Animais «imperfeitos» brilham em série algarvia no youtube

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Reúnem-se todos os domingos, num estúdio em Portimão, e em nome de uma causa maior. Durante todo o dia, que deveria ser de descanso de uma semana de trabalho, colocam em marcha o projeto «Amigos Imperfeitos» que resulta de uma paixão em comum: os animais.

Mas estes são «especiais», explicam os mentores do projeto, João Ferreira, 23 anos, natural de Portimão, voluntário numa associação de animais, David Venâncio, 30 anos, portimonense a residir em Silves, e responsável pela produtora de cinema ScreenInside, e Carlos Filipe, 38 anos, fotógrafo sediado em Portimão.

Carlos Filipe explica ao «barlavento» como surgiu a ideia. «Depois de 10 anos a fotografar, deixei de o fazer porque senti que tinha perdido a inspiração. Decidi então viajar pelo mundo, mas, apesar disso, continuava a não me sentir inspirado». Tudo mudou quando conheceu o seu cão podengo, Boris. «Adoptei-o e comecei a fotografá-lo na brincadeira».

Questionou-se sobre o que poderia fazer para ajudar outros cães sem família. «Percebi então que podia fazer aquilo que melhor sei fazer: fotografar. Assim, surgiu a hipótese de realizar uma sessão fotográfica solidária», cujo valor angariado reverteu, na totalidade, a favor de diversas associações de bem-estar e proteção animal. A verdade é que «a primeira iniciativa foi um sucesso», sendo que Carlos Filipe já realizou mais quatro idênticas, as quais culminaram com a angariação de 2000 euros.

Entre as várias fotografias da sua autoria em que retrata animais com ou sem dono, foram surgindo «situações especiais», de «animais imperfeitos», isto é, com doenças pouco comuns ou deficiências físicas. Foi então que decidiu «fazer uma exposição de fotografia sobre estes casos, para que as pessoas os conhecessem de acordo com a minha perspetiva», explica. «Quis que vissem como são animais fantásticos», e alguns, que se encontravam para adoção, inclusive «até acabaram por encontrar famílias maravilhosas».

No entanto, o fotógrafo sentiu que as histórias partilhadas em privado pelos donos dos animais se «perdiam» e se esgotavam nas imagens. Muito ficava por contar. «E era pena», lamenta. «Percebi que estas narrativas de animais que mudaram a vida dos seus donos para sempre, teriam mesmo de ser partilhadas em vídeo», de forma mais aprofundada, para que todos «possam aprender com elas».

E porque sozinho não tinha a capacidade para colocar em curso um projeto audiovisual, Carlos Filipe desafiou o jovem voluntário João Ferreira e o produtor de cinema David Venâncio, que aceitaram o repto de imediato. O primeiro trabalho foi publicado no youtube, a 16 de fevereiro. Desde então, já lançaram online oito de um total previsto de 20 episódios, publicados a ritmo de um por semana, sempre aos sábados, às 19 horas, no canal da produtora ScreenInside. Cada episódio tem a duração de oito a 12 minutos, e é gravado em Portimão, no estúdio de Carlos Filipe.

O objetivo fundamental do projeto, revela João Ferreira é «que os donos possam contar, na primeira pessoa, como é viver com estes animais diferentes», que apesar das suas carências e limitações, «podem e devem ser adotados e enquadrar-se no estilo de vida de uma família».

Por outro lado, os vídeos também têm «uma componente pedagógica. Poucos sabem, por exemplo, que há cães diabéticos, e abordamos esse tema num dos episódios». São destacados «animais surdos, cegos, com tripés (três pernas), doentes oncológicos, com leishmaniose, paraplégicos em cadeiras de rodas, entre outros», partilha João Ferreira. «Animais diferentes, mas não menos perfeitos. Simplesmente têm necessidades especiais», remata Carlos Filipe. Uma experiência que tem tido um impacto «muito forte» para os três, confidencia.

Ao grupo, mais tarde, juntou-se ainda a jornalista de rádio Fátima Peres, para fazer a voz off dos episódios. Alguns são protagonizados por «animais especiais que não têm donos, para que assim possam ter a oportunidade de encontrar boas famílias definitivas», dispostas a dar-lhes uma oportunidade e um lar. «Ter um animal diferente não é tão difícil como parece. E a recompensa é muito maior do se possa julgar. Adotem um animal e, se este trouxer uma diferença, abracem-na, pois isso torna-os em seres únicos. Vejam o nosso programa porque é composto por episódios onde transmitimos histórias bonitas de uma forma positiva e cheia de emoção», conclui Carlos Filipe.

Com a primeira temporada já gravada, Carlos Filipe prepara-se agora para lançar uma exposição itinerante composta por 20 fotografias, tendo como modelos estes animais «imperfeitos». Todos trabalham em regime pro bono, afinal, já que não «há nada melhor que o desafio profissional aliado à solidariedade». Para acompanhar esta primeira temporada de «Amigos Imperfeitos» basta subscrever o canal da ScreenInside, na plataforma youtube.