Algarve Biomedical Center já integra centenas de profissionais

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barlavento: Qual o contributo do Algarve Biomedical Center (ABC) para a saúde na região?
Nuno Marques:
Este projeto será estruturante, pois permite investigar, formar e colocar todo o conhecimento ao dispor dos profissionais de saúde da região. Pretende-se, como objetivo final, potenciar os cuidados de elevada qualidade aos seus diferentes níveis e que os utentes do Serviço Nacional de Saúde (SNS) usufruam destes benefícios a curto, médio e longo prazo.

Em termos práticos, o que está a ser feito?
Estamos a mudar estruturas, a criar plataformas informáticas, a estabelecer acordos de colaboração e parcerias que permitam fomentar a investigação, a formação e os cuidados de saúde à população. Estamos a implementar estas medidas, que já se fazem notar, por exemplo, no tempo necessário para aprovar e iniciar um estudo de investigação. Os recursos estão a ser disponibilizados, quer os do Centro Hospitalar do Algarve (CHA), quer os da Universidade do Algarve (UAlg). Também estamos a executar ações, que visam a certificação de qualidade internacional do CHA, visando cuidados centrados no utente e no doente. Unimos esforços e estamos a estabelecer importantes parcerias nacionais e internacionais, colocando-as, de imediato, em prática com projetos específicos. Em breve esperamos apresentar um projeto com elevado impacto na saúde e na sua relação com o turismo.

Quantas pessoas já integra?
É possível dizer, que o ABC, como estrutura ampla que se pretende que seja, já integra centenas de investigadores e profissionais de saúde, tendo, inclusive, desde a sua criação apoiado a publicação de alguns artigos científicos em revistas de elevado impacto internacional.

A médio ou longo prazo, o que pretendem estudar e investigar?
Pretendemos proporcionar à população os cuidados de saúde de elevada qualidade que esta merece e deverá exigir. Na saúde, todas as inovações que são colocadas à disposição da população carecem de investigação básica e translacional. Queremos que essa investigação seja, de seguida, testada em ensaios clínicos e dada a adequada formação pré e pós–graduada aos profissionais para que a possam aplicar devidamente ao doente. Estamos a fortalecer todos estes pontos e a criar fortes elos de ligação entre todos eles, com o único objetivo de possibilitar à população algarvia o acesso às últimas inovações tecnológicas e terapêuticas disponíveis. A nossa forma de trabalhar permitirá também que, no caso de existir um problema identificado por um doente ou um clínico, que não tenha atualmente uma solução, possamos desencadear a investigação necessária para encontrá-la, realizar os testes necessários e aplicá-la na prática clínica.

O ABC surgiu de uma portaria dos ministros da Saúde e da Ciência a 8 de abril. Têm sentido apoio e acompanhamento deste projeto pela tutela?
A tutela está empenhada no sucesso dos Centros Académicos a nível nacional. Quanto ao nosso Centro Académico, os Ministérios têm acompanhado de perto as nossas atividades. Iremos ainda, este ano, apresentar-lhes a calendarização de atividades e investimentos necessários para fomentar a formação, investigação e para transformar o CHA num Hospital Universitário, pelos critérios rigorosos que estão a ser criados. Dada a abertura que temos tido e o empenho da tutela, certamente teremos novidades muito positivas em breve para toda a região.

Para a investigação são necessários grandes financiamentos. Contam com esse apoio, equipamento e recursos suficientes?
Na atualidade existe um grande défice de recursos financeiros e de equipamentos no Algarve, não o podemos esconder. Contudo, estamos a trabalhar para otimizar os recursos existentes, a identificar as falhas e a garantir os fundos necessários para o desenvolvimento destas ações. Os Ministérios estão empenhados e, certamente, irão dar um contributo importante para a realização das atividades do ABC. No entanto, pretendemos a médio prazo ser uma estrutura com escassas necessidades de investimento público.

Como se faz isto?
Com um plano estruturado de desenvolvimento. Ou seja, necessitamos de um investimento inicial público que disponibilize a tecnologia necessária para os cuidados de saúde de qualidade, em especial no CHA. Em simultâneo, estamos, desde já, a implementar medidas que visam a captação de outras formas de financiamento, com instituições como a Fundação para a Ciência e Tecnologia e o INFARMED, com a utilização de fundos europeus para a área da saúde e, com parcerias com entidades privadas, quer do sector, quer de outras áreas de importância estratégica na região, como o turismo. Garantimos todo o empenho e estamos certos que podemos transformar o Algarve no pelotão da frente da investigação, formação e prestação de cuidados de saúde a nível europeu. Nós acreditamos e trabalharemos para o conseguir.

