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Na primeira entrevista que concede ao «barlavento», Luís Encarnação, novo autarca de Lagoa revela o que ambiciona para o seu concelho e o que se perspetiva em termos de investimento municipal e privado.

barlavento: Está confortável com as funções de presidente?
Luís Encarnação:
Sim. Sobretudo porque não é propriamente novo para mim. Desempenhei o cargo de vice-presidente e neste mandato fui partilhando com o presidente Francisco Martins vários dossiers que me permitem chegar a esta altura e estar, de alguma forma, confortável para poder assumir este lugar de responsabilidade. Sinto-me preparado para desempenhar e vou continuar a dar o meu melhor. É isso que os lagoenses podem contar da minha parte, com o meu total empenho, com a minha determinação para que Lagoa continue a crescer e a tornar-se um lugar cada vez melhor para viver, para trabalhar, para visitar ou para estudar.

Recordo-me que em 2013, o executivo disse que Lagoa iria ser um concelho de referência no Algarve. Está próximo desse objetivo?
Acho que Lagoa já é um concelho de referência no Algarve em várias áreas. Podia começar pela questão cultural. Somos reconhecidos por apresentar, ao longo do ano, um cartaz cultural com variados eventos. Muito do nosso público são os residentes dos concelhos limítrofes. Um pouco até de todo o Barlavento. Poderia dizer também que, em termos de aposta no desporto, Lagoa é uma referência a nível regional, e nalguns casos até nacional. Temos quatro modalidades estratégicas: badminton, andebol, canoagem e agora, mais recentemente, o basquetebol. A patinagem de velocidade e o atletismo são também modalidades em grande crescimento. Têm levado Lagoa aos quatro cantos do país com resultados. E somos uma referência na oferta turística. Temos 17 quilómetros de litoral de uma beleza fantástica. Claro, é uma costa cársica e isso traz alguns desafios.

Que balanço faz até agora e o que é que podemos esperar?
Vamos continuar a trabalhar o tema da cidade educadora, que no fundo, é o grande chapéu daquilo que queremos desenvolver noutras áreas. Começámos, no princípio deste mandato, com a cidade educadora e depois, ao longo do mandado, debaixo desse chapéu, em 2019, cidade inclusiva. Em 2020 o lema será Lagoa cidade sustentável, muito provavelmente. No fundo há uma continuidade clara. Em 2013 apresentámo-nos aos lagoenses com um projeto para mudar Lagoa, e é isso que temos vindo a fazer desde então. O Francisco Martins saiu pelas razões que são conhecidas, mas o meu compromisso e o da minha equipa é o de darmos continuidade a este trabalho de afirmar Lagoa como cidade ativa, sustentável e inteligente.

Que falta fazer?
Queremos cada vez cuidar melhor do nosso espaço público. Essa é a prioridade número um. Temos de ser melhores a recolher os resíduos sólidos e urbanos. E, em primeiro lugar, oferecer aos nossos munícipes e a quem nos visita uma sensação de qualidade. Temos de resolver a questão do estacionamento no nosso concelho, sobretudo nas zonas de maior impacto.

Refere-se ao constrangimentos de Benagil este verão?
Esses estão resolvidos dentro daquilo que é possível resolver. Também vamos avançar com estacionamento na Praia da Marinha. Mais do que essas duas zonas, onde a maior pressão é pontual, na época alta, temos Ferragudo e Carvoeiro. Dissemos que seria um processo a 10 ou 12 anos, portanto se não for neste, será no próximo mandato que conseguiremos resolver esta questão. Depois queremos continuar a melhorar as estruturas de prática de atividade física, para que possam ser utilizadas de forma gratuita e espontânea pela população. Queremos ainda criar dois grandes parques urbanos no concelho. Um na cidade Lagoa, o parque urbano onde está a FATACIL, em três fases: o novo picadeiro, a área desportiva e depois o núcleo central, criando ali um espaço apelativo para visitar.

Qual o ponto de situação desse projeto?
Estamos a trabalhar nas especialidades para podermos avançar. Se não for este ano ainda, no próximo ano avançaremos com a construção da primeira fase. Vamos construir o novo picadeiro com as áreas oficiais necessárias para poder receber o tipo de eventos equestres, como a dressage, a atrelagem e a equitação de trabalho. Acreditamos que será um equipamento extremamente importante. A ideia não é apenas servir a FATACIL durante os 10 dias em que decorre. É também receber eventos ao longo de todo o ano, dando um contributo importante para o turismo. Sobretudo na época baixa, ajudamos a combater a questão da sazonalidade porque este é um nicho com algum potencial.

