Casa Fuzetta em Olhão é um dos melhores retiros da Europa

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Edifício histórico na Barreta foi recuperado por um casal londrino de advogados. Aberto há dois anos, funciona apenas para grupos e num segmento de topo. Clientes dão-lhe pontuação máxima.

Sopravam com força os ventos da Primeira da República, no Portugal do início do século XX. Os ideais da maçonaria influenciaram o advogado, diplomata e filantropo Carlos Fuzeta (Olhão, 1872 – 1942), que conquistou grande prestígio nacional na defesa da pesca e da atividade marítima. Um herói olhanense, cuja casa era um notável edifício burguês, a norte do Bairro da Barreta. No topo, mandou construir uma torre de estilo gótico com vitrais de cores e óculos, um símbolo da imagem de sobriedade e nobreza do proprietário debaixo do qual, diz-se, terá funcionado uma loja macónica.

Aspeto da torre que levou o casal Tara e Jonathan Donovan a adquirir e recuperar o imóvel.

Este passado explica o presente. Foi esta característica invulgar que motivou o casal londrino Tara e Jonathan Donovan a comprar o imóvel e a transformá-lo num alojamento exclusivo.

Até cerca de 2012, Tara Donovan, 51 anos, era uma advogada ligada à indústria do entretenimento, em Londres.

«Trabalhei para um cliente chamado Jamie Oliver durante quase 15 anos. Era responsável por todas as atividades de media», recorda.

«Um amigo nosso, que era jornalista gastronómico, escreveu algumas vezes para a revista do Jamie, e vinha muitas vezes a Olhão».

O casal tanto ouviu falar da cidade algarvia que resolveu visitá-la, embora sem planos para comprar fosse o que fosse.

Acontece que, após a morte de Carlos Fuzeta, o palacete foi separado em dois edifícios.

Segundo a Associação de Valorização do Património Cultural e Ambiental de Olhão (APOS), a casa foi adquirida por uma empresa de construção civil que planeava a sua demolição em 2006 para edificar um prédio de três pisos com cave, composto por vários fogos de habitação.

Um grupo de cidadãos ligados à APOS deu entrada de um processo de classificação de interesse público no Instituto Português do Património Arquitetónico (IPPAR). Acabou por ser classificada Monumento de Interesse Público (MIP) em fevereiro de 2013, embora isso não travou a sua degradação.

A torre demorou dois anos a ser meticulosamente restaurada, tal como era originalmente.

Um deles dos edifícios contíguos, cujas paredes de alvenaria remontam ao século XVI, «estava numa lástima», e por um acaso do destino, Tara e Jonathan foram espreitá-lo.

«Não era nada de especial», diz Tara. Mas, ao olharem pelas frestas e quando subiram ao andar de cima, viram um enorme pátio na casa ao lado.

Jonathan ficou absolutamente fascinado com a torre gótica, que hoje fica por cima da principal sala de meditação.

«A verdade é que a casa nos chamou. Sentimos a sua energia», diz Tara. «Isto foi em setembro de 2012 e, no final de dezembro, já ambas as casas eram nossas».

Aspeto das paredes de alvenaria.

Uma pertencia a um banco, portanto a sua aquisição foi fácil. A outra era de um privado.

Depois, o edifício foi cuidadosamente restaurado entre 2014 e 2016. Tara, que também é gestora, designer e mulher de negócios, não revela quanto investiu, desde a aquisição ao restauro.

Diz apenas que foi tudo pensado para ser sustentável.

«Um dos primeiros arquitetos com quem trabalhámos, ainda jovem e talvez pouco experiente, só abanava a cabeça. Não acreditava que fosse possível» reabilitar a propriedade a um estado de graça.

O impossível passava por criar um alojamento moderno, uma mistura entre a herança da arquitetura original e um design contemporâneo.

«Felizmente, encontramos um arquiteto mais experiente, e a sua equipa envolveu-se bastante», diz Tara Donovan.

O resultado é um hotel de charme, pensado ao detalhe, onde nem falta uma piscina no rooftop, com vista para a Ria Formosa.

