Ana Silva nasceu numa aldeia perdida na Beira Alta, já lá vão 64 anos. De muito nova, com seis anos de idade ou pouco mais, fazia bonecas para as irmãs poderem brincar. A arte já morava no seu corpo franzino e aprendia depressa tudo quanto a avó lhe ensinava.
Aos dez anos, levando na bagagem a quarta classe da instrução primária e o exame de admissão aos liceus, «fugiu» para Lisboa, indo viver com uma tia.
Durante a adolescência, trabalhava durante o dia num escritório «que detestava» e estudava à noite. Contou ao «barlavento» que, um dia, entrou na famosa loja de modas «Porfírios», viu um poster e ficou apaixonada pelo modelo. Tem grande dificuldade em recordar datas, mas deveria ter sido por volta de 1972, porque foi o ano em que o dito poster foi apresentado.
Pouco depois do 25 de Abril de 1974, rumou a Albufeira, que já conhecia das férias e onde «bastava colocar um pano no chão, no túnel de acesso à praia, nos dois lados da passagem, e fazia-se dinheiro. Na altura, trabalhava o metal, a tralha do artesanato andava sempre comigo, vivíamos em grupos que partilhavam as casas, para ficar mais barato».
Aí, conheceu o seu companheiro para a vida, o seu marido, Beto Kalulú. Mas a Ana conta: «foi-me apresentado e fiquei atónita a olhar para ele. Fui para casa e não dormi, a pensar nele. E nem sabia se era branco ou mulato, pois tivera vergonha de olhar para a cara dele. No dia seguinte, apareceu-me e eu nem sabia o que fazer. Ficou até hoje, já lá vão 41 anos. Casámos quando engravidei, porque o casamento dava algumas vantagens, nem recordo quais».
Mais tarde, viu uma cópia do poster dos «Porfírios» nas mãos dele, apercebeu-se de que era o modelo por quem se apaixonara antes e só conseguiu balbuciar: «Tu és este?».
Trocou Albufeira por Carvoeiro e a FATACIL foi a grande montra para as suas bonecas de pano, tendo criado o modelo «menina/avó», duas bonecas independentes numa só.
«Na altura, representavam as mulheres algarvias tradicionais, com lenço e chapéu. Mas são os turistas quem compra artesanato e não entendiam para que serviam esses adereços. Tive de adaptar. Mas já estou a perder a paciência com as bonecas. Começa a ser rotineiro, embora esteja agora na fase das fadistas. Tenho de encontrar alternativas».
O «barlavento» descobriu que, em determinada altura, Ana Silva se tinha dedicado ao macramé, executando obras de grande porte, como «um candelabro que se estendia do teto à altura do sofá, com uma base redonda a servir de mesa de apoio. Tinha uma lâmpada e o próprio cabo de ligação à tomada estava revestido a nó torcido, em toda a sua extensão». Mas disse-nos que não tem espaço disponível para este tipo de arte, pois os fios ocupam muito espaço.
A perda, há 12 anos, de um emprego onde esteve durante 20 anos e que era «a minha praia», criando molduras dentro de uma moldura, de modo a conjugar fotos diferentes num todo harmonioso, causou-lhe uma depressão de que não se consegue livrar e que a faz alternar entre momentos de grande inspiração artística e outros de quase letargia. Desse tempo, recorda um trabalho que fez para o Sir Cliff Richard, emoldurando em conjunto um disco de ouro e outro de prata. «Ele foi lá, porque lhe tinham dito que a «pequenina» era a pessoa indicada para fazer o trabalho. Quando recebeu o trabalho acabado, deslocou-se à loja, apertou-me a mão e disse que estava perfeito e como ele queria. Fiquei tão feliz!»