Moçoilas cantam a Serra do Caldeirão há 25 anos

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São 14 os temas que compõem o novo disco do trio de vozes formado por Margarida Guerreiro, Teresa Silva e Inês Rosa. Chama-se «Atão porque não?» e é o terceiro álbum das Moçoilas, coletivo que se assume como grupo de cantares da Serra do Caldeirão, com ligação ao Algarve interior e Alentejo sul. Será apresentado ao público num concerto especial no Teatro das Figuras, em Faro, na terça-feira, dia 30 de abril, às 21h30.

Margarida Guerreiro, uma das fundadoras, explica ao «barlavento» que o novo trabalho tem «muitas canções de raiz. «Nós as três temos ido imensas vezes à serra e no inverno temos feito pequenas digressões pelas aldeias de onde foram recolhidas cantigas, tais como Martim Longo, Pão Duro e Monte Ruivo. Apesar de serem lugares pequenos, sempre que lá vamos, damos e recebemos muito das pessoas. É esta ligação à terra que queremos manter e mostrar neste álbum».

Na verdade, desde 1994 que as Moçoilas recolhem cantigas ou aproveitam recolhas realizadas por outros, na maioria da Serra do Caldeirão, mas também de outros interiores do sul do país. Algumas estavam esquecidas no arquivo, no meio de cassetes antigas, gravadas há mais de 20 anos. Material que as três cantadeiras revisitaram cuidadosamente para compor o novo disco. O processo criativo, contudo, tenta respeitar ao máximo os originais. O grupo simplesmente apropria-se das melodias e grava de novo as canções, processo que carinhosamente apelidam de «amoçoilar».

«Temos todo o cuidado de as aprender tal e qual elas são, com a mesma pronúncia e métrica. Depois, o que fazemos é criar harmonias entre as três vozes, porque nas cassetes estão gravadas a uma só voz», diz Teresa Silva.

Segundo Margarida Guerreiro, a origem de algumas destas canções, perde-se no tempo. Passaram de geração em geração. Mantê-las vivas e «divulgar a cultura serrana algarvia» é um dos objetivos das Moçoilas. «Temos a missão de recolher este legado junto das pessoas que ainda guardam estas memórias, e trazê-las para os dias de hoje, dando-lhes uma outra estética. Às vezes, acrescentamos versos aqui e ali como forma de as aproximarmos de nós e de nós nos aproximarmos delas. O que fazemos é, em primeiro lugar, divulgar o Algarve e, em segundo, dar a conhecer estas canções aos músicos mais novos, para que as possam integrar nas suas sonoridades. Mostrar aos moços e moças que podem também agarrar estas raízes. Eu gostava que isso acontecesse», desafia Margarida Guerreiro.

«Se pensarmos bem, a nossa região foi muito esquecida a todos os níveis, nomeadamente por quem fez o trabalho de recolha e valorização» do património imaterial, considera. E exemplifica: «quando as pessoas se juntam, cantam canções alentejanas e canções das Beiras, porque já são conhecidas de há muito tempo».

Fotografia: Helena Lourenço

As Moçoilas acreditam serem importantes também para mostrarem «um outro Algarve para além do corridinho. Este grupo é um orgulho, porque nós representamos o início de muitas coisas. Quando encetámos o nosso percurso, havia muito pouco sobre música local. A apropriação destas canções e o reviver das histórias de outros tempos, que continuam a ser as nossas histórias, são processos muito gratificantes, que nos fazem questionar e crescer», concluem.

Tal como acontece com outras bandas que somam um historial de 25 anos, as Moçoilas passaram por altos e baixos. O falecimento de uma das cantoras da formação original foi talvez o momento mais difícil. Outros membros seguiram caminhos diferentes, mas Margarida Guerreiro encontrou na Teresa e na Inês as vozes que faltavam para continuar. Juntaram-se em 2016, por coincidência, no mesmo ano em que o Teatro Municipal de Faro criou o programa «Artista Figuras», com o objetivo de dar destaque anual a um talento consagrado da região, que tenha não apenas relevância regional, como nacional.

A iniciativa estreou-se com Viviane em 2016 e seguiu-se com Júlio Resende em 2017, tendo este ano sido endereçado o convite às Moçoilas, aproveitando as bodas de prata do projeto.

A efeméride dá direito a três concertos: a 30 de abril no Teatro das Figuras, a 7 de setembro no Festival F com a cantora de jazz Maria João, João Frade, João Farinha e Quiné Teles e a 30 de novembro com os Galandum Galundaina, de novo no Teatro das Figuras, em Faro.

