AlgarOrange considera guerra biológica para salvar laranjas da região

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São 500 trabalhadores, 6500 hectares de área de produção, 110 mil toneladas de laranjas e 90 milhões de euros de volume de negócio. Estes são os números somados, em 2017, pelas nove empresas que formam a associação de Operadores de Citrinos do Algarve (AlgarOrange), criada em agosto de 2018. Cacial, Frusoal, Frutalgoz, Frutas Lurdes Guerreiro & Filhos, Frutas Martinho, Frutas Tereso, Machorro & Filhos, Matinhos e Parafrutas juntaram-se para alavancar a internacionalização daquilo que produzem.
«Ao olhar para as necessidades do sector, percebemos que a promoção dos citrinos é essencial. Achamos que a mais-valia da laranja algarvia é de tal ordem que devemos potenciar a marca no mercado exterior», começou por explicar ao «barlavento» José Oliveira, presidente da AlgarOrange e presidente do conselho de administração da Cacial.
Apesar de a maioria já exportar laranjas, «individualmente, não temos capacidade de produção suficiente para encarar determinados clientes que precisam de maiores quantidades. Acreditamos que em conjunto, associados, podemos criar um maior canal de escoamento e ir ao encontro de outros mercados, como as cadeias de distribuição em França, Alemanha ou Dinamarca. Juntos acreditamos que é possível».
A primeira medida da AlgarOrange foi apresentar uma candidatura ao programa CRESC Algarve 2020, para apoiar o objetivo. «Não podemos competir de forma direta com os nossos concorrentes, como os espanhóis. A produção de laranja do Algarve é uma gota de água, em comparação com a deles. Não podemos ir para o mercado com a perspetiva de competir do mesmo modo. No entanto, vamos escolher mercados onde a qualidade da nossa laranja se diferencie», explica José Oliveira.
«Acreditamos que a candidatura possa ser aprovada» e, nesse caso, os primeiros passos serão «a presença da AlgarOrange em feiras internacionais, em Madrid, Berlim e Canadá, com ações de demonstração e provas». Mas não é só fora de portas que a promoção da laranja algarvia se faz, até porque é produzida num destino turístico. «Pretendemos fazer ações viradas para os estrangeiros que nos visitam. Na prática, queremos colaborar com os hotéis da região, dar a conhecer a laranja algarvia ao cliente estrangeiro. Também queremos trabalhar com o Aeroporto de Faro e fazer algumas ações pontuais», revela José Oliveira.
A AlgarOrange pretende ainda ter intervenção na marca Citrinos do Algarve – Indicação Geográfica Protegida (IGP). Um selo de qualidade que nasceu na Cacial, segundo José Oliveira. «Em 1998, a Cacial fez a candidatura à União Europeia para a criação da marca. Depois, acabámos por ceder a gestão da mesma à União dos Produtores Horto – Frutícolas do Algarve (Uniprofrutal), porque não fazia sentido sermos operadores e ao mesmo tempo entidade certificadora. Havia um conflito de interesses», recorda.
«Para terem esse selo nos seus citrinos, os produtores têm de cumprir determinadas obrigações, como formas específicas de cultura, devem utilizar apenas determinados pesticidas, e obedecer a requisitos próprios de higiene e de condições de trabalho. Estamos a falar de uma certificação europeia», detalha.
Agora, a AlgarOrange pretende que a distinção IGP seja potenciada e gerida de forma mais dinâmica. «Em 2018, a nossa associação representava cerca de 30 por cento da produção de citrinos no Algarve. Este ano, estamos perto dos 40 por cento. Por isso, acreditamos que temos peso suficiente para ter voz ativa em tudo o que diz respeito ao potenciar da marca Citrinos do Algarve – IGP. Queremos representar algo de concreto na interlocução com entidades oficiais, sejam nacionais ou estrangeiras», resume.
José Oliveira explica ainda ao «barlavento» que os últimos três anos foram «bons do ponto de vista económico». Todavia, esse cenário não se está a repetir em 2019, «que está a ser extremamente difícil. Os preços caíram brutalmente, o consumo é muito menor e a falta de chuva pode antever problemas complicados». O dirigente afirma que ainda é cedo para prever números, mas serão «certamente bastante piores que os dos últimos dois anos».
Para o futuro, há ideias em cima da mesa. Uma é a sensibilização nas escolas, aliás, iniciativa que muitas das empresas fundadoras da associação já realizaram. A Cacial, por exemplo, chegou a oferecer máquinas de sumo e laranjas, a escolas do concelho de Faro, para que «os jovens se habituassem a beber fruto natural, em vez de refrigerantes».
Quanto à entrada de novas empresas no coletivo, José Oliveira garante que todas as candidaturas serão analisadas, contudo, não acredita que seja um processo fácil, uma vez que «no Algarve nunca houve um sentimento de colaboração entre partes e cheguei a ouvir de entidades que a nossa associação não iria ter sucesso e que haveria mesmo bastantes conflitos entre nós».
A AlgarOrange fez a primeira apresentação pública na Mostra Silves Capital da Laranja, que se realizou entre os dias 15 e 17 de fevereiro, naquela cidade. A próxima participação num certame será na Feira Nacional de Agricultura, em Santarém, entre 8 e 16 de junho, até para dar o exemplo a outras associações congéneres do sector e mostrar uma bandeira da região. «É preciso que se saiba que nove operadores de citrinos do Algarve se conseguiram associar e potenciar as suas mais-valias, para em conjunto darem novos passos», conclui.

