Cineteatro Louletano investe na inclusão, infância e território

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Paulo Pires, programador do principal equipamento cultural de Loulé desde 2015, revela as opções que prometem afirmar ainda mais o Cineteatro Louletano junto do público e entre pares.

A aposta numa programação que não é, de todo, mainstream tem compensado. Em 2019, o Cineteatro Louletano registou um recorde de público, com a maior afluência de sempre.

E apesar do atual contexto pandémico que tem sido particularmente duro para com o sector cultural, a equipa da principal sala de espetáculos de Loulé tem em marcha uma série de projetos ambiciosos.

A propósito do Dia Internacional das Pessoas com Deficiência, que se celebra a 3 de dezembro, será dado o «pontapé de saída» para uma novidade, «inclusão pela arte através da dança» segundo revela ao barlavento o programador Paulo Pires.

«Vamos iniciar uma parceria com o Grupo Dançando com a Diferença, dirigido pelo coreógrafo Henrique Amoedo, na Madeira. É um coletivo que tem um corpo profissional de pessoas com deficiência e que trabalha a dança contemporânea. Vão estar aqui em Loulé num trabalho de laboratório connosco, que incluirá ações de formação e a apresentação de espetáculos».

A ideia é que «durante a sua estadia possam interagir com três instituições particulares de solidariedade social (IPSS) do concelho que trabalham a deficiência, em conjunto com programas de inclusão social apoiados pela autarquia e dirigidos a jovens», revela.

Está na calha um fórum de dança inclusiva e uma criação a partir da obra «Bichos» de Miguel Torga.

Ainda este ano, será encetado outro projeto ambicioso a longo prazo. Segundo Paulo Pires, tem por título «Diário de uma República» e será desenvolvido com a Amarelo Silvestre, companhia de Teatro, de Canas de Senhorim.

A escolha deste coletivo justifica-se «porque, alguma forma, são especializados em trabalhar as questões do território».

O projeto «tem a ver com a auscultação e reflexão sobre o território louletano num horizonte de 10 anos. A base será cruzar teatro com fotografia. Pretendemos, ao longo de uma década, perceber o que está a surgir em contraste com o que vai desaparecendo» na paisagem física, natural, humana e simbólica.

Esmiuçando: «a cada dois anos, escolheremos um tema, dentro deste chapéu. Vamos convidar fotógrafos que irão fazer um trabalho de recolha para trabalhar, em residências, com uma equipa de atores de forma a transpor esse material para uma linguagem de palco», em criações inéditas que terão periodicidade bienal.

As mudanças ambientais devido às alterações climáticas serão abordadas. Esta recolha dará origem a espetáculos, exposições, edições, conversas e materclasses.

«O objetivo é que os fotógrafos também trabalhem com os alunos do curso profissional de multimédia» da Escola Secundária de Loulé.

«Vamos dar-lhes uma bolsa. É um projeto muito ambicioso e não conheço nada do género em Portugal», diz Paulo Pires.

Dois louletanos destacados na área da fotografia, Vasco Célio e Luís da Cruz, farão a curadoria dos congéneres, portugueses ou estrangeiros, que trarão um olhar externo.

A primeira edição deste «Diário de uma República» sairá em junho de 2021. Antes do final deste ano, haverá trabalho, embora as escolhas dos nomes ainda estejam em aberto.

«A ideia é termos diversidade estética nos olhares».

Em relação à programação da nova temporada, Paulo Pires sublinha «é sustentada por toda uma linha de pensamento. É muito importante que o público perceba o que norteia as nossas escolhas. Há sempre um lado subjetivo, pois não é uma ciência exata. Costumo dizer que cerca de 40 por cento da programação que apresento não encaixa no meu gosto pessoal, mas reconheço nela qualidade estética e considero pertinente que o público, em timings específicos, conheça determinados trabalhos em sincronia com a atualidade».

E mais. «Há muito público que vem aqui que não é de Loulé. Numa lógica de serviço público temos de olhar à nossa volta».

«Além do que se possa fazer mais avulso, há alguns eixos principais na nossa programação. Um tem a ver com os cruzamentos musicais entre gente reconhecida ao nível nacional e gente do território de Loulé ou do Algarve. Por norma, isso resulta em encomendas musicais que acontecem aqui pela primeira vez e que têm a ver com a valorização do talento local. Dá-lhes estímulo e visibilidade na esfera pública. Essa é uma questão importante».

O segundo ponto tem a ver com «diálogos entre música e imagem. Esse é talvez um eixo mais experimental que se consubstancia muito no Festival Som Riscado» a acontecer em novembro.

«Tem a ver com abordagens exploratórias na arte sonora», e é também uma oportunidade para os agentes da região se mostrarem. Por exemplo, a próxima edição do Som Riscado desafiou os alunos do curso de licenciatura em Imagem Animada da Escola Superior de Educação e Comunicação (ESEC) da Universidade do Algarve a interagir criativamente com novos projetos musicais da região.

Outro ponto fundamental de investimento do Cineteatro Louletano «é a arte para a infância» em várias frentes. Trabalhamos com duas estruturas que são, na minha opinião, as mais consistentes e criativas no panorama nacional. A Companhia de Música Teatral, que está ligada à está ligada à Universidade Nova de Lisboa, e a Musicalmente, de Leiria, de Paulo Lameiro, com concertos para bebés. Estas estruturas fazem investigação sobre o que deve ser apresentado à crianças antes de criarem os espetáculos. Têm toda uma máquina de questionamento/ pensamento, pesquisa e experimentação criativa sobre o que é o desenvolvimento infantil, como é que a criança reage aos estímulos da luz, do som, aos instrumentos, à presença das pessoas».

«Tudo isso se concretiza no que apresentam. Por outro lado, temos feito muita formação para os profissionais que trabalham nas creches, jardins de infância e escolas, e outras dirigidas aos alunos de mestrados de educação de infância e professores do primeiro ciclo, em Faro.

Esta iniciativa preenche uma lacuna, pois segundo Paulo Pires, «não há formação certificada, consistente e atualizada a sul do Tejo sobre arte para a infância, mas aqui tem havido um estímulo à reflexão crítica e debate em torno da temática da arte para a infância envolvendo artistas, educadores e outros especialistas nesta área».

Em relação ao futuro do Centro de Educação e Cultura de Quarteira, «é expectável que, ao nível da intervenção cultural e programação artística, haja uma concertação estratégica, em rede, com o Cineteatro Louletano, pois serão os dois principais espaços culturais do concelho, até porque Quarteira terá capacidade para acolher outro tipo de espetáculos que não existe aqui», como é o caso de uma black box para 300 pessoas.