Monchique vai ter programa de reordenamento florestal

  • Print Icon

Ministério do ambiente deverá apresentar o plano até final de maio, segundo apurou o «barlavento» durante a ação de reflorestação que levou 300 crianças a Monchique, numa iniciativa do Forum Algarve.

A chuva miudinha não arrefeceu o entusiasmo de cerca de 300 crianças, de várias escolas algarvias, que vieram replantar um terreno municipal, no início da subida para a Foia, na manha de sexta-feira, 10 de maio.

A iniciativa foi promovida pelo Forum Algarve, que no Natal de 2018 se associou à Câmara Municipal de Monchique e à Associação de Produtores Florestais do Barlavento Algarvio (ASPAFLOBAL) para avançar com um projeto de reflorestação no pós-incêndio. A pista de gelo que nessa quadra animou aquele centro comercial de Faro, permitiu angariar 38 mil euros.

Ao «barlavento» Sérgio Santos, diretor geral do Forum Algarve considerou o «dia marcante não só a nível da instituição, mas também como dos seus visitantes que permitiram fazer o arranque da reflorestação desta serra que é nossa, e é considerada o pulmão do Algarve. Mostra que todos podemos fazer um pequeno gesto, no sentido de contribuir e de tornar este planeta mais sustentável para as gerações futuras».

Emídio Vidigal, Miguel Freitas e Sérgio Santos

Na verdade, esta causa superou todas as expetativas da administração. «Em comparação aos anos anteriores, tivemos mais 21 por cento. Ou seja, as pessoas sensibilizaram-se», sublinhou, e a relação não termina aqui. «Eu diria que este é um primeiro passo para várias outras iniciativas que irão ocorrer, no sentido de promovermos o melhor que se faz nesta terra junto do nosso centro comercial, no sentido de exteriorizar todas as riquezas da Serra de Monchique perante todo o Algarve», prometeu Sérgio Santos.

Rui André, presidente da Câmara Municipal de Monchique, em declarações ao «barlavento», enalteceu o «grande exemplo da responsabilidade social. Monchique tem que agradecer, uma vez que o trabalho que há para fazer é enorme e temos todos de dar o exemplo».

Os trabalhos de reflorestação tiveram lugar junto à antiga serração, num local íngreme às portas da vila, embora não seja o único a receber este tipo de intervenção. «Este local não é único. Consegui cumprir esta minha decisão pós-incêndio que foi acabar com os eucaliptos nos terrenos do município e sobretudo aqui na envolvente da vila, porque era um fator de perigo e queremos também dar o exemplo para os particulares. Sempre fui um defensor que as espécies se forem ordenadas podem coexistir, pode existir a floresta autóctone, a floresta de produção, mas temos que ter em atenção que neste triângulo têm também de existir as pessoas, as suas atividades agrícolas e a sua pastorícia. Por isso, é no bom relacionamento entre estas três realidades que está a solução para este concelho», disse o autarca. Rui André revelou ainda que até ao final de maio, será apresentado um programa de reconfiguração florestal.

«Neste momento, uma empresa contratada pelo Ministério do Ambiente está a fazer o trabalho técnico. Estamos, já a pensar na fase seguinte, que é o modelo de governança e o de financiamento das ações. Para mim, é um ato de contrição do governo. Vir agora, ao fim destes anos todos, trazer as verdadeiras medidas de descriminação positiva, que deviam ter vindo quando os instrumentos de gestão territorial (IGT) foram criados. Infelizmente, e ao longo destes anos, esses instrumentos, em vez de ordenarem o território, desordenaram-no. Eram um obstáculo à fixação de pessoas ao desenvolvimento das suas atividades. Logo, este território ficou, praticamente, como uma zona de reserva».

O estado de espírito na vila? «Ainda estamos muito tristes. Estas ações animam-nos porque são crianças que vêm de todo o Algarve mostrar-nos que este não é problema só de Monchique, mas sim um problema do nosso país. Todos devemos ter uma palavra, todos devemos ter uma ação. O trabalho que há para fazer é enorme, nós estamos obviamente exaustos. Mas queremos continuar e percebemos que esta é uma janela de oportunidade que não se pode perder. Aconteceu o que aconteceu, foi uma catástrofe que assolou sobre o nosso território, mas agora, temos uma oportunidade de corrigirmos muita coisa e de fazermos com que no futuro, os nossos sucessores não tenham os mesmos problemas que nós estamos a ter».

O incêndio foi o maior ocorrido em 2018. Começou a 3 de agosto no sítio de Perna Negra, freguesia e concelho de Monchique, vindo a atingir o concelho de Silves, afetando uma área de 27154 hectares, e tendo sido dado como extinto apenas a 10 de agosto.

