Nova Cortiça insolvente termina legado familiar de três gerações

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Depois de um processo de layoff foi hoje afixado no portão principal da fábrica o edital de publicidade de insolvência da Nova Cortiça, Indústria Cortiçeira SA, em São Brás de Alportel.

A insolvência, requerida pelo credor Algebra Capital Lda e outros, foi declarada na sexta-feira, dia 13 de dezembro, por sentença do Tribunal Judicial da Comarca de Faro, Juízo de Comércio de Olhão, no âmbito do Processo 1286/19.2T8OLH.

A ordem judicial designa também o dia 11 de fevereiro de 2020, às 14h30, para a realização da reunião de assembleia de credores.

Em declarações ao barlavento, António Goulart, coordenador da União dos Sindicatos do Algarve, disse ter acompanhado «até há alguns meses atrás, o processo de degradação da empresa, que chegou a ser um dos expoentes do Algarve, na forma como a indústria tradicional se podia reconverter e ser capaz de enfrentar novos desafios».

A empresa, que chegou a empregar diretamente mais de 70 pessoas a tempo inteiro, especializou-se na produção de discos de cortiça para o fabrico de rolhas para champanhe. De São Brás de Alportel saíram encomendas para os fabricantes dos melhores espumantes do mundo.

No pico da atividade chegou a produzir 1,5 milhão de discos por dia. Como cada rolha leva dois discos, todos os dias 750 mil garrafas podiam ser seladas pela Nova Cortiça.

Nuno Gonçalves do Sindicato dos Trabalhadores da Cerâmica, Cimentos e Similares, Construção, Madeiras, Mármores e Cortiças do Sul e Regiões Autónomas, disse desconhecer mais pormenores sobre esta insolvência, já que aquela estrutura sindical não tinha associados entre os trabalhadores desde 2013.

Ao barlavento, Marlene Guerreiro, vice-presidente da Câmara Municipal de São Brás de Alportel, referiu que esta era uma empresa familiar que passou por várias gerações desde a fundação. Faz parte da história recente do concelho e de uma das suas principais atividades económicas, a fileira da cortiça.

A Nova Cortiça especializou-se em produzir discos para fazer rolhas de espumantes.

«Foi com profunda tristeza que recebi esta notícia. É uma grande perda para a economia do nosso concelho e da região», disse.

«Acho que nestas situações tão lamentáveis, nunca há um fator só» que possa explicar a falência.

«A Nova Cortiça foi altamente inovadora quando se especializou em fazer discos para rolhas de espumantes. Sabemos, no entanto, que com o tempo, alguns mercados importadores têm vindo a ser tentados a trocar as rolhas de cortiça pelo plástico e por outros sucedâneos, o que certamente constituiu uma crescente dificuldade à empresa».

«Creio que a crise terá também deixado as suas consequências, muitas vezes difíceis de recuperar, até porque vivemos anos em que pouco houve para celebrar e a venda de champanhe ressentiu-se», disse.

Também a aposta na marca Pelcor, que teve um enorme mediatismo e colocou a cortiça algarvia na ribalta internacional, terá sido um exigente desafio para a empresa de São Brás de Alportel.

«Gostaria, contudo, neste momento, de enaltecer todo o percurso da Nova Cortiça que deixou uma marca singular na história da economia são-brasense e que nos merece consideração e respeito», sublinhou.

Sandra Correia.
Sandra Correia, neta do fundador da Nova Cortiça e empreendedora da marca Pelcor.

A Nova Cortiça foi também muito inovadora ao abrir portas a visitas de turistas em pleno período de laboração, um nicho chamado turismo industrial, algo bastante inédito no Algarve.

Com esta vertente, chegou a receber 10 mil visitantes por ano e esteve no top das recomendações do site TripAdvisor para o Algarve.

Em média, durante o tempo que esta valência funcionou, a fábrica recebeu visitantes na faixa etária dos 30 aos 65 anos, vindos sobretudo da Alemanha e dos países escandinavos que queriam conhecer de perto um dos produtos mais característicos de Portugal.

«É uma pena», lamentou a autarca.

A Nova Cortiça contava com uma mão de obra altamente conhecedora e a melhor matéria-prima.

Para já, Marlene Guerreiro não teme um impacto social muito significativo porque «o processo foi gerido com algum tempo. A primeira vez que ouvi que isto poderia vir a acontecer, fiquei muito preocupada. Estamos a falar de largas dezenas de pessoas. Mas quero crer, e espero que, até porque o mercado de trabalho está a responder de outra forma», que a maior parte dos ex-funcionários e colaboradores da Nova Cortiça já tenham encontrado outras oportunidades de trabalho.

A entrada da Nova Cortiça ao final da tarde de hoje, sexta-feira, 20 de dezembro.

Consternada com esta situação, a autarca endereça aos proprietários da empresa e a todos os trabalhadores uma mensagem de solidariedade.

Apesar de até ao momento ninguém ter batido à porta da Câmara Municipal de São Brás de Alportel a solicitar apoio, «as pessoas não devem ter qualquer receio de acorrer aos serviços do município. Temos um gabinete de inserção profissional que presta apoio à população desempregada e que trabalha muito em proximidade e cooperação com os restantes serviços sociais» da autarquia.

«Estamos muito atentos e preocupados com esta situação. O município está disponível para apoiar quem precise», afirmou ao barlavento.

A autarca que acumula responsabilidades na área social e no empreendedorismo, sublinhou ainda que «tal como procuramos, com todo o empenho apoiar as novas empresas que nascem, também devemos manifestar sempre a nossa solidariedade para com aquelas que ultrapassam momentos difíceis e que têm que fechar portas».

«Acredito no potencial da nossa economia e no empreendedorismo da nossa comunidade, e por isso espero que 2020 nos reserve melhores notícias e nos traga novos desafios», concluiu.