Casa da Cidadania será espaço para pensar Lagoa e o mundo

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Efeméride dos 247 anos da criação do concelho de Lagoa foi celebrada com a apresentação da Casa da Cidadania, o mais ambicioso projeto cultural que o município lagoense tem em mãos.

Lagoa está idealizar a Casa da Cidadania, a instalar nos antigos Paços do Concelho, edifício histórico que já teve vários usos, e que em breve será um novo ponto de interesse cultural no Algarve.

Paulo Lima, antropólogo e coordenador do projeto apresentou algumas das ideias já definidas na tarde de ontem, quinta-feira, 16 de janeiro.

«É um museu da administração local, onde o eleito e o eleitor tenham presente as decisões que foram sendo tomadas para que Lagoa tenha esta identidade», sintetizou o responsável durante a sessão que também serviu para celebrar os 247 anos da criação do concelho.

Alguns núcleos expositivos já estão definidos. «O primeiro, além da sala das sessões que servirá para conferências e exibição de filmes, é um espaço ao qual chamamos tesouro. Muitas vezes, as igrejas constroem pequenos núcleos museológicos onde colocam as suas peças de ourivesaria. A Câmara não tem ourivesaria, mas tem peças preciosíssimas».

Por exemplo, «o primeiro estandarte do século XVIII, as faixas da vereação do século XIX, o busto da República, e alguma da documentação que estamos a trabalhar. Mas também as pinturas do século XIX e XX que mostram os eleitos. Isto são os tesouros da Câmara», revelou.

«Teremos também um núcleo que se quer importante, onde se mostre a intervenção que entretanto se tornou invisível. Que é tão presente na vida quotidiana que quase achamos que não existe: as infraestruturas, os pontões, as estradas. Mostrar que há uma parte que é esquecida no dia seguinte e que parece que fez sempre parte» do território, embora resulte de muito trabalho de fundo.

Aliás, Paulo Lima contou um episódio da sua experiência profissional para ilustrar o conceito.

«Em tempos, trabalhei na Câmara de Portel. Partilho do grande padrão de honra de ser funcionário público, do servir, que é no fundo aquilo que estamos a falar. Lembro-me que na altura de infraestruturar as freguesias, algumas ficavam logo com água e esgotos. Outras houve em que a obra se ia fazendo com esforço. A última das aldeias foi Alqueva, nos finais dos anos 1980. Antes disso, a água ia-se buscar a um quilómetros».

«Uma semana depois, teve de se cortar a água durante uma manhã porque houve uma rutura, qualquer coisa que não ficou bem feita. Claro, grande parte da população ligou toda a manhã para a Câmara a dizer que era inadmissível não haver água», recordou.

«Para mim, este episódio ficou para a história porque mostra o quanto o esforço de infraestruturar e de criar equipamentos se torna rapidamente invisível. Temos de criar, uma parte, neste projeto, que mostre como ao longo de 200 anos, Lagoa quando deixa de ser uma apenas uma freguesia, ou parte de outro concelho, tem de pensar num esforço da sua construção identitária. Tem que pensar que já não é periferia, é centro e isso muda tudo», descreveu.

«E estas figuras que estamos a evocar, que foram presidentes de Câmara, estiveram nas vereações ou por fora tiveram importância política, sempre procuraram isso».

No entanto, o presente também terá um lugar de destaque.

«Queremos mostrar o que é o concelho de Lagoa hoje, a partir de dois ou três objetos. Não é uma longa narrativa desde a arqueologia da pré-história, mas do concelho, a partir das décadas de 1960 e 1970, quando é quando se dá neste concelho uma profunda transformação», explicou o coordenador.

«O primeiro é um mapa, cerca de 1960, onde nós temos o antigo concelho agrícola e o novo concelho que, ao nível de economia, muita da vocação é para o turismo. A partir deste ponto, a agricultura é secundarizada em relação ao turismo, o que leva à construção de novo conjunto de referências».

E também não será esquecida a FATACIL, «um elemento importante da identidade própria de Lagoa».

Durante a apresentação da Casa da Cidadania, Paulo Lima evidenciou um quadro do pintor Lima de Freitas, encomendado pelo presidente Abel Santos, e que mostra a questão das «identidades imaginadas».

Por exemplo, «as olarias de Porches, o vinho. É bom não esquecer nestes aspetos que fazem a contemporaneidade do município de Lagoa».

Por fim, o coordenador indicou que haverá zonas dedicadas a exposições temporárias. «Uma é sobre os novos desafios com que as Câmaras hoje são confrontadas. A cada ciclo, cada ano, o mundo muda e é preciso adaptar o concelho a essa realidade. Este é um dos núcleos que estamos a validar, ao nível, por exemplo, das alterações climáticas».

Por fim, haverá um núcleo que pensa também a história do mundo «porque de facto se cruzam aqui figuras que quer, no futuro ou presente, se constroem no mundo», disse.

O responsável refere-se, por exemplo ao general Vasco Joaquim Rocha, que talvez possa quer vir a doar do seu espólio à Casa da Cidadania.

«Alguma partilha que o senhor general queria fazer com este projeto será interessante porque nos poderá dar muitos ensinamentos, não só da história contemporânea de Portugal, mas também sobre esta relação entre culturas e civilizações, sobretudo entre Europa e Ásia», sublinhou.

Paulo Lima também falou sobre os Encontros Internacionais da Política e da Imagem de Lagoa, Política & Imagem que contextualizam a apresentação do projeto da Casa da Cidadania.

«Escolher a imagem como um dos elementos importantes desta aventura, é pensarmos a partir de Lagoa o mundo, e a partir do mundo Lagoa, porque estão interligados. Isso leva-nos a pensar no que é cosmopolitismo e a globalização. E também a poder trazer outros olhares», concluiu.

A sessão contou também com a presença de Luís Encarnação, presidente da Câmara Municipal de Lagoa e de de Ana Pagará, historiadora de arte e responsável pelo estudo histórico-arquitetónico dos antigos Paços do Concelho de Lagoa.