Caldeirão em Madrid

Desde a fundação em 1994, as Moçoilas editaram dois álbuns, realizaram concertos e projetos com outros coletivos e marcaram presença em festivais um pouco por todo o país. Desde 2016, o trio alinha Margarida Guerreiro, Teresa Silva e Inês Rosa. Segundo recorda Teresa Silva, começaram por cantar e aprender as canções dos dois álbuns anteriores.

O primeiro concerto, curiosamente, em 30 de abril de 2016, foi o resultado dessa aprendizagem. Ainda em 2016 foram desafiadas pela ACTA – A Companhia de Teatro do Algarve, na pessoa do diretor artístico Luís Vicente, a «musicar três temas para uma peça de teatro, sobre a história da Catarina Eufémia, com textos de Jacinto Lucas Pires. Foi um processo musical muito interessante, ao longo do qual nos descobrimos enquanto autoras. Percebemos que havia um território de criação ainda por explorar, e que as nossas vozes se interligavam e harmonizavam de forma muito natural. Aventuramo-nos por harmonias tão complexas que só surgiram porque o fizemos em conjunto. Não era nada que estivesse na cabeça de uma de nós», detalha Margarida Guerreiro.

Nos invernos, rumaram a aldeias e montes da Serra do Caldeirão, para pequenos concertos. Em 2017, marcaram presença no Festival Rebuliço, em Verride (Montemor-o-Novo), no Festival Bons Sons, em Cem Soldos (Tomar), no Festival Literário de Querença (FLIQ), e no FUSOS de Alte, que este ano decorrerá de 7 a 9 de junho.

Em relação às colaborações com outros artistas, as Moçoilas, «já se fundiram com a música eletrónica de Miguel Neto, com Vitorino, Rão Kyao, com a vocalista dos Deolinda Ana Bacalhau e com a cantora algarvia Sara Afonso, com o Jazz da Maria João e do João Frade e com os alentejanos Os Vocalistas», descreve ainda Margarida Guerreiro.

As Moçoilas viajam no próximo dia 23 de maio até Madrid, à Embaixada de Portugal, para atuarem na apresentação do programa da próxima edição do «365 Algarve».

Do rock às cantigas da serra

Há 25 anos Margarida Guerreiro fazia parte de um projeto denominado Radial (Rede de Animação ao Desenvolvimento Integrado do Algarve), que mais tarde, deu origem à Associação In Loco. O objetivo era apoiar as comunidades da Serra do Caldeirão no seu próprio desenvolvimento. «No fundo, gostaríamos que as pessoas se orgulhassem de ser da serra», recorda ao «barlavento».

Durante esse tempo, Margarida fazia parte de uma banda de rock, só de rapazes que acabou repentinamente. Começa então a nascer a vontade de criar um projeto com vozes de mulheres e sem os decibéis dos instrumentos elétricos. Falou com outras pessoas ligados ao trabalho do desenvolvimento local – movimento forte em cuja dinâmica era fundamental dar voz aos locais, às aldeias, aos projetos das pessoas e dos sítios. Neste contexto surge a oportunidade de levar uma representação da Serra do Caldeirão à MANIFesta – onde estariam todas as regiões e todos os locais para se apresentarem e interagirem. Entre produtos, paisagens e projetos era fundamental levar a música representativa da região da Serra do Caldeirão.

Então, Margarida Guerreiro juntou-se a Eduarda Alves para trabalhar sobre uma cassete com cantigas serranas. «Colámo-nos à melodia, à letra, à forma de dizer as palavras e fizemos uma coisa gira. Queríamos apenas cantar em Santarém, mas acabámos por continuar», lembra. «A nós juntaram-se a Teresa Colaço e a Cristina Reis e foi um concerto surpresa muito inesperado. Pouco tempo depois a Teresa Muge juntou-se ao grupo e durante quase um ano as Moçoilas foram cinco. Entretanto, a Cristina Reis vai para África». Essa foi a primeira geração, de onde surge o álbum «Já cá vai roubado».

Com o infortúnio da morte de Eduarda Alves, Margarida lamenta que «o grupo morreu um pouco com ela e teve de renascer», com a ajuda da cantora Ana Maria Palma. Esta segunda geração manteve-se durante alguns anos e fez surgir um segundo disco «Qu’é que tens a ver com isso?».
Depois, o coletivo decidiu terminar por diversos motivos de ordem pessoal até renascer, de novo, com outra formação: Teresa, Inês e Margarida.

É desta formação que surge agora o álbum «Atão porque não?», gravado no Estúdio Vida Airada, em Vale Covo (Barranco do Velho), em março de 2019, com produção de Paulo Machado e masterização e misturas de Fernando Abrantes.