«Nesta casa viveu e morreu o Dr. Carlos Fuzeta, olhanense nato, advogado, diplomata, deputado, duas vezes presidente da Câmara, elogiado como alto espírito de intelectual e conservador primoroso», lê-se numa placa no exterior.

Mas não é nada disto que faz o charme da Casa Fuzetta.

Numa manhã normal, os hóspedes conseguem ver a vida tal como ela ainda é em Olhão.

No terraço é possível cumprimentar os vizinhos, enquanto estendem a roupa lavada ao sol.

«Não é maravilhoso? Qual é o hotel no Algarve onde se pode ter esta proximidade com as pessoas?», pergunta Tara.

E assim, a 7 de maio 2017, a casa tornou-se num Alojamento Local pensado para famílias grandes, amigos ou grupos que procuram um local mais íntimo, para momentos juntos, ocasiões especiais ou retiros.

Os preços de 2019 começam em 1350 euros por noite, aumentando para 2750 euros por noite na época alta (julho a agosto), com um mínimo de cinco noites de reserva.

Tara Donovan sublinha que estes preços são para grupos e que é possível acomodar, com conforto, até 24 pessoas nos 12 quartos da casa.

«A maioria vem para retiros de wellness, de meditação, de desenvolvimento pessoal, ioga, ou então retiros de nutrição ou até de fotografia [food photography] com a fotógrafa norueguesa Oivind Haug, aproveitando os mercados de Olhão e a luz da cidade», detalha.

«Nós privilegiamos sempre o lado espiritual da estadia, mas também podemos organizar retiros e eventos corporativos», diz.

«Gostamos de uma experiência comunitária. Há uma magia que acontece numa dinâmica de grupo», reforça. «Os americanos, em particular, parecem gostar de viajar em grupo».

Para este ano, o casal já tinha 140 noites reservadas e apenas sete foram marcadas através de operadores turísticos ou agentes. «Quase todas as marcações são feitas de forma direta. As pessoas seguem o nosso Instagram, e chegam até nós através do boca a boca. Temos tido sorte com a imprensa internacional, mas acho isso apenas dá confiança a quem nos procura», explica. Por outro lado, os hóspedes vão deixando um historial de reviews, a maioria com a pontuação máxima, o que coloca a Casa Fuzetta no top europeu para retiros exclusivos.

Vai um mergulho?

Sazonalidade no Algarve «não faz sentido»

Tara Donovan, ex-advogada do famoso chef britânico Jamie Oliver, já percebeu que a a vida no Algarve tem os seus desafios. E tem uma visão crítica.

«A região não pode continuar a pensar que a estação alta é de junho a setembro. Para mim, os meses de verão são os mais difíceis de vender. Estou com a lotação esgotada desde o início de março até à segunda semana de julho, e de 4 de setembro a 20 de novembro. Os portugueses em geral, e os algarvios em particular, não percebem o quão desagradável é o tempo na Europa do Norte. Estamos a falar de uma realidade que fica a apenas duas horas de voo de Faro», e da qual poderiam tirar vantagem durante todo o ano.

«Em dezembro, quando neva, chove e há temperaturas negativas no norte da Europa, é fácil vir ao Algarve e encontrar céu azul e 20º centígrados de temperatura. Isso é o equivalente ao melhor dia de verão para nós», brinca.

«Por isso, não entendo porque é os gestores hoteleiros, ou as autoridades portuguesas do turismo ainda não perceberam que o Algarve é, e deve ser, um destino para todo ano. E depois há outra questão que tem a ver com a mão de obra. Eu sou empregadora, tenho um compromisso para com a minha equipa. Parte-me o coração que aqui as pessoas sejam despedidas no inverno porque ficam sem trabalho. Como é que se pode construir lealdade com o staff, se este for tratado de forma descartável, como se fosse mercadoria (commodity)? As pessoas têm de ir bater à porta da Segurança Social no inverno? Isso não está certo e não é justo, até porque o Algarve tem tanto para oferecer», conclui.