A Cova dos Ladrões vai fazer rir de nervosismo

  • Print Icon

«A Cova dos Ladrões» não tem ladrões no verdadeiro sentido da palavra. Tem adolescentes à procura de uma moral e de uma identidade sexual e tem também uma família que deixou de o ser há muito tempo.

Além disso, há um acontecimento que ensombra toda a ação: o homicídio de um transsexual. São estes os pontos de partida da nova peça que vai ser levada à cena pela Companhia de Teatro do Algarve (ACTA), e que estreou ontem no Centro Cultural António Aleixo, em Vila Real de Santo António.

O espetáculo, encenado por Paulo Moreira, acontece em dois planos dramatúrgicos e cenográficos diferentes – por um lado, o plano da família, passado dentro de casa.

Por outro, o plano da rua, onde adolescentes falam das suas experiências e erros que cometem. O elo de ligação é um rapaz, Bruno, filho do casal, e ele próprio membro do grupo de adolescentes.

A uma semana da estreia, o «barlavento» assistiu a um ensaio da peça e falou com Luís Campião, autor de «A Cova dos Ladrões», para quem a realidade inspirou a ficção.

«Houve um acontecimento que foi marcante para a construção do texto: o assassinato da Gisberta [transsexual espancado até à morte, por um grupo de jovens na cidade do Porto há quatro anos]. Eu vivia no Porto e frequentava a zona onde isso aconteceu. Foi algo que me tocou, um crime do qual eu estive próximo. Foi deixada num poço e eu estava a estacionar o carro ali ao lado, e impressionou-me um pouco».

Para o autor, «A Cova dos Ladrões» é uma peça que «tenta construir uma história, tentando dar o mínimo possível ao público, de forma a que ele construa a sua própria história. A minha ideia foi criar uma peça a partir de retalhos que fossem conjugados para criar não só uma história, mas várias».

Também por isso, Luís Campião considera que o seu texto «foi um desafio para o encenador, mas houve um trabalho de cooperação muito bom para descobrir “como é que isto se coloca em cena”?».

Apesar de o espetáculo já estar construído, para Paulo Moreira, houve margem para melhorar antes da estreia, até porque o elenco da peça é também constituído por alunos finalistas do curso profissional de Artes do Espectáculo da Escola Secundária Pinheiro e Rosa, de Faro, que estão menos habituados ao convívio com o público do que os atores residentes.

«Parte do elenco é composto por estagiários e estão um pouco assustados com este teatro mais a sério, e isto quer dizer que é preciso pôr as tripas cá fora. Este texto é hiperrealista e é preciso existir brutalidade».

Sobre a reação do público, o ensaio, que foi aberto à comunicação social, deu para tirar já algumas ilações. «Ficámos surpreendidos com risos nalgumas cenas. Já vimos tanta vez o texto que não nos apercebemos da brutalidade de algumas perguntas e respostas que aparecem no texto, e que o público vai reagir com risos de nervosismo», afirmou o encenador.

Renato Coimbra é um dos estagiários que vai subir ao palco em «A Cova dos Ladrões». O jovem ator considera que a experiência de representar com a ACTA é «muito gratificante. É completamente diferente do que estávamos habituados a fazer nas aulas. A maior dificuldade que temos é a de representar pessoas da nossa idade que não são nada parecidas connosco, mas isso é bom, pois dá-nos a motivação de fazer algo diferente e de vermos que, no final, não somos nós que estamos ali».