O Menino mija?

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No Natal, é com esta expressão que os terceirenses convidam amigos e família a molhar a garganta com um licor da época, adoçar a boca com uma fatia de bolo e trocar dois dedos de conversa. Quando se cruzam na rua, o desejo de Boas Festas é quase sempre acompanhado da lembrança de que lá por casa. «o menino mija».

Segundo o padre Francisco Dolores, a tradição do «Menino Mija» remonta ao início do povoamento do arquipélago. Surgiu da necessidade de as pessoas, na altura muito dispersas, se encontrarem.

Na noite da consoada, visitavam familiares e vizinhos. Normalmente não saíam da freguesia. Iam a pé e descalços, ao cair da noite, acompanhados por instrumentos de cordas, para dar o tom às cantigas, e por lanternas, acesas com óleo de peixe-gato ou de baleia.

«Se o dono da casa demorava a oferecer um cálice de aniz ou um licor de amora, as visitas perguntavam: então o menino mija ou não mija?», justifica Francisco Dolores. «É uma expressão bonita. Significa: vamos molhar a palavra da conversa à volta do presépio», acrescenta.

As visitas estendiam-se, de acordo com o padre Dolores, até o dia 2 de janeiro, dia da Purificação. A mesa ficava sempre posta à espera de quem chegasse. Cada freguesia ou ilha tinha as suas tradições típicas, «conforme o que tinham à mão».

Na Terceira, o licor de leite e de tangerina (que surge no século XIX, no ciclo da laranja), as angelicas e as aguardentes de nêspera, na Terra Chã, e as queijadas da terra. No Pico, as aguardentes de nêveda, poejo e cidreira. Em Santa Maria, as cavacas e as sopas fritas (pão caseiro, molhado em ovos batidos e polvilhado, depois de frito, com açúcar e canela).

Com a primeira grande guerra, os açorianos tiveram de dar uso à imaginação. Foi nessa altura que surgiram, por exemplo, as favas torradas. A partir da segunda guerra, com a chegada dos americanos à Terceira e a Santa Maria, começaram a introduzir-se alguns hábitos importados.

Ana Maria Costa, proprietária da pastelaria «O Forno», no centro de Angra do Heroísmo, ainda mantém a tradição do tradicional «Bolo de Natal» da ilha Terceira. Ao contrário de outras regiões, os doces fritos são deixados para o Carnaval e o Bolo-Rei não é tradicional.

O Bolo de Natal, influenciado pela Rota das Índias, com especiarias, mel de cana e frutas cristalizadas, deve ser preparado com um mês de antecedência para ficar «mais saboroso».

O consumismo enfraqueceu, de certa forma, o espírito inerente à tradição do «Menino Mija», segundou Francisco Dolores, que ainda assim acredita que o convite peculiar que continua a ser feito pelos terceirenses significa «solidariedade, entreajuda e convívio».

Hoje, diz, as pessoas encontram-se menos. «O isolamento que a internet traz afasta-nos do convívio familiar». O padre deixa também um apelo aos políticos para que defendam a identidade e não deixem que as «imposições de Bruxelas» estraguem as tradições.

«Temos de cortar nas importações e valorizar o que as nossas mulheres e os nossos homens sabem fazer», sublinha. Se a região quiser explorar o turismo terá de valorizar os produtos regionais. «A restauração não pode abrir com bifes de Bruxelas e panquecas norte-americanas», defende. «Não matem os nossos sabores», remata.

Reportagem de Carina Barcelos | «Diário Insular» (Angra do Heroísmo)

Edição partilhada especial de Natal

O «barlavento» aceitou o desafio que Marsílio Aguiar, diretor do «JM – Jornal da Madeira» lançou a um conjunto de títulos publicados de norte a sul de Portugal, Açores inclusive. Um projeto pioneiro e independente de partilha de histórias com objetivo de, em cada jornal regional, celebrar o Natal de todo o país. Participam na iniciativa os jornais «Aurora do Lima»; «Diário do Alentejo»; «Diário do Minho»; «Diário Insular»; «JM – Jornal da Madeira»; «MAIS/Semanário»; «Notícias da Covilhã»; «O Almonda»; «Região de Leiria».