Môce dum Cabrêste: «algarvios não exigem aos governantes»

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Dário Guerreiro, orgulhoso portimonense de 30 anos que faz rir no youtube e nos palcos de todo o país, comenta os resultados das eleições legislativas de 6 de outubro na perspetiva do algarvio. O Môce dum Cabrêste aborda os limites da liberdade de expressão na era das redes sociais.

barlavento: Ainda estamos no rescaldo das Legislativas. Os governantes só se lembram do Algarve nas férias e em vésperas de eleições?
Môce dum Cabrêste:
Acho que não se lembram. Mas isso tem uma justificação. Não lhes exigimos aquilo que devíamos exigir. A abstenção no Algarve foi de 54,17 por cento. Ou seja, mais de metade dos algarvios acha que votar é acessório e não vê qualquer tipo de esperança. Há pessoas que nem percebem o que foram fazer. Pensavam que estavam a votar no primeiro-Ministro, quando na realidade estavam a votar em nove deputados e alguns deles nem sequer são daqui. Essa é a afronta maior. Há quem não se informe nem tenha vontade de o fazer, como se a informação fosse algo inacessível. A abstenção resulta do desinteresse. É um problema de bases. O Algarve tem sido muito ostracizado, o Algarve é os Açores do continente. Ao Algarve tudo chega depois. A autoestrada chegou tarde e ainda nos cobram para andar numa via que não pode ser considerada tal. E pior, a A22 nem foi paga pelo Estado, mas por fundos comunitários. Apesar de tudo isto, as pessoas não se revoltam.

Como explica a elevada abstenção no Algarve?
Os algarvios desistiram de acreditar. O governo também tem responsabilidade pois não combate a abstenção. Numa altura em que já se podem fazer pagamentos por telemóvel, porque é que não se pode votar de forma eletrónica? No meu caso, porque estive num casamento no domingo, pedi voto antecipado. Mas para isso tive de me deslocar de Portimão para Faro. Não há uma aplicação, através da qual seja possível votar, e que disponibilize todas as propostas de cada partido. Entendo que as pessoas não devem votar por obrigação e entendo que, é muito perigoso, os cidadãos que não estão a par do sistema político português irem votar. Queremos que a democracia aconteça. Mas basta conversar com alguém na rua para perceber a ignorância que ainda persiste. Será que quero que estas pessoas votem? [risos] Se calhar, mais vale que tenham desinteresse…

A eleição do deputado do CHEGA! é motivo de apreensão?
É. Preocupa. Da mesma maneira que o PAN, há quatro anos, só tinha um deputado e hoje tem quatro, este partido pode fazer o mesmo. Tem um discurso absolutamente populista e, apesar de ser inócuo e inconsequente, ressoa nos ouvidos das pessoas que nada têm na cabeça. Infelizmente, esta é uma tendência a crescer na Europa. Portugal não é diferente. Em tudo o que são políticas sociais, o PAN não dá uma para a caixa e ainda assim conseguiram quadruplicar o número de deputados. Pensava mesmo que iam perder o André Silva.

O resultado eleitoral surpreendeu-o?
O resultado do PS já estava à espera. A nível nacional, o do CDS-PP foi melhor ainda do que pensava. Conseguiu eleger cinco deputados. Mas atenção, acho que é melhor termos um CDS-PP forte do que um CHEGA! forte. Acho que o voto nesta força e na Iniciativa Liberal cresceu porque o CDS perdeu força.

O que falta ao Algarve?
Faz falta investimento para que os efeitos da sazonalidade sejam, de facto, cada vez mais dissipados. Diria que uma das prioridades é a saúde e a existência de um Hospital Universitário que preveja o curso de Medicina, logo a partir dos 18 anos. O curso que existe cá, neste momento, é um curso triste. O Algarve tem de ter urgências de todas as especialidades. Tem de ter dois hospitais fortes, com muita diferenciação, porque a geografia da região assim o exige. A unificação do CHUA também devia acabar. Pode até não haver dinheiro, mas na saúde não podemos poupar. Falta também um novo paradigma na mobilidade, que a ferrovia seja eletrificada e duplicada. As estações dos comboios, como Albufeira e Loulé, devem ser relocalizadas porque não servem. Faz falta o desassoreamento do porto de Portimão para recebermos cruzeiros de grande porte. É urgente um paradigma diferente no mercado imobiliário. Mas para que tudo isto se concretize é preciso que os algarvios mudem o chip, que tenham mais orgulho na sua terra, nas suas raízes e que isso se reflita na forma como se movimentam socialmente, nos clubes que apoiam, nas tradições que insistem em preservar, e sobretudo nas pessoas que elegem. Diria que estes são os problemas estruturantes. O problema é que quando as pessoas são chamadas a votar, não fazem o que deviam.