E em termos de zonas verdes?
Temos outro parque urbano pensado para o Parchal. Esse está mais atrasado. Temos apenas um projeto, um esboço. Ficará nas traseiras do Pavilhão do Arade com cerca de 33 mil metros quadrados. É uma zona que faz um declive, uma ligeira inclinação. Um terreno municipal com pouco mais de três hectares. Temos ali espaço para construir uma zona verde com um circuito de manutenção.

Neste momento Lagoa também é apetecível para o investimento privado?
Sim. Ficamos muito contentes, eu e o executivo municipal, que Lagoa continue a ser procurada para as empresas que se pretendem instalar. Não só na área da hotelaria. Por exemplo, sabemos que em breve vai dar entrada na Câmara um projeto para a construção de dois campos de futebol e um hotel. Terão como objetivo captar estágios de equipas internacionais. Até agora tem sido o município a promover essa atividade, que é cada vez mais importante. No passado os estágios e as estadias das equipas de várias modalidades, que ficaram no concelho e que foram monitorizadas por nós, corresponderam a 27500 dormidas. Contribuíram com 1, 8 milhões de euros de forma direta para a economia local. Em 2019, ao final do mês de julho, já íamos com quase 1, 3 milhões de euros e muito perto das 20 mil dormidas. É sinal de que é uma aposta consistente e que está também a atrair o interesse dos privados. Vemos isso com uma enorme satisfação.

Essa aposta será em que zona?
Na União de Freguesias de Lagoa e Carvoeiro.

O edifício da Adega Única foi comprado por um privado estrangeiro. Já se sabe o que pretende fazer com o edifício?
De forma oficial não temos conhecimento. A Adega Cooperativa é um equipamento da arqueologia industrial do concelho de Lagoa. É muito acarinhado. O próprio edifício é um museu. A direção da Adega da Cooperativa Única vendeu, mas arrendou o espaço para continuar a produzir vinho de qualidade com referências medalhadas. A nossa perspetiva é acompanhar com muita atenção aquilo que pode ali surgir. Estaremos sempre disponíveis, uma vez mais, dentro daquilo que são os instrumentos de regulamentação do território, de poder ajudar a que a Adega não se torne numa ruína, nem num problema, mas sim algo que seja bem identificativo e ilustrativo daquilo que é esta ligação que Lagoa tem à produção vitivinícola. Aliás, tivemos também todo o cuidado, e o objetivo de, no fundo, com a rotunda que ali criámos, assinalar essa ligação que Lagoa tem à produção vitivinícola que não é uma atividade recente, é uma atividade com vestígios conhecidos de quase dois mil anos de produção no nosso território.

E em relação à contestação nas Alagoas Brancas…
Diria que é, de alguma forma, injusto o dedo ser apontado à Câmara. Quando cá chegámos o projeto já estava aprovado. Foi aprovado em 2008/09. Resulta de um plano de urbanização. Aquele plano teve todo um processo na altura. Foram ouvidas e escutadas todas as entidades que tinham de ser. Houve uma discussão pública e essa questão nunca foi levantada. Aquilo que o presidente Francisco disse, mantém-se, estamos cá para encontrar uma solução. Mas, tem de haver cedências. O que está aqui em causa são os direitos que o promotor tem. Se a Câmara, de forma unilateral, sem respaldo na lei, tomar uma posição de suspender os direitos do promotor, incorre na obrigação de o indemnizar. Estamos a falar, provavelmente, de muito dinheiro porque o promotor, se algo não correr bem, vai exigir os custos do projeto, os custos de oportunidade e os custos económicos. O Tribunal Fiscal e Administrativo de Loulé já deu um primeiro sinal de qual o entendimento que faz sobre esta matéria. Estamos disponíveis para ajudar a encontrar uma solução que possa, de alguma forma, compatibilizar a vida selvagem, a fauna que ali há, mas também encontrar uma solução para o promotor, salvaguardando a posição da Câmara, porque não podemos entrar num processo que nos venha obrigar a pagar.