Numa altura em que tanto se fala em fixar profissionais, sente que têm interesse neste projeto?
O curso de medicina no Algarve já está a ajudar nesta fixação, tendo ficado 50 por cento dos médicos formados nos cuidados de saúde primários e hospitalares da região. O ABC vem ajudar a dar mais um importante impulso à fixação dos profissionais. Este projeto é muito mais que uma esperança na resolução do problema de fixação dos profissionais de saúde. Claro que não temos uma varinha mágica para resolver, de imediato, essa questão. Mas estamos em condições de disponibilizar aos profissionais de saúde mais-valias significativas, como a possibilidade de integrarem um projeto de investigação científica de elevada qualidade, de criarem os seus núcleos de formação e de poderem realizar, sem custos, um doutoramento no programa doutoral de investigação clínica e translacional, que iremos ajudar o Departamento de Medicina e Ciências Biomédicas da Universidade do Algarve a criar em 2017, e de juntarem à prática clínica uma carreira universitária no Departamento de Ciências Biomédicas e Medicina, entre outras. Temos apresentado estas possibilidades aos profissionais, que as têm recebido de braços abertos. Estas condições não serão apenas colocadas à disposição dos que virão a fixar-se no Algarve, mas também aos que já se encontram a trabalhar no Algarve na atualidade e que, nestes últimos anos, têm dado o corpo ao manifesto pela população da região. Felizmente possuímos excelentes profissionais que podem agora ter condições para desenvolver os projetos que ao longo dos anos foram deixando na prateleira.

Quais as principais dificuldades e oportunidades encontradas nestes seis meses?
Estamos numa região que, apesar da importância estratégica, em particular no turismo, não deixa de ser vista como periférica. Esta situação leva a uma imagem negativa, quer na opinião pública local, quer na nacional. Muitas vezes, temos sido notícia por situações negativas, que não sendo únicas no Algarve, talvez por estarmos numa zona turística, têm maior divulgação nos media nacionais. No entanto, temos também assistido a um grande desenvolvimento da investigação e da formação na saúde. Temos investigadores de topo a publicar nas revistas com maior impacto mundial, que têm obtido múltiplos prémios em diversas áreas, um curso de medicina que tem conquistado distinções de elevada qualidade e inovação na formação de médicos. É conhecida a dificuldade de fixação dos profissionais de saúde no Algarve. Estamos, contudo, numa fase de aposta nos cuidados de saúde diferenciados, baseada em padrões de elevada qualidade centrados no doente. Antes, não existiam sinergias, entre todos estes interlocutores, o que dificultava o aproveitamento dos recursos disponíveis. Conhecemos as dificuldades sentidas pelos profissionais, que têm sido levados progressivamente à exaustão, pela agudização da falta de recursos para desenvolverem a atividade da forma mais adequada à população. Será que esses profissionais estarão disponíveis para poder despender mais energias para um projeto como este do ABC? Se já não têm tempo para as suas atividades diárias de prestação de cuidados como vão participar na investigação e formação? Mais uma vez, os profissionais de saúde do Algarve demonstraram que, apesar de estarem a dar tudo o que podem na atualidade, quando lhes apresentamos um projeto integrador e inovador, a resposta tem sido «Sim, estamos disponíveis». Saliento que será necessário um investimento considerável na aquisição de equipamentos e meios técnicos para muitas das atividades a realizar, mas já estamos a trabalhar nisso em conjunto com o Conselho de Administração do CHA e a encontrar sinergias que permitam aproveitar o potencial da UAlg. Por fim, uma dificuldade encontrada foi a necessidade de articulação dos cuidados de saúde do Algarve, nomeadamente dos profissionais de saúde dos cuidados de saúde primários, paliativos e continuados. O ABC demonstrou a total disponibilidade para colocar os recursos ao dispor, tendo inclusive apresentado um protocolo de colaboração alargado ao Conselho Diretivo da ARS Algarve, ao qual aguardamos uma resposta positiva a curto prazo, e que dê cobertura às inúmeras solicitações que temos tido da parte destes profissionais de saúde.

Jornadas avaliam o que já foi realizado

«Estamos numa fase de lançamento do ABC, pelo que é importante dar a conhecer as ações que estão a ser realizadas, com elevados padrões de qualidade, quer na investigação, quer na formação, mas também dar a conhecer os projetos futuros que estamos a desenvolver», explicou Nuno Marques, presidente do Conselho Executivo do ABC. O principal objetivos das jornadas, que se realizam a 24 de novembro, no auditório do CHA, em Faro, é dar a conhecer aos profissionais de saúde e outros interlocutores do sector, as atuais capacidades do centro «e dizer que estamos aqui de portas abertas para apoiar os seus projetos», contou.
As jornadas surgem na sequência da primeira ação do deste centro, que foi uma sessão no âmbito do HORIZON 2020 efetuada na CCDR Algarve e que serviu para identificar as dificuldades, estabelecendo também, de imediato, uma forma de acesso aos fundos europeus deste programa.
Nas jornadas Algarve Biomedical Center participam parceiros institucionais, como a CCDR Algarve, que está a trabalhar com o ABC no acesso a fundos europeus, a FCT, na qual a estrutura algarvia já é um centro de investigação registado, e o INFARMED, entidade com a qual o centro já está a trabalhar em várias áreas, sendo exemplos a investigação e a criação da Unidade de Farmacovigilância do Algarve e Alentejo, que irá ficar alojada a partir de janeiro de 2017 nas instalações do Campus das Gambelas. Por fim, o médico Nuno Marques resume que pretende que as jornadas sejam um fórum de debate da investigação básica, translacional e clínica na região.