Esse amor pelo Algarve está sempre presente no seu trabalho…
Sou algarvio, tenho razão para ter orgulho. Se fosse de Lisboa, se calhar estava caladinho [risos]. Cada vez sofre mais de gentrificação. Não decidi chamar o canal «Môce dum Câbreste» por ter medo de mostrar o meu nome, mas porque gosto muito da nossa cultura. Infelizmente, o país está cada vez mais rendido à uniformização. Nas televisões é tudo uniforme, e isso afasta este jogo de dialetos dos diferentes pontos do país. Tenho um sotaque carregado e não é por isso que não me entendem. Com os dialetos perpetua-se uma cultura incrível, histórias, lendas, expressões porque a cultura não é apenas monumentos. A maior prova de amor que posso dar ao Algarve é ainda não ter saído daqui. Às vezes, o Algarve pode ser um bocado ingrato com os seus. Temos uma série de limitações estruturais, infraestruturais e culturais e mesmo assim estou de pedra e cal aqui e não quero sair. Não há maior declaração de amor.

Sente-se valorizado pelo público algarvio?
Acho que sim. Nunca fui tão valorizado como agora, mas acho que é possível ser ainda mais. Sinto carinho, mas acho que em casa de ferreiros o espeto é de pau. Parece que só damos crédito aos nossos quando vão lá fora. Parece que não temos capacidade de avaliar quão bom são os nossos artistas e precisamos que os de fora o digam porque temos uma autoestima pequena. Fiz a estreia do «Vou Ficar», o meu segundo solo de stand-up em Portimão, porque queria começar em casa. Sinto que já não estou no apogeu do reconhecimento. Diria que é cíclico. Cada vez há mais concorrência e a bitola das pessoas já é diferente.

O humor, para si, tem limites? Ou as redes sociais estão a impor uma ditadura do «politicamente correto»?
Não há limites. Isso são as pessoas que os criam, para si mesmas, daquilo que não gostam de ouvir. Mas não podem boicotar, seja quem for, só porque não gostam de determinado assunto ou piada. Cada um tem os seus limites. Se as fações me derem na cabeça, por não gostarem de certa piada, gozo com as fações também. Isto acontece há imenso tempo, é milenar. As pessoas têm liberdade para não gostar das piadas, mas não têm liberdade para calar o indivíduo. Se sou mau comediante, as pessoas devem deixar de comprar bilhetes para os meus espetáculos, mas ninguém tem o direito de tentar impor o seu gosto aos outros. Quando um comediante diz algo absurdo, está a gozar, é só uma piada. Ele não acredita naquilo, não é a sua convicção. É entretenimento. Quem se indigna com isto, só está a chegar-se à frente e a admitir as suas limitações cognitivas.

Considera-se um comediante?
O facto de me considerar alguma coisa, não significa que o seja. Não dou muita importância a isso. O importante é o que as pessoas acham para si mesmas, é isso que me define perante elas. Acho que faço tanta coisa, que pode ser restritivo chamar-me só uma.

Mas em que se inspira para fazer humor?
Não há uma inspiração única. O que inspira a fazer humor é aquilo que a vida dá. Se a vida te dá um acidente e uma tragédia com um avião, fazemos piada com isso. Se te dá a política, idem. Tudo o que acontece na vida é a matéria-prima para o humor. Há comediantes que misturam mais ou menos a sua opinião na comédia. Outros que se abstêm de comentar certos assuntos, porque não têm nada para acrescentar de engraçado ou por razões ideológicas. De facto, existem esses fenómenos curiosos, em que os próprios comediantes não perceberem o humor. Mas a comédia, como tudo, é um espelho da sociedade.

