Britânicos investem na produção de microvegetais em Almancil

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Anthony Price, 43 anos, um informático de Manchester, mudou-se para o Algarve há quase uma década. Cansado dos desafios de uma vida dedicada aos computadores, decidiu tornar um antigo hobby na sua principal atividade profissional. «Queria ter mais tempo para mim e fazer algo que realmente gostasse», confidencia ao «barlavento». «E o que realmente me apaixona é fazer nascer coisas. Criar vida». Aliás, a paixão pelas plantas esteve sempre presente, mas a questão era «que nicho poderia eu explorar na área agrícola no Algarve?».

Após alguma pesquisa descobriu que o «mercado biológico dos microgreens estava em franca ascensão nos Estados Unidos da América», isto é, microvegetais, rebentos de verduras de legumes ou ervas aromáticas. Produtos com uma forte procura e muito apreciados por chefs, sobretudo na alta cozinha e hotelaria de topo. «Era o conceito perfeito e exatamente o que eu procurava. Decidi reproduzi-lo», recorda. «Rapidamente percebi que há um enorme mercado por explorar na região, e pouca ou nenhuma oferta. Portanto, consegui encontrar um modelo sustentável de negócio».

O passo seguinte de Price foi encontrar o local ideal para começar a desenvolver a ideia. Comprou uma quinta, em Almancil e chamou ao seu negócio «Tiny Farm Algarve» (pequena quinta). O nome justifica-se pelo tamanho dos pequenos vegetais que vai plantando num ambiente controlado de estufa, onde tudo é calculado ao pormenor: desde a temperatura à humidade, ao sistema ecológico de rega e à luminosidade que as sementes recebem. Há cerca de um ano, iniciou as obras, e começou as primeiras experiências na plantação destas pequenas, mas saborosas plantas. Hoje já produz mais de duas dezenas de variedades, como ervilhas doces, rabanetes, mostarda vermelha, bróculos e coentros em formato bebé.

Apesar de a empresa ainda ser jovem, já fornece frescos em miniatura para restaurantes e unidades hoteleiras como o Henrique Leis, Mimo, Pequeno Mundo, Breeze, Epic Sana, entre outros.
Price explica que a estratégia passa por «disponibilizar sem compromisso» amostras a mais chefs da região interessados em testá-los nas suas criações gastronómicas. «Estou disponível para oferecer alguns dos nossos microvegetais para teste, pois prová-los é a melhor forma de comprovar a frescura e qualidade dos nossos pequenos legumes que são 100 por cento biológicos», acredita.

Anthony Price conta ainda com a ajuda do padrasto Steven Weatherby. Juntos explicam que o seu grande objetivo é, não só dominar a produção de microvegetais na região, como conquistar o mercado nacional, e «tornar este produto acessível a todos, e não somente a uma classe social mais elevada e com poder de compra», sublinham.

«Não queremos que a nossa produção seja algo exclusivo e apenas ao alcance dos grandes chefs. Não queremos que os rebentos sejam usados somente enquanto ornamentos nos empratamentos de alta cozinha. Queremos mostrar que é possível consumi-los enquanto prato principal, rico em proteína e sabor, e a um preço acessível. Claro, para isso, teremos que trabalhar ao máximo para encontrar uma forma de este produto chegar ao consumidor final com frescura, qualidade e a custos simpáticos», defendem.

O objetivo é democratizar o acesso a uma dieta que pode ter «inúmeros benefícios para a saúde. Existem vários estudos que comprovam as vantagens do consumo dos microvegetais, com resultados surpreendentes, especialmente em doenças como a diabetes ou o cancro», partilha Weatherby.

Seja qual for a pequena planta, Price explica que o processo começa sempre com a importação de sementes do Reino Unido. «É a qualidade da semente que determina em boa parte a qualidade final», revela. Depois, dependendo da espécie, os pequenos rebentos demoram entre «7 a 30 dias a atingirem o tamanho ideal para colheita».

«Praticamente tudo o que produzimos, neste momento, está reservado. São encomendas, com prazos previamente estabelecidos». Com os excedentes da produção, a equipa prepara três tipos de embalagens de combinados, com uma mistura de múltiplas variedades de vegetais: o English micro mix, o Asian micro mix e o Sunshine micro mix. Graças aos seus conhecimentos em informática e programação, Price desenvolveu até duas aplicações (apps) que o ajudam no controlo e venda da sua produção.

Com o «Crop Plan», um género de agenda virtual de trabalho, sabe exatamente a data de plantação, data programada de corte, prazos e dia de entrega, quantidade, e quem é o cliente final de cada tabuleiro de pequenos rebentos.

Já a aplicação «Tiny Farm», disponibilizada para sistemas android e IOS, pode ser descarregada gratuitamente online, e permite a compra dos microvegetais através de diversos dispositivos móveis.

Todas as plantas estão também disponíveis na loja virtual.

Além disso, podem ser adquiridos nas lojas Mercearia das Moças, em Faro, e Mundo Saudável em Almancil.

Anthony confidencia que um dos maiores desafios que tem enfrentado é o clima algarvio. «No inverno faz demasiado frio e no verão demasiado calor». A «temperatura e humidade» na pequena estufa onde os rebentos se desenvolvem é «crucial» para assegurar a qualidade do produto e cumprir os prazos de entrega. Contudo, Price e Weatherby concordam que é um «preço justo a pagar por se viver no paraíso»…

Para o futuro, os planos passam por aumentar o número e quantidade de espécies produzidas, locais de venda, mas também organizar workshops, e abrir as portas da quinta à comunidade escolar, e aos amantes da gastronomia, para que possam aprender in loco, «as infinitas possibilidades de utilização destas ervas».

O que são microvegetais?

São rebentos de sementes vegetais germinados e colhidos na sua fase inicial de crescimento, quando estão a fase mais nutritiva, ou seja, numa altura em que são muito ricos em vitaminas, aminoácidos, enzimas, clorofila e antioxidantes. Medem, em média, 3 a 10 centímetros, do caule até à folha, embora o formato varie conforme a espécie. Em termos de paladar, há para todos os gostos: doces, picantes, amargos, suaves. Destacam-se ainda pela cor e textura, sendo por isso muito versáteis e apreciados na decoração de pratos, saladas, sandes e até sopas.