Seis meses de trabalho intenso

Após a portaria de 8 de abril, o Centro Académico de Investigação e Formação Biomédica do Algarve foi constituído a partir de um consórcio entre o CHA e a UAlg, através do Center for Biomedical Research (CBMR) e do Departamento de Ciências Biomédicas e Medicina. Foram definidos diversos objetivos, como potenciar os recursos humanos diferenciados dos consórcios, a introdução de programas inovadores e parcerias estratégicas, que possibilitassem avanços qualitativos na participação da comunidade, ações para promover os cuidados de saúde, com base nas contribuições das ciências médicas básicas e clínicas e dos serviços de ação médica do CHA, do CBMR e do Departamento de Ciências Biomédicas e Medicina da UAlg.
«Com estes objetivos, lançamos mãos à obra. Foi nomeado um Conselho Executivo do Centro Académico, constituído por dois elementos de cada um dos membros do consórcio, ao qual tenho a honra e responsabilidade de presidir», recordou Nuno Marques.

Nos seis meses seguintes, até à data, os responsáveis efetuaram um levantamento das potencialidades das estruturas e das dificuldades em cada uma das áreas, definiram o nome do Centro Académico, passando a chamar-se Algarve Biomedical Center (ABC) e criaram um regulamento interno, que assenta em três pilares: investigação, formação e cuidados de saúde. «Não pretendíamos criar mais uma estrutura que se iria sobrepor, quer aos departamentos da UAlg, quer aos de investigação e formação do CHA», esclareceu o médico.

Das medidas mais importantes, os responsáveis do ABC optaram por implementar um modelo flexível, que se adapte à evolução constante do sector e elaboraram um plano de ação a três anos.
Para já, integram também o grupo de trabalho que está a definir o estatuto do Hospital Universitário.

Mostrando-se uma estrutura ativa desde o início, o ABC passou a integrar o Conselho Nacional de Centros Académicos Clínicos, tendo sido assumida ainda a responsabilidade de elaborar, implementar e manter uma Plataforma Nacional destes centros para facilitar a colaboração entre as estruturas nacionais de Investigação e Formação em Medicina. Esse projeto já está em fase final de desenvolvimento e testes, revelou ainda Nuno Marques.

Há também várias parcerias em curso, como com o Centro Académico de Medicina de Lisboa, aquele que é considerado, segundo Nuno Marques, como o de «maior experiência e implementação nacional e internacional. «Não será apenas mais um acordo para ficar no papel», pois «está já a levar à realização de uma estreita colaboração entre os Centros Académicos na formação, investigação e nos cuidados de saúde», adiantou. Este permite ações como o intercâmbio de alunos, a partilha de experiências no programa doutoral, a elaboração de projetos de investigação com a colaboração e partilha de ambos os centros, a possibilidade de união de esforços e recursos para a presença de um Biobanco no Algarve.

Além disso, o ABC está a colaborar e a apoiar a criação do Centro Académico das Beiras, estando ainda a ser finalizados acordos com Centros Académicos de outros países europeus, como a Inglaterra, Bélgica, Holanda e Suécia.

No caso do Algarve já foram estabelecidos protocolos com a Escola Superior de Saúde, tendo sido proposta uma parceria com a Administração Regional de Saúde do Algarve, que visa disponibilizar os recursos do ABC aos profissionais de saúde dos cuidados de saúde primários, continuados e paliativos da região.

Até ao final do ano, o ABC pretende ainda estabelecer parcerias com a Faculdade de Ciência e Tecnologia da UAlg, com um envolvimento mais direto das Ciências Farmacêuticas, bem como com a Faculdade de Economia, as Tecnologias de Informação da UAlg.

São ainda relevantes as parcerias com a CCDR do Algarve, o INFARMED e a Fundação da Ciência e Tecnologia. A meta é «atingir num período de três anos um desenvolvimento integrado de toda a área da saúde com uma melhoria exponencial de todos os índices nas áreas de investigação, formação e prestação de cuidados de saúde», argumentou Nuno Marques.