Palmas Douradas leva a serra algarvia à alta costura

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Em São Brás de Alportel são criadas peças à base da empreita de palma respeitando a tradição da serra algarvia. O design sofisticado, os pequenos pormenores e os apliques dão o toque às peças que já desfilaram em grandes passerelles como a Moda Lisboa.

«A empreita de palma era considerada a matéria prima do pobre e eu gosto de pensar que o meu trabalho veio valorizá-la. No Algarve sempre se deu mais valor à cortiça, mas os meus avós eram da serra algarvia e lá em casa as únicas coisas de cortiça que existiam eram um cocharro e as colmeias. A palma foi uma grande indústria no Algarve e eu não sei como é que este saber passou a ser visto como algo de terceira. É um bem precioso que temos. Gosto de pensar que estou a conseguir mudar esse preconceito», começa por contar ao «barlavento» Maria João Gomes, 52 anos, filha de pais algarvios e criadora da marca Palmas Douradas.

A artesã nasceu em Oeiras, mas cedo emigrou para França com os pais. Aos 42 anos retornou a Portugal em busca de melhor qualidade de vida.

«Herdei uma casa em São Brás de Alportel e vim para aqui com os meus três filhos. Não gosto de estar sem fazer nada e como tenho jeito para as manualidades, comecei a aprender a técnica da empreita com a D. Cremilde, de Salir. Ensinou-me a técnica mais utilizada, a dos nove ramais. Comecei logo a fazer mandalas e peças mais originais. Coisas que não existiam. Tive tanto sucesso que se espalhou a palavra. Comecei a comercializar, tirei uma formação, registei a marca em 2015 e pedi a carta de artesão», relembra Maria João.

A grande mudança surgiu em 2016, quando foi contactada pela equipa do designer de moda Filipe Faísca.

«Tinha algumas peças expostas no restaurante Tertúlia Algarvia, em Faro. O designer estava à procura de alguém que trabalhasse a palma algarvia de forma legal. Um amigo dele foi jantar ao restaurante, deu-lhe o meu contacto e o Filipe veio de Lisboa só para ver a exposição. Depois conheceu a minha loja, fez um desenho rápido daquilo que queria e eu produzi. Mais tarde, no desfile foram utilizadas malas e chapéus feitos por mim».

Dois anos depois, em 2018, surgiu a segunda grande parceria. Desta vez por parte da equipa de Christian Louboutin, o designer francês famoso pelos seus sapatos de sola vermelha.

«Contactaram-me, vieram cá e estivemos muito tempo a ver as peças. Escolheram cerca de 40 e ainda me pediram um design único. Criei um entrançado de raiz só para eles, algo que não existia. Trabalhei mais de 18 horas por dia porque queria mostrar-lhes o meu melhor e algo especial. Estive com a equipa em Paris e adoraram o que criei. Decidimos então fazer uma mala de edição limitada com o meu novo aplique», relata a artesã.

Apesar das condições propostas pelos franceses não terem sido aceites pela profissional da palma, Maria João decidiu comercializar ela própria o novo aplique, revelado pela primeira vez e em exclusivo ao «barlavento».

«Hoje mostro pela primeira vez a técnica que inventei. Pode ser feito qualquer desenho com este aplique. Será colocado em malas de palma branqueada e terá o custo de 270 euros», afirma.

E o que distingue o trabalho da Maria João de outros artesãos algarvios que trabalham a palma? A resposta é dada pela própria: «o design e usar várias folhas de palma algarvia sobrepostas, como antigamente. A palma algarvia já não se trabalha porque se usa a importada», sobretudo de Marrocos.

«É muito bonita, mas não é nossa e retira o charme. Alinho o trabalho a um design sofisticado o que dá, a meu ver, um resultado perfeito. Depois junto os detalhes que dão alma às peças».

Um trabalho que é feito todo pela artesã. Desde a apanha, o tratamento, a ripagem, o entrançado e o branqueamento. «É um processo que leva cerca de 10 dias», revela.

No seu atelier, no Museu do Traje em São Brás de Alportel, assim como nas suas páginas de redes sociais pode-se encontrar um pouco de tudo: chapéus, malas, acessórios de decoração, cestas, tapetes e mandalas.

Segundo relata, o seu público-alvo são os estrangeiros. «O Algarve é o mercado mais complicado. É como vender areia no deserto. Fui muito criticada pelos preços das minhas peças. Ainda se olha para a palma como uma matéria prima fraca e que tem de ser barata, muito barata. As pessoas têm malas de marca, de plástico, que custam centenas de euros e já acham normal. Mas não acham normal comprar uma mala de palma, feita à mão, durante mais de 40 horas, que dura uma vida inteira, por 150 euros. Cada euro vale e as pessoas em vez de criticarem deveriam alegrar-se por estar a publicitar o Algarve e a valorizar a palma», diz.

Além do atelier em São Brás de Alportel, a Palmas Douradas vende ainda na loja parisiense Racine e na Portfolio em Lisboa. Neste momento, a marca encontra-se em negociação com uma loja em Marbella.

