Novo Movimento quer salvar Centro de Experimentação Agrária de Tavira

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Grupo de cidadãos cria Movimento para defender a preservação do Centro de Experimentação Agrária (CEA) de Tavira e promete «utilizar todos os meios legais ao seu alcance para travar construção de estrada». Para já, avança um manifestação no dia 13 de março.

Ângela Rosa, Rosa Guedes, Rui Amores e Ótília Eusébio, entre outros cidadãos, «no seguimento dos inúmeros atropelos e violações sistemáticas do património paisagístico, arquitetónico, arqueológico e imaterial do Algarve ao longo dos últimos tempos, com particular destaque para a notícia recente do desmembramento do Centro de Experimentação Agrária (CEA) de Tavira», decidiram unir-se com o intuito de defender a preservação daquele património.

Este novo coletivo, intitulado Movimento de Cidadãos pela Defesa do CEA de Tavira, «pretende alertar, informar, formar opinião crítica e combater, por todos os meios legais ao seu alcance», o futuro projeto da construção de uma estrada de 20 metros de largura e 625 metros de comprimento ao longo do terreno do CEA de Tavira, inserido no projeto de eletrificação da linha férrea do Algarve.

O mesmo projeto, que contempla ainda a inclusão de dois cruzamentos perpendiculares abrindo precedente à edificação de uma futura malha urbana, «foi decidido à porta fechada, por entidades públicas e decisores políticos regionais e da administração central, sem que tivesse havido uma consulta transparente e a devida discussão pública», justifica o Movimento.

Assim sendo, e a partir de hoje, quinta-feira, 13 de fevereiro «esta, e outras decisões que lesem o património algarvio e a vontade dos seus cidadãos, vão contar com oposição cerrada», havendo já uma manifestação agendada para sexta-feira, dia 13 de março, às 17 horas, no terreno do CEA de Tavira, inserida na Marcha Climática Global (ver anexo).

Tavira, «com o patrocínio e a complacência do poder local, poderá em breve sofrer as consequências de um projeto desastroso para uma parte do seu território e da sua identidade, nomeadamente, da Dieta Mediterrânica, com a agravante de ser esta cidade uma das Comunidades Representativas, a nível mundial, deste património imaterial da UNESCO, e de ter o dever de o potenciar e preservar», lê-se na nota que o Movimento enviou às redações.

O que está em causa no CEA de Tavira? «Está em causa a desintegração de um campo agrário de experimentação científica, com uma coleção de fruteiras que o próprio Estudo de Impacto Ambiental (EIA) classifica como únicas, bem como a destruição dos seus cinco laboratórios».

«Está em causa a expropriação parcial de terrenos, que hoje pertencem ao CEA de Tavira, e a consequente fragmentação desta propriedade. Em suma, estão postos em causa o funcionamento prático e a viabilidade científica deste centro que, futuramente, se vê sujeito aos mais variados tipos de poluição e especulação», responde o coletivo.

Na verdade, «o próprio EIA refere os factos como eles são, ou então padece de um crónico cinismo. Se não vejamos, e passamos a citar: para melhor esclarecimento sobre os valores que serão afetados pelo projeto remete-se em anexo documento que caracteriza, por um lado, os ensaios realizados, evidência da sua importância», para depois correlacionar os estudos no CEA de Tavira com a «Dieta Mediterrânica».

«Ao lermos este documento, constatamos as inúmeras incongruências que enfermam este projeto. Acontece que, a somar aos impactes já referidos, se junta o facto inegável de este centro ter vindo a ser objeto de um desinvestimento e abandono continuados, descapitalizado de pessoas e de dinheiro. Assim, sucumbe e morre de uma morte lenta que vai culminar com a construção de uma estrada», refere o Movimento.

«A importância deste Centro é incomensurável, pois além de constituir-se como um reservatório de biodiversidade frutícola regional, leva a cabo estudos que, como o próprio EIA indica, estão relacionados com a Dieta Mediterrânica. Falamos de um espaço que desenvolveu pesquisas pioneiras e únicas no país no âmbito da agricultura biológica, e que acolheu durante décadas uma escola agrária», lê-se na nota.

«Não nos podemos esquecer da sua contribuição para o desenvolvimento experimental de práticas agrícolas que visam mitigar os impactos do aquecimento global, através de soluções ecológicas no âmbito do Plano Intermunicipal de Adpatação às Alterações Climáticas, numa altura em que este tema está na ordem do dia, das agendas mundiais».

Esta eletrificação da Linha do Algarve, no troço Faro – Vila Real de Santo António (VRSA), «há muito aguardada e que consideramos positiva e necessária, acaba assim por tornar-se particularmente dramática, pelas implicações que terá. Por isso questionamos: será que nada do que aqui é exposto fará com que as autoridades equacionem alternativas à destruição do CEA de Tavira?».

Se este projeto avançar como está previsto, «veremos certamente, e em breve, estes espaços serem urbanizados, assistiremos ao nascimento de um Hotel, de um terminal de transportes e, cereja no topo do bolo, a ironia de um centro da Dieta Mediterrânica, tudo, certamente, em prol do desenvolvimento».