precisar de remodelação, mas não há apoio financeiro, nem interesse, por parte da autarquia. Sinto que é um espaço pouco acarinhado pelo executivo».

E explica porquê. «O edifício é da Câmara e está muito degradado. Percebo as dificuldades em apoiar financeiramente, mas não percebo a ausência de envolvimento e preocupação. Há três anos que mando regularmente relatórios sobre o estado débil da infraestrutura e da necessidade de conservação do imóvel».

«Dizem-me que vão fazer alguma coisa, mas até hoje nada foi feito», lamentou.

«Há mais de um ano, que aguardamos o desbloquear do conflito entre a autarquia e a empresa de comunicações, para que o Centro possa ter comunicação por fibra, essencial para quem comunica ciência. Além disso é a falta de interesse. Hoje comemoramos 22 anos e deixa-me muito triste ver que nenhum membro do executivo confirmou a sua presença», sublinhou Cristina Veiga-Pires.

Na prática, os problemas começam no edifício «que tem necessidade de muitas obras. As portas e as janelas de madeira estão muito degradadas. Quando chove temos água a entrar por todo o lado», assegura a diretora.

A juntar a isso, o espaço exterior está estagnado há mais de um ano, apesar de ter um projeto de remodelação, aprovado na Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Algarve.

«Junto da Câmara ainda não tivemos luz verde. O que nos dizem é que serão feitas obras na doca de recreio [ao lado do jardim] e que é possível que o nosso espaço seja ocupado. Portanto não sabemos se podemos avançar com os trabalhos e estamos parados».

Para a responsável, a situação é de tal maneira preocupante, que pode mesmo acabar com o fecho de portas.

«Temos feito alguns trabalhos superficiais de manutenção, mas não são suficientes. Isto é uma questão que me preocupa muito e não sei se um dia, em breve, não terei de dizer que temos de fechar por insalubridade».

«Das estrelas às estrelas»

Atualmente o Centro Ciência Viva do Algarve (CCVAlg), em Faro, disponibiliza uma exposição permanente vocacionada para o mar e que «vai desde a Física à Biologia», explica Cristina Veiga-Pires, diretora.

O percurso chama-se «Das estrelas às Estrelas» e começa com «experiências ligadas às estrelas do céu, passando pelos planetas e o sol».

A segunda parte está «ligada ao nosso planeta e aos oceanos. A última foca-se na Ria Formosa, terminando nas estrelas do mar».

O CCVAlg está aberto de terça a domingo. As crianças pagam 2,5 euros de entrada e um bilhete de família, que engloba dois adultos e todos os seus filhos, tem o custo de 10 euros.