O presépio de Machado de Castro em Torres Novas

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Em Torres Novas temos a oportunidade de contemplar um significativo conjunto escultórico que, datado de entre finais do século XVIII e princípios do século XIX, nos revela a realidade dos presépios nacionais num período de grande difusão do género.
Referimo-nos ao presépio da Misericórdia torrejana, da autoria de Machado de Castro, e estudado por Paulo Renato Ermitão Gregório, trabalho que serve de fonte para o presente artigo.

O presépio foi pertença dos proprietários da Quinta de São Gião, Manuel Joaquim de Campos e sua esposa. Posteriormente, venderam-no a João Caetano Pereira, de Torres Novas, que mais tarde fez dele doação à irmandade da Misericórdia. Hoje encontra-se encerrado num armário propositadamente criado para o efeito, numa localização que não fere a estética do espaço barroco da igreja. Ocupando apenas a metade superior do nicho para ele criado, o presépio apresenta-se encaixado num espaço de forma cúbica. Todo o espaço cénico faz convergir as suas linhas de força na «gruta» onde se deu o nascimento de Cristo. A Natividade é assim o ponto de fuga para onde convergem todas as dinâmicas cenográficas deste presépio barroco. São quatro os núcleos em torno dos quais se articulam os diversos momentos narrativos.

O primeiro, que se situa em plano baixo e primeiro, é o do nascimento de Cristo. É a peça dinamizadora em torno do qual todo o cenário e respetiva ação são articulados.

Numa «gruta» emoldurada lateralmente por colunas do maior sabor clássico, com capitéis de feição coríntia, divisamos a cena da Natividade representada por pequenas figuras de barro policromadas, de feitura fina, reveladoras de mão hábil na sua moldagem e no alegre e vistoso jogo de cores vivas.

São maiores estas figuras que as restantes apresentadas. Foi a forma que o escultor encontrou para salientar a sua importância. Para além das figuras habituais – o menino Jesus, sua mãe, José, o carpinteiro, acompanhados dos animais do estábulo – encontramos no interior da «gruta» um grupo de anjos (a orquestra angélica).

O segundo núcleo é constituído pelos oferendantes e pelos pastores. E o terceiro pela caravana dos denominados Reis Magos, que segundo a tradição, seguiram a estrela para até junto do menino recém-nascido. O quarto núcleo mostra-nos uma faceta mais mundana do presépio, com rebanhos com seus pastores, e múltiplas cenas do quotidiano. No fundo, uma representação do quotidiano português de setecentos, de feição predominantemente rural. Finalmente, temos ainda apontamentos retirados da Bíblia, descontextualizados e incompletos. O presépio da Misericórdia torrejana encerra em si os principais elementos caracterizadores desta forma de expressão plástica e religiosa tão exemplificativa da nossa cultura de finais do século XVIII, princípios do século XIX.

Artigo do jornal «O Almonda» | Torres Novas

Edição partilhada especial de Natal

O «barlavento» aceitou o desafio que Marsílio Aguiar, diretor do «JM – Jornal da Madeira» lançou a um conjunto de títulos publicados de norte a sul de Portugal, Açores inclusive. Um projeto pioneiro e independente de partilha de histórias com objetivo de, em cada jornal regional, celebrar o Natal de todo o país. Participam na iniciativa os jornais «Aurora do Lima»; «Diário do Alentejo»; «Diário do Minho»; «Diário Insular»; «JM – Jornal da Madeira»; «MAIS/Semanário»; «Notícias da Covilhã»; «O Almonda»; «Região de Leiria».