Molhos de Paderne já picam nas línguas do mundo

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Família Cipriano semeia, confeciona, engarrafa e exporta produtos à base de malaguetas no interior do concelho de Albufeira. Marca «Algarve Peppers» já é saboreada além fronteiras.

«Nunca fui apreciador de picante e atualmente continuo a não ser. Trabalhava como consultor financeiro numa empresa de construção civil que foi à falência. Como a minha mãe já tinha algumas plantações, pensei que produzir malaguetas não seria difícil de concretizar. Comecei a fazer experiências, os amigos gostaram e assim surgiu a Algarve Peppers», começa por contar ao «barlavento», Cristiano Cipriano, 46 anos, de Albufeira e mentor da ideia.

Cristiano Cipriano, da Algarve Peppers
Cristiano Cipriano

A verdade é que desde então, Polónia, Alemanha, Inglaterra, Espanha e Macau já conhecem os mais picantes molhos algarvios. A marca prepara-se agora para entrar numa cadeia de distribuição, na Bélgica. Já na região, a «Algarve Peppers» pode ser encontrada em restaurantes, hotéis, mercearias, no Aeroporto de Faro, em todos os postos de turismo e nas lojas gourmet entre Lagos e Castro Marim.

A marca nasceu em 2015, e quatro anos depois e cerca de 40 variedades de malaguetas plantadas, tem agora uma linha de produtos que inclui mel, geleias, conservas, combinações de ervas aromáticas, flor de sal e molhos, todos eles com malagueta criada e produzida pela família.

Nestes últimos, há 10 variedades, com intensidades diferentes e com nomes peculiares algarvios. Assim, o mais fraco, feito com malagueta Jalapeño, denomina-se Cagufa e o mais forte, confecionado com malagueta Carolina Reaper e Bhut Jolokia dá pelo nome de Tén Avondo e é o mais vendido. «Enquanto vendemos 10 frascos do Tén Avondo, vendemos um dos outros», revela Cristiano.

Malaguetas secas da Algarve Peppers
Várias malaguetas desidratadas

Mas e como é que um não apreciador de picante confeciona uma gama tão vasta? Quem responde à questão é a responsável pelas receitas e pela preparação dos produtos, Sónia Cordeiro, professora de Educação Física e mulher de Cristiano.

«Quando o meu marido começou a plantar as malaguetas, experimentámos várias coisas. Pesquisei várias receitas e foi muito pela tentativa e erro. Deparei-me com combinações curiosas e comecei a adicionar frutas, especiarias e vegetais que achava que iam combinar bem com o picante. Aos poucos foram surgindo os nossos produtos», que combinam as malaguetas, por exemplo, com pêssego, gengibre ou cenoura.

Apesar da marca ser algarvia, Cristiano refere que o público que mais aprecia o picante são os estrangeiros. «O cliente estrangeiro adere com mais facilidade, talvez pelo nome da marca ser em inglês. Depois, apesar de produzirmos tudo cá, a verdade é que as malaguetas são de origem estrangeira. Os maiores apreciadores são os ingleses. Conhecem sempre o nome e as intensidades de cada uma».

Plantação da Algarve Peppers
Plantação da Algarve Peppers

Mas os portugueses também aderem bem ao picante. «Como os molhos têm nomes peculiares algarvios, as pessoas acham imensa piada e muitas vezes compram só pelo nome», afirma o gestor.

Quanto há concorrência, o casal refere que mesmo que existam várias marcas especializadas em produtos picantes, a «Algarve Peppers» vai sempre destacar-se por diversos motivos. «Os nossos produtos são caseiros, biológicos e algarvios. Usamos o vinagre para não adicionarmos conservantes. Além disso, os nossos molhos são mais concentrados, mais polposos e têm mais picante».

Isto porque, segundo revela Sónia, «a maioria dos molhos que há a venda no supermercado não têm quase malagueta nenhuma. O que costumam usar é extrato de capsaicina, um componente da pimenta. Já tivemos uma empresa que nos contactou a perguntar se estávamos interessados em comprar o extrato, mas nós recusámos. O nosso conceito só usa malagueta».

Molhos da Algarve Peppers
Molhos Algarve Peppers

Como o casal decidiu fazer a produção de ano a ano, sempre que acaba uma época, toda a plantação é colhida para ser semeada uma nova. Motivo que leva a que cada molho demore cerca de dois anos a ser aperfeiçoado.

«É um processo que leva muito tempo. Primeiro temos de produzir a malagueta para se fazerem experiências e testes. Depois temos de equilibrar sabores. Por fim, se for uma novidade, temos de registar o nome», conta Cristiano. Todavia, e como o último molho a ser lançado foi o Tén Avondo, em 2017, o casal pondera a hipótese de surgir uma nova receita «com uma malagueta que os ingleses pedem muito».

Para o mentor da marca, que gera 40 mil euros de faturação anual, o volume de trabalho tem-se intensificado, sendo que «24 horas já é pouco. Semear, colher, produzir e contactar clientes e produtores não é fácil». Contudo, o casal algarvio pretende continuar com o negócio no formato em que já existe.

«Já tivemos propostas de cadeias de supermercados como o Intermarché e o Apolónia, mas o nosso conceito não é esse porque, para quem produz a nível artesanal, não compensa. É um negócio que tem crescido, mas não temos intenção de expandir», conclui Cristiano.

Cagufa, Cagaice e Xaringado

A marca especializada em produtos picantes «Algarve Peppers» produz 10 variedades de molhos. Todos eles são cozinhados e preparados por Sónia Cordeiro, mulher de Cristiano Cipriano, mentor da marca.

Sónia explica ao «barlavento» as peculiaridades de cada uma das suas receitas, são classificadas de acordo com intensidade do picante, de 1 a 10 estrelas, uma espécie de Escala de Scoville (unidade usada para medir o grau de ardência ou pungência das malaguetas) simplificada.

Algarve Peppers de Paderne
Tén Avondo é o mais forte do catálogo

«O mais fraquinho é o Cagufa. Está classificado com quatro estrelas de intensidade, é de cor verde e é um molho muito aromático porque leva salsa, coentros e manjericão. Também com a mesma classificação está o Té-dieb. Leva manga e kiwi e por isso tem um sabor mais a citrino. Depois temos o Jsbugalhar já com cinco estrelas. Não leva frutas e não tem um sabor doce, por isso é considerado um molho normal. O Marafado é o preferido do Cristiano, tem seis estrelas e é confecionado com cebola e alho. Já com seis estrelas e meia temos o Malino que, é feito com uma malagueta cor de chocolate. Este tem um sabor muito diferente porque utilizo vinagre balsâmico. De seguida temos o meu preferido, o Cagaice. Tem sete estrelas, é feito com cenoura e pêssego e já tem uma intensidade mais superior aos anteriores que vai crescendo dentro da boca e pouco se sente ao início. Com as oito estrelas temos o Magana, que leva abacaxi. Depois temos um molho amarelo, que leva manjericão e gengibre, o Quêmoso. A malagueta que utilizo não é a mais forte mas, como combinei com o gengibre, o sabor fica muito intensificado. Por fim, temos os dois topos da lista, à base de cebola e alho, com malaguetas muito fortes e diversas especiarias. O Xaringado com nove estrelas e o Tén Avondo com 10, o último que lançámos e o mais vendido. A base de ambos é a malagueta Carolina Reaper, uma das mais potentes».

Cada unidade custa entre 3,50 e 5 euros. Há frascos de 40, 50 e 100 mililitros.

Fotografias: João Chambino @ Barlavento