Noite de Natal é na rua à volta do Madeiro

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Se no resto do país a noite de Natal é passada em casa, nas Beiras, tal como acontece no concelho da Covilhã, as famílias saem à rua, após a consoada, para conviverem à volta do Madeiro, a fogueira gigante que tem gente ao redor até ser dia.

Cada terra tem a sua especificidade. Mas com mais ou menos metros de altura, feita de raízes de árvores ou troncos, sejam as juntas de freguesia ou a «malta do ano» quem vai buscar a lenha, acesa antes ou após a Missa do Galo, o Madeiro é sinónimo de Natal.

Embora na Covilhã o costume se tenha perdido e não seja atualmente, nem regular, nem espontâneo, em todas as freguesias a secular tradição está bem enraizada.

No Teixoso, bem próximo da cidade, sempre foram os rapazes que iam «às sortes» a quem competia fazer o Madeiro. Desde que a inspeção militar foi substituída pelo Dia da Defesa Nacional, as mulheres passaram a estar incluídas nos trabalhos.

Este ano, o grupo de 39 jovens começou a organizar-se em agosto. Os tempos livres das últimas semanas têm sido passados a recolher a madeira que encontram ou que lhes oferecem. Roubá-la sempre fez parte da tradição, o que já levou alguns à barra do tribunal. Por isso, tenta-se que a maioria seja cedida, «para evitar problemas», explica Paulo Eusébio, para quem é «um orgulho e uma responsabilidade fazer o Madeiro» que terá de ser «quanto maior, melhor», para o grupo não ficar mal visto na inevitável comparação que se faz sempre com os anos anteriores.

«No meu tempo ardia até ao ano novo», espicaça João Oliveira, de 67 anos, que na sua altura usou carros de bois para cumprir a tradição. Paulo Eusébio sublinha a expectativa anual da população até à semana do Natal, quando levam a lenha para a frente da igreja, em carrinhas, gruas e tratores. A base é feita com raízes, depois leva lenha miúda e galhos no meio e os troncos grossos por cima, enfeitado no final com rama.

Daniela Lourenço, 18 anos, mostra-se satisfeita por ter chegado sua vez de distribuir filhós e bebida à volta da fogueira, como toda a vida viu. «Não consigo imaginar o Natal sem o Madeiro», salienta.

Carlos Madaleno, investigador e coordenador do Museu de Arte Sacra da Covilhã, vinca que «o fogo foi sempre sacralizado». Neste caso, simboliza o nascimento da luz. «É uma tradição feita fora da Igreja, mas com profundo sentido religioso», sublinha.

José Dias, 70 anos, conta aquilo a que sempre assistiu em Teixoso, uma freguesia concelho da Covilhã. «No final da Missa do Galo, o padre vem até ao adro com uma tocha, acende os archotes dos rapazes que se posicionam à volta do Madeiro e, ao mesmo tempo, acendem o lume».

Aqui, apesar dos inevitáveis excessos durante a noite, sempre foi reprovável assar carne no Madeiro. «Não utilizam aquele fogo», realça Carlos Madaleno. A sul do concelho, o costume é o oposto, como sucede na vila do Paul. A fogueira, montada pela junta de freguesia e populares, é acesa horas antes da missa, para as pessoas se aquecerem quando chegam. Depois entoam-se músicas alusivas ao Natal. E há grupos a cantar as Janeiras, que mais tarde assam nas brasas as chouriças, morcelas e outros bens que lhes são dados.

«O Madeiro faz parte da minha identidade. A consoada é com a família, mas depois saímos à rua, vamos à missa, ao Madeiro. Continua a ser uma noite de convívio noite fora», conta Leonor Narciso, de 60 anos, que afirma sentir a responsabilidade de «incutir nos mais novos a tradição» que também lhe foi passada.

O investigador Carlos Madaleno destaca também o aspeto «agregador, de convívio social» deste costume. «Tem uma dimensão importante de unir as pessoas, de proporcionar a confraternização noite fora», enfatiza.

Texto de Ana Ribeiro Rodrigues | «Notícias da Covilhã» | [email protected]

Edição partilhada especial de Natal

O «barlavento» aceitou o desafio que Marsílio Aguiar, diretor do «JM – Jornal da Madeira» lançou a um conjunto de títulos publicados de norte a sul de Portugal, Açores inclusive. Um projeto pioneiro e independente de partilha de histórias com objetivo de, em cada jornal regional, celebrar o Natal de todo o país. Participam na iniciativa os jornais «Aurora do Lima»; «Diário do Alentejo»; «Diário do Minho»; «Diário Insular»; «JM – Jornal da Madeira»; «MAIS/Semanário»; «Notícias da Covilhã»; «O Almonda»; «Região de Leiria».