«A Saúde está cada vez mais longe dos algarvios» diz Cristóvão Norte

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Encontro de Defesa do Serviço Nacional de Saúde (SNS) em Faro, organizado pelo Partido Social Democrata (PSD) insistiu na necessidade de um novo Hospital Central para o Algarve.

«Esta é uma iniciativa de cariz partidário com o propósito de dar voz às necessidades dos algarvios» começou por afirmar o deputado social-democrata Cristóvão Norte aos jornalistas, durante o Encontro que convocou à entrada da unidade de Faro do Centro Hospitalar Universitário do Algarve (CHUA), ao final da tarde de ontem, segunda-feira, 15 de julho.

«O propósito é sobretudo dar nota de que há uma perda trágica no Serviço Nacional de Saúde no Algarve. Não é um problema novo, mas tem vindo a avolumar-se ao longo dos anos. Até agora não há medidas decisivas para ultrapassá-lo. As perdas significativas que temos assistido, põem em causa o acesso aos cuidados de saúde e põem em perigo estas populações, prejudicando a sua igualdade de oportunidades» alertou o parlamentar.

Ainda de acordo com Cristóvão Norte, o PSD defende a criação de um novo Hospital Central para o Algarve, como apresentado na última legislatura.

Uma medida que começou a ser posta em prática em 2009, mas que acabou por ser suspensa e congelada até 2016 devido ao memorando com a troika.

«Em 2006, de acordo com um estudo de natureza técnica, a região estava em segundo lugar como prioridade a nível nacional, sendo aquela que maior perda na saúde apresentava. Em 2016, há um plano de estabilidade e crescimento que estabelece as prioridades na área da saúde, com a concretização de cinco novos hospitais até 2023. Nenhum deles é o Hospital Central do Algarve».

Mas uma nova infraestrutura não «resolveria todos os problemas, como a falta de recursos humanos. Ajudaria, contudo, a contribuir para isso, uma vez que um hospital novo e de cariz universitário consegue dar maior inovação e abrir novas perspetivas de carreira. Algo que aqueles que vêm para o Algarve não têm», acrescentou Cristóvão Norte em declarações aos jornalistas.

Ainda sobre a questão da falta de médicos no Algarve, o deputado aproveitou a ocasião para fazer críticas ao atual governo, deixando uma sugestão.

«Portugal tem um problema de distribuição geográfica de médicos. O Estado tem de lançar mecanismos mais eficazes porque as medidas que foram tomadas até agora, do ponto de vista de atratividade de médicos para a região, não foram suficientemente fortes para contrariar a centralização. Não basta a questão dos incentivos como têm sido moldados porque em regra, os concursos ficam vazios e não há resposta. Nestas circunstâncias podia-se avaliar em que medida faz ou não sentido, criar algum caráter de obrigatoriedade para garantir que a distribuição geográfica se verifique e se acode a uma igualdade de oportunidades no acesso à saúde, tal como está previsto na Constituição».

O representante do PSD chamou ainda a atenção para alguns números.

«Os algarvios pagam impostos e por isso não têm de ficar mais de 1000 dias à espera por uma consulta de ortopedia ou 776 dias em estomatologia. Os dados são demolidores».

«A perda da oferta assistencial é trágica e a saúde está cada vez mais longe dos algarvios. Como revela o aumento do número de queixas formuladas. Entre 2016 e 2017, as queixas no SNS subiram 18 por cento, no Algarve dispararam para 103 por cento».

Por fim, Cristóvão Norte quis deixar uma mensagem a título pessoal: «espero que todas as forças políticas, sejam de direita ou de esquerda, nas próximas eleições assumam este compromisso com o SNS do Algarve de forma inabalável».

Também Sérgio Branco, presidente do Conselho Regional do Sul da Ordem dos Enfermeiros, marcou presença no encontro. Proferiu críticas ao SNS do Algarve, afirmando tratar-se de um problema que piora na época balnear.