Já que falámos de política, tem esperança no próximo ciclo governativo?
Não. Se fosse parecido ao que agora findou, não ficava insatisfeito. Mas acho que será pior.

O interior segundo Môçe dum Cabrêste

Dário Guerreiro, mais conhecido por Môçe dum Cabrêste, apresenta o espetáculo «Vou Ficar» no Teatro das Figuras, em Faro, no sábado, dia 19 de outubro, às 21h30. Em entrevista ao «barlavento», fala também sobre o novo projeto «O que é que se faz aqui?», uma série filmada de propósito para a plataforma YouTube.

«É um projeto de ficção que vai mostrar quezílias entre os personagens principais que, por acaso, falam em fazer documentários. É uma série para mostrar o interior do país. Começou no Algarve, em São Brás de Alportel, mas vai acabar na outra ponta do país. Quem viu disse-me que gostou. A ideia foi minha e tentei fazer um conceito que julgo inovador».

Por outro lado, o humorista disponibiliza de forma gratuita o livro «Tique Tal» no website e tem à venda um outro com o título «Borbotos do Pensamento».

O caminho do sucesso

Natural de Portimão, Dário Guerreiro tirou um curso profissional de cozinha no secundário. «Mas, ao estagiar na área, percebi que não era o que queria. Depois, comecei a estudar Ciências Documentais e Editoriais, na Faculdade de Ciências Humanas e Sociais da Universidade do Algarve, curso já extinto.

«O plano curricular era tão interessante e do meu agrado, que o quis fazer. Trabalhei em lojas, imobiliárias e restaurantes, até que apareceu a oportunidade de fazer um espetáculo de stand-up no Teatro Municipal de Portimão. Ingenuamente aceitei porque me pagavam 200 euros».

Mas antes, «comecei a fazer vídeos com uns amigos em 2006. Era um pretexto para nos encontrarmos. Até tínhamos um nome, Arranhí Pacanharra. Pensávamos que ninguém os ia ver. O YouTube nasceu em 2005. Só os publicávamos para usar o URL nos blogs, que era o que batia na altura. Depois cada um foi para a sua faculdade, em diferentes pontos do país, e o projeto acabou por finalizar em agosto de 2010, com uma exibição dos sketches ao vivo no Auditório da Ladeira do Vau, com entrada gratuita, que teve mais ou menos 50 pessoas. Ainda nesse ano, com o boom do YouTube, apareceu o meu canal a solo, Môce dum Câbreste».

O início do stand-up? «Quem está a iniciar essa atividade começa sempre por experimentar coisas pequenas. Por exemplo, uma atuação de cinco minutos, para ver se gosta, para ver se se sente à vontade em cima do palco. Eu não só não percebia nada de stand-up, como quem me convidou também não sabia ao que ia. E convidaram-me para fazer 50 minutos. Fiquei de pé atrás, achei muito, mas com o argumento dos 200 euros lá aceitei. Não dava para recusar. Fui e as pessoas não se foram todas embora, portanto até gostaram. Achei que era bom, mas os espetáculos seguintes foram uma chapada de realidade. Mas como gostei tanto da primeira vez, decidi investir mais na área. Isto foi em 2012, tinha dois anos de canal no YouTube, já com 23 anos de idade. Mas fazer vídeos e fazer um espetáculo ao vivo são coisas completamente diferentes», distingue.

Fazer rir, contudo, «foi algo que cresceu de forma gradual. Não era o mais engraçado da turma, mas por alguma razão comecei a debruçar-me muito na comédia. O resto da malta acabou por descobrir outras vocações. Eu descobri que não sou bom a fazer nada, pronto. Isto foi o esquema que arranjei para não trabalhar. O problema, foi quando descobri que tenho de trabalhar muito, porque se não o fizer não vou a lado nenhum».

Em relação aos trabalhos que gravou, «gostei muito da série de animação, os Troglodicas (2018). Foi a primeira vez que se fez uma série de desenhos animados, exclusivamente para o YouTube, 100 por cento nacional. Também gostei do Pesadelo na Casa de Banho (2017), que gravei com os Imperfecthus e do Sempre a Mesma Coisa (2019) que faz uma sátira aos noticiários nacionais».