Miguel Freitas diz que é «tempo de sarar as feridas»

Para Miguel Freitas, secretário de Estado das Florestas e do Desenvolvimento Rural, este projeto do Forum Algarve «vem num bom momento. Aquilo que se passou em Monchique, em 2018, abriu feridas profundas, desânimo e estamos em tempo de começar a sarar as feridas e acima de tudo, olhar com esperança para o futuro». A iniciativa «vem mostrar que é importante proteger os aglomerados urbanos, com trabalho de gestão de combustível e de reocupação do território com espécies de crescimento lento autóctones. Podem ter arvoredo, desde que sejam espécies resilientes ao fogo».

Questionado sobre as conclusões do Relatório «Avaliação do Incêndio de Monchique», elaborado pelo Observatório Técnico Independente (OTI), e dado a conhecer na quinta-feira, 9 de maio, o governante considerou que «vem dizer e confirmar que a estratégia do governo está no bom sentido. Confirma que durante o incêndio foi muito importante ter terreno limpo à volta dos aglomerados urbanos. Mostra mesmo uma imagem da aldeia de Alferce, que estava confinada pelo fogo, e o facto de estar limpa à volta permitiu que não houvesse males maiores. Vem confirmar a importância das faixas de interrupção de combustível, dizendo que são muito importantes no momento do combate. Portanto aí, o Algarve tem planeados 1350 quilómetros de faixa de interrupção de combustível. Em 10 anos foram feitos 240 quilómetros. Isto é, entre 2006 e 2017 estavam feitos 240 quilómetros e entre 2018 e 2019 já fizemos 350 quilómetros. Neste momento, temos cerca de 600 quilómetros executados de faixas de interrupção de combustível», disse ao «barlavento».

Segundo o Secretário de Estado, ao nível das medidas de apoio aos agricultores, «há 199 projetos já contratados, no valor de 1,9 milhões de euros, que estão a ser pagos. Por outro lado, existem 31 candidaturas para reflorestação no bom sentido. A partir de outubro vamos executá-las».

E apesar de estar na tutela do Ministério do Ambiente, Miguel Freitas avançou que o programa de reordenamento florestal terá uma forte componente de espécies mais resilientes ao fogo. «O que posso dizer é que está a ser trabalhado entre o governo e a Câmara Municipal de Monchique o programa de alteração de paisagem. Vai no sentido de reforçarmos a componente de espécies de crescimento lento mais resilientes, melhores para a paisagem mas, acima de tudo, que protegem melhor as pessoas».

Ainda em relação ao projeto do Forum Algarve, Miguel Freitas notou que «é possível corrigir trajetórias. Significa não apenas limpar, mas plantar espécies de crescimento lento. Com aquilo que se passou e com aquilo que se vai concluindo com a tragédia de Monchique, é preciso continuar o esforço de proteger os aglomerados urbanos. Por outro lado, é preciso que cada uma das pessoas contribua para proteger a sua casa».

Valores unitários dos apoios são «insuficientes» considera Emídio Vidigal

Para Emídio Vidigal, dirigente da Associação de Produtores Florestais do Barlavento Algarvio (ASPAFLOBAL), esta iniciativa ajuda a criar nas «uma mentalidade diferente de proteção da floresta. Esta ação não é só de sensibilização, é também no terreno, uma vez que vai ser feita em várias propriedades em volta do perímetro urbano de Monchique. O combustível que foi daqui retirado, e a replantação com espécies mais resistes ao fogo, vão permitir que haja uma descontinuidade e por conseguinte, que o incêndio, se voltar a acontecer, pare ali. Isto terá que ser replicado em inúmeros lugares», disse ao «barlavento».

A seguir ao incêndio foram abertos dois tipos de candidaturas. Uma para estabelecimento do potencial produtivo e outra para as medidas de emergência. «Para estas últimas foram apresentados quatro projetos. Estão aprovados, mas dificilmente serão implementados porque as verbas não são convidativas a que os empreiteiros florestais possam intervir no terreno. Significa que o governo disponibilizou 4 milhões de euros, mas têm valores unitários para as operações que não se conseguem fazer no terreno. Ou seja, o dinheiro ao que parece existe, mas vai ficar sem execução», disse Emídio Vidigal ao «barlavento». «Foi aberto outro concurso para os proprietários florestais, foram entregues 31 candidaturas, foi um esforço enorme de divulgação para que se candidatassem. Mais uma vez, os valores unitários não são suficientes. Ficaram aquém. Mesmo assim, temos a confiança de alguns proprietários, eles vão com esforço financeiro, fazer suportar os custos».