A «queda do vigário», também conhecida por cascata de Alte, é um dos locais turísticos mais procurados na freguesia. De acordo com as entidades ouvidas pelo «barlavento», a seca deveu-se à «escassez das chuvas», mas também à recente plantação de um pomar, que ajudou a agravar e acelerar a situação. No entanto, Pedro Oliveira, vereador do ambiente da Câmara Municipal de Loulé, esclareceu que dentro de dias «teremos a possibilidade de socorrer Alte» e «em breve a lagoa voltará a ter água».
Depois da polémica lançada nas redes sociais em torno da seca da cascata de Alte, Pedro Oliveira confirmou que apesar do alerta ter sido dado há cerca de uma semana, a lagoa já está seca há um mês. «Choveu muito pouco este ano. A água que vai para a fonte grande e que depois segue na queda do vigário é muito pouca. A nascente começa numa propriedade privada, e o proprietário tem autorização para usá-la desde que respeite o uso das águas».
Nas redes sociais, a recente plantação tem sido apontada como a causa da seca. A água é fundamental para que o pomar com uma área entre os 20 a 30 hectares, e que beneficiou de avultados fundos de financiamento do PRODER, se possa manter. A própria Associação Portuguesa do Ambiente/ARH Algarve emitiu o título de utilização de recursos hídricos dos espaços ribeirinhos ao agricultor, antes do sucedido.
Pedro Oliveira garante que o problema será solucionado a curto prazo: «iremos resolver esta situação muito brevemente porque não vamos precisar de usar esta água para fins domésticos. Estamos a terminar uma obra através da qual iremos proceder ao reforço de água a Alte, deixando assim de estar dependente daquela nascente. Isto significa que a água que sobra da nascente e que vem para a fonte grande, eventualmente, poderá chegar à queda de água, favorecendo o sistema natural da fonte grande, pequena e queda do vigário».
O vereador explica ainda que «o proprietário está a colaborar connosco e vai deixar passar uma tubagem que permita o abastecimento de água a Alte. Não indo abdicar de um direito ao serviço público, iremos facilitar o uso pelo proprietário e facilitar o abastecimento das fontes. A água que levamos para Alte através da nova conduta vai custar dinheiro, portanto, sempre que o sistema natural tenha condições para fornecer água, utilizaremos primeiro o sistema que já está implementado», conclui.
Paulo Cruz, chefe de divisão da APA/ARH Algarve, explicou ao «barlavento» que a monitorização do caudal da nascente é feito desde 1978: «estamos num ano muito seco e o sector do aquífero que está a alimentar as nascentes tem pouca capacidade de armazenamento».
As secas acontecem ciclicamente, tal como sucedeu nos anos de 2005 e 2009. «São fontes que no verão têm uma redução de caudal muito significativas, chegado quase a secar. A fonte alimenta os açudes que as pessoas usam para fins recreativos. Mas entre a fonte e as quedas do vigário, existe captações de água para consumo próprio. Estas contribuem ainda mais para reduzir o caudal no verão», argumentou.
Sobre o desvio da água para a rega do novo pomar, Paulo Cruz explica que «é legítimo que tenha secado ainda mais depressa devido a esta situação. É um fator agravante, porém, não é a causa de fundo. É a primeira vez que esta situação chega formalmente à APA e que gera este impacto», garante.
«A agricultura é uma atividade económica com interesse para a sociedade e há uma reivindicação do proprietário. Tudo isto está em análise».
Ainda assim garante que «nesta altura em que o caudal é tão baixo, que mesmo com a libertação de água a jusante, e a não utilização desta por parte do proprietário, isto não garante que a cascata volte a encher. No entanto, poderá comprometer-se toda uma produção agrícola».
Paulo Cruz explicou ainda que a água que está acumulada na fonte grande «pouco entra e pouco sai porque o caudal é pequeno. Se esvaziássemos os açudes, nunca mais voltariam a encher este verão. Mas como se vê muita água, e depois mais abaixo a lagoa seca, as pessoas pensam que se tira muita água», explica.
Cruz garante que «estamos empenhados em otimizar recursos e salvaguardar o interesse de todos. Temos as duas faces de duas moedas: não afetar os ecossistemas e ao mesmo tempo, a pretensão legítima de usar a água no suporte à agricultura e ao consumo humano».
Sílvia Martins, presidente da junta de freguesia de Alte, também se mostrou preocupada com a situação e disse ao «barlavento» que tem «recebido queixas por parte da população residente e visitantes» e que «estão a agir dentro das competências legais».
Queda do Vigário
A Queda do Vigário tem 24 metros de altura e terá sido originada pelo desvio do leito da ribeira, de uma zona mais a levante. O terreno envolvente foi adquirido a particulares, pela Câmara Municipal de Loulé em 2002, que mais tarde executou obras com vista à criação de acesso, uma zona de lazer, parque de merendas e um edifício de apoio. A Câmara Municipal de Loulé disse ainda ao «barlavento» que não está colocada de lado a hipótese da criação de uma praia fluvial neste local.
Degradação
Ao visitar o local o «barlavento» encontrou mais do que uma cascata seca. Por todo o lado há sinais de abandono e avançado estado de degradação. Desde vandalismo e decadência no edifício de apoio, um parque de merendas totalmente destruído ou ainda escadas de acesso perigosamente partidas. Ainda que a cascata estivesse em perfeito funcionamento, toda a área envolvente revela um péssimo estado de conservação. No fim de semana passado, enquanto a fonte grande apresentava um enorme número de veraneantes, a queda do vigário encontrava-se completamente vazia.