Physalis: um fruto com futuro

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Primeiro estranha-se. Mas nem por isso, entranha-se. De aspeto invulgar, embrulhado nas próprias folhas, a physalis é um fruto da família Solanaceae. Quer isto dizer, que na boca, vai buscar sabores e texturas próximas do tomate, mas com um gosto tropical, que não é, certamente, para todos os paladares.

Dinarte Pereira, 40 anos, um dos responsáveis da empresa «Medeiros e Caldeira» explica ao «barlavento» o porquê da aposta na fruta tropical e exótica.

«É uma cultura recente em Portugal. Tem um valor acrescentado muito grande. Neste momento está mais direcionada para o mercado gourmet», explica Dinarte Pereira, açoriano de São Miguel, que veio para o Algarve estudar Engenharia Biotecnológica e acabou por cá ficar.

O projeto começou há cerca de dois anos, com mais duas sócias, que tinham interesse em investir na agricultura. Começaram sem quaisquer apoios, «pois na altura as candidaturas ao PRODER estavam suspensas por falta de verbas». Foi um investimento de 35 mil euros, por conta própria.

Dinarte fez a maternidade das primeiras plantas, com sementes que ele próprio tratou e com outras adquiridas em Leiria, onde já existe produção comercial da physalis. Atualmente tem 3000 plantas, que ocupam 45 por cento do terreno, com cerca de um hectare, que consomem até 10 metros cúbicos de água do furo, distribuídas em duas regas diárias.

Em 2014 (ano zero), a nível nacional trabalhou com o grupo «Alisuper». Alguma produção escoou para a Alemanha. «Este ano consegui dois clientes, um Espanha e outro em França», que encomendam 10 a 20 quilos por semana da physalis algarvia. Chega ao destino muito fresca, em embalagens de 100 gramas. O rótulo indica fruta não-calibrada. Origem: Faro, Portugal.

«Quando avançámos para este produto fizemos uma abordagem ao mercado. Uma das sócias esteve na feira internacional de Berlim de frutas e legumes [Fruit Logistica] e fez alguns contactos». Alemães e holandeses «ficaram extremamente impressionados por haver produção na Europa, nomeadamente em Portugal, porque esta fruta chega-lhes importada da América do Sul, com custos bastante acrescidos a nível da logística».

A tabela normalizada para a comercialização em fresco da physalis ronda as três a quatro gramas de peso e 11 milímetros de diâmetro, como mínimos. Uma grande vantagem é a chamada shelf life, ou tempo de prateleira. Dura entre duas semanas a um mês, à temperatura ambiente. Em ambiente refrigerado, pode durar mais.

Contudo, Dinarte Pereira não esconde que esta cultura tem os seus desafios específicos. «Cada planta, durante o seu ciclo produtivo, que acontece praticamente ao longo de todo o ano, dá até dois quilos de fruta. Portanto 3000 plantas deveriam dar 6000 quilos. Ainda não consegui isso», confidência, porque há muitos aspetos técnicos a rever.

«Do primeiro para o segundo ano de produção, cada planta sofre um decréscimo de 20 a 30 por cento. Daí que, possivelmente, teremos que vir a produzir num sistema de semi-hidroponia, com as planta em vaso».

Esta «é uma cultura que requer algumas horas de sol», não em demasia. O pico do verão algarvio acaba por afetar negativamente a produtividade. Também a capacidade de embalamento da empresa é um aspeto a melhorar em breve.

«A physalis pode ainda ser comercializada desidratada, na forma de passas, que têm um valor acrescentado bastante grande e são muito procuradas no Norte da Europa», explica. Finalmente, há ainda o potencial para ser usada no fabrico de doces, compotas e sumos, tudo nichos ainda por explorar em Portugal.

«A physalis fresca é o nosso core business. Mas pretendemos variar. A próxima cultura a instalar, a partir de outubro, será o maracujá roxo. É um fruto bastante procurado, quer no estrangeiro, quer no mercado interno», conclui.

O associativismo como receita para o sucesso

Dinarte Pereira quer que mais agricultores do Algarve optem pela produção de physalis, aliás, ao exemplo do já acontece na zona centro de Portugal. Segundo nos conta, está a nascer uma nova associação nacional que «vai dar acompanhamento técnico» aos interessados. «Fiz uma prospeção de mercado e há potenciais clientes na Holanda, desde que se consiga garantir 200 a 300 quilos por semana. Sozinho, não consigo», admite. Mas com uma rede de parceiros locais, seria possível «concentrar» a oferta e conquistar os mercados do norte da Europa, onde a physalis tem mais procura e maior valor acrescentado. Por outro lado, Pereira considera que o associativismo é fundamental para resolver questões como a certificação Globalgap. «É um sistema normativo reconhecido internacionalmente, muito direcionado para a proteção do ambiente». Em Portugal «ainda não há produtos fitossanitários homologados para esta cultura, o que causa problemas na sua certificação» e escoamento para nichos mais exigentes. Finalmente, «os apoios ao investimento na agricultura hoje dão uma atenção muito grande ao associativismo. São majorados se o candidato estiver associado ao nível de cooperativas, agrupamentos ou organização de produtores».