«Não vendo muito, mas vendo muito bem. Para mim fechou-se a porta de fazer centenas de peças porque não consigo. Por outro lado, abri a porta do luxo e cada artigo é único», explica a artesã.

«Tenho muito sucesso lá fora, no mundo da alta costura. Aparentemente até já passou um vídeo meu na televisão francesa. Há dias atrás tive um comentário muito positivo, no Facebook da marca, por parte da Ines de la Fressange [antiga modelo da Channel e designer de moda francesa]. É uma das mulheres mais bem vestidas do mundo. Fico realmente feliz», confidencia Maria João.

Para o futuro, ideias não faltam. «Pretendo ir ao México aprender a técnica local de entrelaçar. Depois gostava de conseguir plantar as minhas palmeiras para as produzir em série. Quero continuar a fazer o que gosto e a ter trabalhos com designers portugueses», relata. Apesar de não revelar quais as parcerias para breve, Maria João desvenda que o próximo passo é a participação no Prémio Nacional de Artesanato.

Uma tradição ensinada às crianças de Faro

A artesã Maria João Gomes, especialista na empreita da palma algarvia, em colaboração com o Museu Regional do Algarve, em Faro, realizou no ano letivo de 2018/2019 vários workshops para crianças do ensino primário do concelho.

«Todas as semanas ensinei às crianças a fazer a empreita. Todas as escolas do primeiro ciclo foram lá e recolhemos cerca de 30 metros de entrançado», relembra Maria João ao «barlavento».

Cada criança entrançou cerca de 10 centímetro de palma. A ideia agora é «coser tudo e fazer uma peça única, grande, e apresentá-la ao Museu», explica. Para Maria João, unir os mais novos a tradições antigas é algo «muito importante. Quando era pequena haviam esses trabalhos na escola, mesmo em França fazia trabalhos de costura. Agora as coisas estão mais voltadas para outros sentidos e estas iniciativas são boas para a tradição se manter. As crianças gostam de trabalhos manuais. Estive com mais de 300 crianças e não houve uma que não gostasse».

Falta apoio e reconhecimento à empreita de palma algarvia

Maria João Gomes nasceu em Oeiras, é filha de pais algarvios, mas cedo emigrou para França. Há 10 anos voltou a Portugal e escolheu São Brás de Alportel para viver. Começou a aprender a técnica da empreita e criou a sua marca: Palmas Douradas, instalada no Museu do Traje.

Apesar de já ter artigos seus a serem vendidos no mundo da alta costura, Maria João sente falta de apoio por parte do Estado, do município e até da região.

«O Estado e a autarquia deveriam apoiar mais. Sou a única artesã do Algarve, com marca registada, a usar a palma algarvia. Fico decepcionada com a falta de apoio. Eu não estudei cá, não tenho cá amigos, a minha família é muito pobre e parece que não tenho direito a nada. Sinto-me pouco apoiada pelo Algarve. Ao nível a que eu levei a empreita, deveria haver mais reconhecimento», afirma a artesã ao «barlavento».

Uma chamada de atenção ao uso das penas no mundo da moda

A marca são-brasense Palmas Douradas, criada por Maria João Gomes, destaca-se por comercializar malas, chapéus e artigos de decoração feitos apenas com palma algarvia.

A artesã prepara-se agora para lançar duas novidades. A primeira, em construção, promete ser uma espécie de bolero (um casaco curto) sem mangas, com fibra vegetal aliada a um design de alta costura. Além de ser a única peça de vestuário da marca, tem como objetivo chamar a atenção para a indústria da moda.

«Este ano, na alta costura é penas por todo o lado. As aves sofrem muito com todo o processo. Nos anos 1980 houve um grande movimento contra a utilização das peles na moda e agora o que se vê são penas. Uma boa alternativa é a palma desfiada e é por isso que estou a criar esta peça. Gostava que os designers vissem como fica bonito e como pode substituir as penas. Era uma ideia que podia começar em Portugal e eu tenho a certeza que rapidamente iria ser copiada no estrangeiro. Não há já necessidade e não se justifica utilizarem-se penas quando não faltam opções», explica Maria João ao «barlavento».

A juntar a esta novidade, a artesã apresenta, pela primeira vez e em exclusivo ao «barlavento», a sua recente criação: uma mala com um bolso secreto exterior para se guardar o telemóvel.

Segundo Maria João, «tenho várias malas com tampas, mas ao ler um estudo feito pelos Estados Unidos da América que dizia que uma pessoa, em média, pega no telemóvel de dois em dois minutos, apercebi-me das necessidades atuais. Na vida urbana, o telemóvel tem de estar rapidamente à disposição. Uma pessoa não quer levar mais que poucos segundos a abrir e a fechar a mala para alcançar o telemóvel. O que eu criei foi um bolso secreto na empreita, na parte de fora da mala, onde não é preciso abrir fechos. O telemóvel assim está sempre seguro e ao mesmo tempo sempre à disposição. Vou começar a fazer isto em todas as malas».