Último adeus a Bota Filipe, criador do ZEFA em Almancil

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Ex-oficial do Exército, homem da cultura e das artes, faleceu a 25 de maio. Deixou obra em Almancil, terra natal, onde criou o ZEFA, talvez o maior centro de arte contemporânea particular em Portugal.

Constituído por vários edifícios num terreno de três hectares, o ZEFA, no Sítio das Pereiras, em Almancil, concelho de Loulé, tem uma história curiosa. O que o torna único não é a dimensão, mas o projeto, que alia urbanismo, arquitetura, ambiente e artes plásticas, no mesmo lugar.

Tudo começou em abril de 1993, quando ali só existiam laranjeiras, uma antiga horta e a casa que pertencera à avó materna Josefa (conhecida pela alcunha «Zefa») de Bota Filipe, ex-militar de carreira, e ilustre cidadão louletano, natural de Vale d’Éguas, onde nasceu a 17 de dezembro de 1930.

Sem orçamento para contratar uma empresa de construção, decidiu deitar mãos à obra. Arranjou dois pedreiros e foi ele próprio quem lhes deu serventia. Lançou-se a primeira pedra e em 1999, o ZEFA – Centro de Arte Contemporânea, foi inaugurado.

Apesar de ser uma iniciativa privada, o casal Bota Filipe e Cândida Paz abriam as portas à comunidade. Qualquer pessoa podia vir percorrer a calçada ladeada por esculturas ao ar livre em comunhão com a natureza.

Na altura da entrevista que aqui reproduzimos (novembro de 2009), Bota Filipe tinha 78 anos, e fez questão de sublinhar que começou o estudo da arte nos anos 1980 juntamente com a esposa.

«A arquitetura não é só casas e edifícios. A arte da arquitetura é aquilo que está nesses edifícios, a criar emoções. E não pode ser copiada. O património constrói-se pela criação. A riqueza está na diferença», considerava.

Os seus pensamentos, neste caso, aplicam-se aos edifícios de cores fortes e contornos modernos que rodeiam o centro. Mas também poderiam ser um manifesto à descaraterização do Algarve, invadido pelo cimento destinado ao turismo de massas, e à então recente proliferação de não-lugares como as grandes superfícies comerciais, que começavam a proliferar por toda a região.

Financiado em exclusivo pelo casal, o ZEFA foi pensado para ser uma pequena cidade, em constante renovação, de forma a apresentar ideias novas e a estar sempre na vanguarda.

Porém, talvez o grande sonho de Bota Filipe fosse tornar aquele centro numa paragem obrigatória, ou pelo menos frequente, para os alunos das escolas básicas da região descobrirem o que pode ser a arte. Uma dinâmica que não resultou, mas não devido aos esforços do casal.

«Nós convidamos as escolas, mas poucas vêm porque os presidentes de Câmara não estão vocacionados para a arte, e as crianças precisam dos autocarros dos seus municípios para cá virem», lamentou.

Apesar de não se considerar artista, na sua opinião, ao longo das últimas décadas, perdeu-se a oportunidade de incentivar o gosto pela arte. Uma consequência é a falta de sensibilidade de muitas pessoas para com o que as rodeia, sobretudo para com «a arquitetura, que é a coisa mais importante do mundo, pois vive connosco, e nos agride todos os dias».

O mentor do ZEFA recorda-se de ter recebido críticas estereotipadas, ideias preconcebidas de que a arte deve representar o «belo».

Uma noção redutora mas ainda nos dias de bastante comum e generalizada. Por isso, o objetivo da sua casa confrontar os visitantes com formas de expressão contemporâneas, arrojadas, inesperadas.

A ideia era fazer mostrar como ao longo da história, a arte tem evoluído por muitos caminhos abstratos e experimentais, que ultrapassam o significado de tal adjetivo. Outro aspeto distinto de uma galeria convencional, é que não havia obras penduradas nas paredes.

Os longos muros da propriedade são as telas, sempre em transformação. Servem de suporte para o cunho pessoal dos artistas que por aqui passaram. E nada estava à venda, pois o projeto não tinha fins lucrativos.

«Não tenho inclinação para vender. Não vejo como é que vou convencer uma pessoa a comprar uma peça de um artista bom, mas que ela não entende», considerou Bota, que dava o exemplo da Bienal de Veneza, onde «se vende. Serve apenas para mostrar artistas de diferentes países e o que têm de inovador».

«Ainda hoje me admiro como é que ele conseguiu fazer tudo isto. Aqui deu largas a toda a sua imaginação», concluiu Cândida Paz, em relação ao marido que conseguiu materializar um sonho e o seu amor às artes, para partilhar com os outros também. Obrigado, e até sempre, Bota Filipe!

Um exemplo de cidadania e altruísmo

Em nota de pesar, a Câmara Municipal de Loulé manifestou profundo pesar pelo falecimento de Coronel António Bota Filipe Viegas. Após o ensino primário em Almancil, frequentou a Escola Comercial em Faro e o Instituto Comercial em Lisboa, ingressando, depois, na Academia Militar onde foi graduado oficial.

Esteve na Administração Militar onde exerceu funções de apoio logístico ao nível da alimentação, finanças e economia. Durante a Guerra Colonial foi destacado para missões de combate, tendo completado três comissões de serviço, duas em Moçambique e uma em Timor, país onde segundo o próprio, despertou a sua «criatividade brutal».

Após se reformar do Exército Português, estudou pintura, desenho, gravura, cerâmica e escultura no IADE e no Ar.Co, ambos em Lisboa, durante a década de 1980. Em 1991, foi bolseiro em São Paulo (Brasil) e professor convidado no Ar.Co em 1992. Regressou à terra natal em 1993 tendo construído, num terreno de família, um Centro de Arte Contemporânea com fundos próprios, «no mais puro altruísmo possível, perpetuando, pelas artes, o nome da sua» avó Josefa (ZEFA), segundo reconhece a autarquia louletana.

No ZEFA, Bota Filipe convidou diversos artistas plásticos para se associarem ao projeto, o qual, além de ter proporcionado a realização de diversas exposições com entrada gratuita, foi inspirador para a realização de uma curta-metragem, bem como para o desenvolvimento de uma tese de mestrado. Foi autor de um conjunto de pinturas no Morgado de Salir e também ajudou a valorizar o Calçadão de Quarteira com desenhos de calcetaria inscritos naquele espaço público.

Foi um homem sempre atento à contemporaneidade cultural, facto que o levou a frequentar, em 2007, numa fase já tardia da sua vida, um curso de Artes e Programação Cultural no Instituto Universitário D. Afonso III em Loulé. «Não poderia a Câmara Municipal de Loulé deixar de registar o seu percurso de vida e exemplo de cidadania, através de uma breve referência à obra cultural que nos deixou. À família e aos amigos, a autarquia endereça as mais sinceras e sentidas condolências».