Vendedores ambulantes da EN125 não dignificam a laranja da região

Apesar de José Oliveira, presidente da Associação de Operadores de Citrinos do Algarve (AlgarOrange) e presidente do conselho de administração da Cacial, estimar que a sua associação representa quase 40 por cento de produtores de laranja da região, é impossível contabilizar o número total de operadores, situação que «impossibilita a capacidade de negociação».
«Há muitos vendedores de citrinos. Há produtores que colocam a fruta diretamente no mercado abastecedor» e, no final da cadeia, «há os vendedores ambulantes. Não temos nada contra os produtores que vendem laranja junto às suas propriedades. Mas temos contra as vendas ambulantes que aparecem em qualquer sítio com sacos de fruta e que não são agricultores. Estão ali durante horas e ninguém sabe qual é a proveniência daquelas laranjas», avisa.
A AlgarOrange estima que «talvez mais de metade dos citrinos vendidos à beira da Estrada Nacional (EN) 125 é roubada». Apesar de admitir que as questões fiscais também se colocam neste tipo de comércio, uma vez que não passam fatura ao consumidor final, o maior problema é a saúde pública. «Ninguém consegue garantir e provar que são laranjas de qualidade. As organizações certificadas de citrinos têm obrigações. São alvo de auditorias regulares, que garantem a qualidade de tudo o que produzem. A laranja da EN125 não é rastreada e por isso acreditamos que essa situação deveria terminar. Eu mesmo já tenho levado essa questão a entidades oficiais», diz José Oliveira.
O dirigente reconhece a dificuldade que existe em conseguir controlar todo os ramais da fileira dos citrinos. «Quem deve fiscalizar a qualidade dessas laranjas é a Autoridade de Segurança Alimentar e Económica (ASAE), mas com todos os problemas que existem na hotelaria, na restauração e com o número de pessoas que vem para o Algarve desenvolver a sua atividade económica no verão, percebo que as laranjas da EN125 não sejam, de todo, uma prioridade».

Luta autocida para controlar pestes pode chegar ao Algarve

Segundo José Oliveira, presidente da Associação de Operadores de Citrinos do Algarve (AlgarOrange) e presidente do conselho de administração da Cacial, a maior parte das empresas do sector consegue produzir laranja todo o ano, embora setembro e outubro sejam os meses mais difíceis. Nessa altura «veem-se mais laranjas importadas nos supermercados», explica.
A partir de maio e até setembro, as laranjas algarvias têm outro grande problema: a praga da mosca do Mediterrâneo. Este inseto faz com que a fruta caia e inviabiliza que fique apta para consumo. Apesar de haver no mercado vários pesticidas para combater esta praga, José Oliveira e a sua equipa querem introduzir métodos alternativos e menos poluentes. Uma solução em estudo é a introdução da chamada luta autocida, ou seja, a utilização dos insetos para se controlarem a si próprios. «Estamos a pensar em algo que já foi experimentado na Madeira. O projeto passa pela produção de moscas macho esterilizadas. São largadas junto às fêmeas, que ao tentarem acasalar, não se reproduzem, inibindo a propagação da espécie. Isso vai fazer com que o número de indivíduos diminua», explica.
Num futuro não muito distante, «queremos que seja possível afirmar que somos uma região com grandes preocupações ambientais onde até o combate às pragas que afetam a produção de citrinos é livre de químicos».
O ideal, para José Oliveira, é que a ideia seja criada a «nível regional», embora o governo possa aqui ter um papel ativo e estender a discussão a todo o país. Outra praga que alarma o dirigente é a Psila africana dos citrinos (Trioza erytreae). Esta espécie ainda não chegou ao Algarve, mas segundo o mapa que a Direção Geral de Alimentação e Veterinária (DGAV) mantém atualizado, já está presente em praticamente toda a zona norte e centro, chegando quase às portas de Setúbal.
«Se chegar cá será uma catástrofe total. É uma praga que propaga a doença Citrus Greening e não tem cura. As árvores afetadas têm de ser arrancadas» conta José Oliveira.
Além dos algarvios, também os espanhóis estão preocupados, motivo que levou a DGAV, o Instituto Valenciano de Investigaciones Agrarias (IVIA) e o Instituto Superior de Agronomia (ISA) a criar um projeto conjunto, que consiste na largada de predadores numa «zona tampão», onde a praga já está identificada. Segundo José Oliveira, o projeto aguarda a autorização do Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) para avançar.
Para já, o dirigente não consegue prever quando será implementada a luta autocida nos pomares algarvios, mas a maior parte das empresas fundadoras da AlgarOrange, já executa medidas de proteção ambiental. «A água é um fator que nos preocupa muito. Temos de ser capazes de produzir laranja, consumindo o menor volume possível», através de, por exemplo, rega gota-a-gota. Além disso, alguns pomares já estão equipados com sondas que medem «o grau de humidade do terreno» para ligar e desligar a rega, conforme os dados obtidos.
«Esta tecnologia é cara e não dá para colocar em todos os pomares», mas o desafio é continuar a instalar novas sondas nos pomares mais produtivos.
José Oliveira alerta ainda para a «enorme expansão» das plantações de abacate na região, culturas de regadio que estão a ser implementadas em grandes áreas. «Não estarei muito errado se afirmar que a agricultura é responsável por 60 cento da água consumida na região. A chuva que se fez sentir este ano não é minimamente significativa e acho que é tempo de olhar para esta problemática», conclui.