«É um serviço que está cronicamente mal por falta de recursos humanos, material clínico e tecnologia. Não faz sentido que uma pessoa tenha de ir fazer um exame oncológico a Lisboa, percorrendo 600 quilómetros, num período sensível da sua vida. Esta fragilidade de cuidados de saúde do Algarve é crónica, mas nesta altura mais sazonal, em que a população triplica, não há reforço nem em termos de médicos, nem em termos de capacidade assistencial. Ou seja, os turistas podem contar com um Algarve debilitado».

João Dias, delegado-regional do Sindicato Independente dos Médicos (SIM), por sua vez, sublinhou que o problema da saúde no Algarve merecia a união de todas as forças políticas.

João Dias, Francisco Amaral e Sérgio Branco.

«Independentemente dos partidos, neste momento este é um problema da região. Precisamos de todos os algarvios para a defesa da saúde. Não precisamos de partidos a defender uma determinada causa e outros a apontarem o dedo. Isto é um problema que ultrapassa tudo o que sejam partidos e não se percebe porque não estamos juntos».

Ainda na opinião do médico sindicalista, a problemática «exige uma política com uma estratégia e modelos de gestão diferentes. É preciso cativar os profissionais para se fixarem nas regiões periféricas. O que acontece atualmente leva a que saiam para o exterior para serem contratualizados com valores muito superiores àqueles que se pagam no SNS. Têm de ser medidas estruturais e de gestão de fundo que possam evitar as assimetrias e as discriminações que neste momento decorrem no Algarve e noutras regiões». Também para João Dias, a construção de um novo Centro Hospitalar é «fundamental».

«O Algarve é a região em que a saúde privada mais tem crescido nos últimos anos» diz João Vasconcelos

Apesar de se tratar de uma iniciativa organizada pelo Partido Social Democrata (PSD), João Vasconcelos, deputado do Bloco de Esquerda (BE) à Assembleia da República fez questão de estar presente no Encontro em Defesa do Serviço Nacional de Saúde (SNS) em Faro e no Algarve, na segunda-feira, dia 15 de julho.

Mesmo sendo uma manifestação de cariz partidário, o deputado afirmou que essa questão «pouco lhe interessava. Coloquei na minha agenda porque é um encontro em defesa do SNS».

João Vasconcelos no uso da palavra.

Na opinião do representante, a degradação começou «quando se fez a junção de três hospitais em 2013. Os grandes problemas já vinham de trás e essa medida veio agravar a situação crítica em termos de falta de médicos, enfermeiros, auxiliares técnicos de diagnóstico, medicamentos, muitas horas de espera e cirurgias adiadas».

Apesar de não culpar, na totalidade, o atual governo para os problemas do Centro Hospitalar Universitário do Algarve (CHUA), João Vasconcelos referiu que o mesmo «não fez o trabalho de casa que devia».

O deputado relembrou que na discussão de especialidade do Orçamento de Estado para 2019, o BE introduziu o reforço de 500 milhões de euros para o SNS, logo «dava para fazer mais alguma coisa». Além disso, «há cerca de dois anos o governo anunciou um investimento de 19 milhões de euros para o CHUA, gostaria de perguntar o que foi investido aqui».

O deputado recordou ainda aos jornalistas que o BE «fez aprovar que este ano o governo iniciasse os procedimentos para a construção do novo CHUA. Esperemos que se dê início a essas propostas e esperemos que até ao final do ano alguma coisa seja feita a esse nível. O Algarve é a região em que a saúde privada mais tem crescido e o SNS mais se tem degradado nos últimos tempos. Este é um dado notório e têm de se dar passos concretos neste momento. Somos a favor da dedicação exclusiva, a nível dos médicos».

Por fim, o representante do BE, deixou a promessa que o partido irá «continuar a batalhar por um SNS digno, a favor das pessoas, a favor do Algarve e a favor do país».