Algarve já sabe como fazer face às alterações climáticas

  • Print Icon

Documento traça linhas gerais, mas a aplicação das propostas «está nas mãos dos decisores políticos», disse Luís Dias, coordenador do plano.

O Plano de Adaptação às Alterações Climáticas da Comunidade Intermunicipal do Algarve (PIAAC-AMAL) foi apresentado hoje, terça-feira, 4 de junho, no Grande Auditório da Universidade do Algarve, em Faro.

Ouvido pelo «barlavento», Jorge Botelho, presidente da AMAL e autarca de Tavira, destacou a elevada complexidade do documento e também a altura em que é dado a conhecer.

«Este plano é apresentado agora porque queremos fazer dele uma agenda para as prioridades de investimento no próximo quadro comunitário 2030. Já foi aprovado em sede da AMAL, por unanimidade, e será apresentado ao governo, para ser considerado nas perspetivas financeiras» da próxima geração de fundos europeus.

«Espero bem que seja uma agenda dos agentes políticos para defender o território e defender o futuro. As alterações climáticas estão aí, sabemos as consequências que têm e isso preocupa-me, mas queremos deixar um legado que possa ser trabalhado. Estamos a trabalhar a mitigação e tratamento de questões do território como falésias, níveis do mar, desertificação, vias de comunicação, saúde, mortalidade e seca», detalhou ainda Jorge Botelho.

O estudo foi encomendado à Universidade Técnica de Lisboa em 2017, e dirigido pelos professores Luís Dias e Filipe Duarte Santos. Demorou 500 dias a elaborar, um investimento que ascendeu aos 470 mil euros, valor financiado em 85 por cento pelo PO SEUR – Programa Operacional Sustentabilidade e Eficiência no Uso de Recurso.

Os custos da sua aplicação, esses, podem chegar «às dezenas de milhões de euros». Ainda de acordo com Jorge Botelho, foi subscrito por «todos os municípios, unanimemente», e fornece conclusões «científicas que devem servir de guião à agenda política para defender o território e o futuro».

Recursos hídricos são ponto sensível

Também em declarações ao «barlavento», Luís Dias, coordenador científico do PIAAC, explicou que estão identificadas três grandes vulnerabilidades: «a subida do nível médio do mar, o aumento da temperatura média e máxima, e a diminuição da precipitação com consequências nos recursos hídricos».

Ainda de acordo com o investigador da Universidade de Lisboa, são propostas no plano «uma panóplia de medidas de adaptação, que procuram resolver estes problemas a curto, médio, e longo prazo. Existem zonas costeiras particularmente vulneráveis como Monte Gordo, a Praia de Faro, Quarteira e Portimão, que até final do século podem sofrer grandes recuos da linha de costa. Aí propomos alimentação artificial de praias, criação de dunas artificiais, a construção de paredões e também, em alguns casos, o recuo planeado de algumas zonas urbanizadas. Isto são propostas, a implementação estará sempre ao cuidado dos decisores políticos», sublinhou Luís Dias.

Em relação à temperatura elevada, existem muitas medidas. «As mais importantes incidem sobre o parque habitacional, onde as pessoas residem. Propomos que se tenha atenção a princípios de arquitetura bioclimática, para que os edifícios aproveitem mais o ambiente exterior para se arrefecerem. O calor pode ter impacto nas doenças transmitidas por vetores, que poderão ocorrer com mais frequência no Algarve, e também terá impacto na poluição. É de evitar a existência de águas paradas, e quando existem devem ser monitorizadas».

E na verdade, os recursos hídricos são o ponto mais sensível do plano. «Em média, a disponibilidade de água ronda os 750 hectómetros cúbicos por ano. Para o final do século, no pior cenário, o valor pode chegar aos 450 hectómetros cúbicos por ano. Isso obrigará a uma tomada de medidas para resolver o problema. Nós propomos várias soluções, como as paisagens de retenção de água que têm como objetivo reter o máximo possível quando há precipitação. São constituídas por diques de proteção, pequenas barragens e lagos artificiais, entre outras infraestruturas. Propomos a reutilização de águas residuais, e, de forma mais ativa, diminuir as perdas de água nas redes de abastecimento, públicas e de regadio. Também propomos medidas mais pesadas como construção de barragens, e a construção de uma central de dessalinização», avançou Luís Dias.

«São contabilizados todos os impactos destas medidas. Alertamos para os grandes impactos ambientais das medidas mais pesadas, e também damos a indicação da quantidade de água que podemos ir buscar para cada uma destas medidas, e de que forma podem ser conjugadas para que o Algarve mantenha a disponibilidade do recurso água até final do século».

Por fim, «vai ser constituída uma comissão de acompanhamento, e a partir de agora a AMAL terá o papel de promover a implementação do plano. As medidas mais fáceis, como a sensibilização da população, podem ser aplicadas desde já», concluiu o coordenador.