Âncoras do Barril são património em risco

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A investigação de Joana Madeira Rebelo, mestranda em conservação e restauro na Universidade Nova de Lisboa, com interesse especial na preservação e documentação de bens etnográficos, começou no ano passado. No Barril, hoje, «estão 248 âncoras. Fiz a contagem com base num mapeamento da Direção Geral do Território, em parceria, através de uma fotometria com coordenadas X,Y,Z», revela.

«A degradação não é homogénea, mas é urgente fazer algo para as proteger, se quisermos que este património cultural» tenha longevidade, alerta. «A armação fechou em 1966 e as âncoras estão depositadas tal como as deixaram há 50 anos. Não posso estimar com exatidão um prazo de validade. Temos algumas em bom estado, se é que podemos aplicar esse termo. Isto é, apesar de estarem cheias de ferrugem, mantêm a integridade da estrutura e a forma original. Outras estão já muito frágeis, com perdas de material na zona da unha», explica. A avaliação em laboratório revelou exemplares bastante degradados.

O que fazer, e como, é o principal objetivo da tese desta mestranda. «O processo de degradação acontece, maioritariamente, devido ao cloro que penetra nas âncoras e faz com que haja um destacamento do ferro. Um sistema de impedância seria uma ideia a estudar. Algo capaz de fornecer energia ao ferro das âncoras, para que o cloro que as destrói fosse roubar a energia a esse dispositivo», travando o processo de degradação.

Joana Rebelo admite que seria um sistema complexo e caro. Por isso, «quero publicar este trabalho em revistas e publicações científicas, de modo a dar alguma visibilidade e perspetivas de futuro» ao cemitério de âncoras do Barril. A investigadora espera assim abrir caminho a outros projetos de estudantes de engenharia, ou da sua área de estudo. Até ao momento, garante não ter encontrado nenhum plano de conservação anterior que tivesse por objetivo salvaguardar este património. «Há falta de consciência e sensibilização», reconhece, pois as âncoras do Barril têm sido vistas como «um bem adquirido que vai durar para sempre».

«Sei que o grupo Pedras», concessionário da praia, «tem feito alguns esforços para manter a estrutura», através da colocação de barreiras físicas que impedem o acesso das pessoas às âncoras.

No entanto, «há muita coisa a desenvolver. Já não é possível melhorar o estado atual, mas um futuro sistema de conservação poderá prevenir que se percam. A tendência natural será o desaparecimento se ninguém lhes deitar mão».

Praia do Barril poderá vir a ser um museu vivo

No restaurante da praia do Barril «há algumas fotografias de época, da pesca do atum. Há, inclusive, uma maqueta de como se montava e a armação no mar e uma nota explicativa. Mas penso que falta mais informação no exterior», aponta Joana Madeira Rebelo, que defende uma solução museológica no exterior. «Seria interessante criar um circuito visitável ao redor de toda a estrutura edificada», como os tanques de lavadeiras, os poços, o tanque de alcatrão, a casa dos patrões, as casas dos camaradas e o cemitério de âncoras.

Segundo avança ao «barlavento», a ideia é bem vista, quer por parte do grupo Pedras, concessionário da praia, quer pela Junta de Freguesia de Santa Luzia, com quem conversou.

«Seria um bom projeto para esta zona, porque temos este património marítimo único que deveria ser melhor valorizado. Quem aqui vem, vê as âncoras e o edificado, mas não percebe o que isto foi, nem para que serviu. Não compreende o conjunto», lamenta Brígida Baptista, arqueóloga e uma das fundadoras da «Lais de Guia – Associação Cultural do Património Marítimo», criada em dezembro de 2015 para defender, divulgar e promover a herança cultural e marítima algarvia.

Joana Rebelo não duvida «que é possível aliar o turismo à cultura. Acredito que as pessoas não vêm cá apenas pela praia, mas porque existe aqui algo que não há em mais local nenhum».

Memorial em setembro

A armação do Barril (ou dos Três Irmãos) foi fundada em 1867 por José Pires Padinha (importante comerciante, armador e industrial de Tavira) e dois sócios. O recorde da pesca foi no ano de 1881, quando foram pescados 46825 atuns de direito e revés. Funcionava de abril a setembro, tendo encerrado em 1966. Uma efeméride que a «Lais de Guia – Associação Cultural do Património Marítimo» quer assinalar.

A propósito dos 50 anos do encerramento, «pretendemos fazer um encontro aberto à população, com visitas guiadas e atividades», explica Brígida Baptista, da «Lais de Guia – Associação Cultural do Património Marítimo». O evento será integrado no programa da próxima Feira da Dieta Mediterrânica de Tavira, em Setembro.

Joana Madeira Rebelo acrescenta que, com o desenvolvimento da sua tese de mestrado, percebeu «que há uma grande falta de informação sobre o arraial e a armação do Barril, comparativamente a outros, como o Ferreira Neto».

Durante o passado fim de semana, a mestranda esteve em Santa Luzia, onde entrevistou antigos pescadores (companheiros), entidades e outras fontes. O objetivo é «criar uma história oral, importante para se perspetivar» futuras intervenções naquele espaço. «O irónico é que em termos de documentação, a armação do Barril foi a que menos deixou, mas em termos de estrutura, foi a que mais património nos legou»…


O «barlavento» agradece ao fotógrafo portimonense Filipe da Palma a gentil cedência das fotografias de autor.