E quando teremos uma Marina em Ferragudo?
Essa é uma boa pergunta, mas o município de Lagoa não lhe consegue responder. Se me perguntar qual é a opinião que o presidente e o executivo da Câmara têm sobre esse assunto, posso dizer-lhe que é uma obra de enorme importância para a vila de Ferragudo, para aquele diamante por lapidar. Pode ser muito importante para potenciar toda aquela zona. No fundo, estamos perante uma área sem qualquer tipo de beleza, com areias, completamente desaproveitada, com edifícios ao abandono…

Mas o que falta? Um investidor?
O processo é mais complicado. O investidor não avançou com as obras no tempo que devia e agora há uma deliberação pela Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional (CCDR) do Algarve que o promotor contestou e nós, autarquia, estamos apenas atentos. Vamos seguindo o processo porque esta não é ainda a fase de intervenção da autarquia. Só entraremos depois, quando estiver devidamente validado pela CCDR, para fazer os licenciamentos. Para já, estamos a aguardar para qual será o desfecho.

Mas o parecer da Câmara será sempre positivo?
Claro. É de extrema importância para aquela zona do concelho. Agora temos de respeitar as preocupações e as orientações que a CCDR coloca do ponto de vista ambiental, dos recursos hidrológicos. Salvaguardadas essas questões, estamos cá para dizer que temos todo o interesse.

Quando foi a última vez que se construiu aqui uma habitação municipal?
Estamos em fase de adquirir um terreno em Porches com uma área generosa. O objetivo é construir e colocar no mercado de arrendamento para atrair mais gente para a freguesia de Porches, onde temos cerca de dois mil residentes.

Quantos fogos?
Seguramente quase 200. Terá que ser sempre de baixa densidade até porque o nosso PDM a isso obriga. Mas o objetivo é isso mesmo, captar gente que venha viver para Lagoa para poder trabalhar.

Como está a saúde financeira da Câmara Municipal de Lagoa?
Está muito bem. Aliás, a nossa oposição até nos acusa de termos dinheiro no banco. Mas isso é bom sinal. É preferível ter dinheiro e projetos, do que não ter nem projetos, nem dinheiro. Ou então ter dinheiro e não saber o que fazer com ele. Os rankings que analisam estas questões dizem que temos uma saúde financeira, de facto, invejável e é assim que queremos que continue porque queremos fazer obra e queremos continuar a desenvolver o nosso concelho, mas de forma sustentável.

Mas isso é fruto já deste executivo?
Sim. Quando cá chegámos, em 2013, tínhamos uma dívida à banca de nove milhões de euros. Neste momento, a nossa dívida já não chega aos dois milhões. O município de Lagoa tem um prazo médio de pagamento inferior a três dias. Temos dinheiro e somos bons pagadores. Portanto é motivo para estarmos obviamente contentes, satisfeitos e orgulhosos desse trabalho que temos feito. Vamos continuar assim, procurando ser rigorosos na gestão daquilo que é a coisa pública e obviamente aplicando o dinheiro.

Será candidato às próximas autárquicas, o que é natural…
Sim. Já tive oportunidade de o dizer uma vez que entrei para este projeto, um projeto a 12 anos, em que o Francisco sai a meio, mas tenho o compromisso de dar continuidade. Obviamente que em 2021, se as minhas condições de saúde me permitirem continuar a contar com o apoio da minha família e se for essa a escolha dos socialistas de Lagoa, então eu serei candidato.

Uma grande aposta de Lagoa é novo Museu dos Movimentos Sociais e Políticos e da Cidadania. Qual o ponto de situação?
Vai agora entrar em velocidade cruzeiro a sua execução. No início de 2020 vamos apresentar o projeto museológico e a arquitetura. O compromisso que tenho dos meus técnicos é em janeiro de 2021, um ano depois, estarmos a inaugurar.

Vai ser construído de raiz?
Não. Vai aproveitar o edifício dos Antigos Paços do Concelho. Vai deixar de estar ocupado e os serviços vão para outro edifício. já estamos a lançar o procedimento.

Que me pode dizer sobre este projeto?
Não vai ser mais do mesmo. Será um Museu que vai contar a história de Lagoa e das pessoas que ajudaram a criar a cidadania de Lagoa. Vai ter a figura do Remexido, do general Rocha Vieira, do Hermínio da Palma Inácio. Ou seja, vai contar uma história de lagoenses que, à sua maneira, ajudaram a criar a cidadania do nosso território pelos atos que desenvolveram pelas ideias pelas quais lutaram, pelos contributos que deram até ao país.

Que tem a dizer aos seus munícipes estrangeiros?
Lagoa é e quer continuar a afirmar-se como um concelho e uma cidade cosmopolita. Aqui são todos muito bem-vindos. Lagoa é cidade inclusiva. Há lugar para todos, ninguém fica para traz. Nós consideramos os nossos residentes estrangeiros, que hoje correspondem a 12, 5 por cento do total da nossa população, como lagoenses de corpo inteiro.

Lagoa recupera dois barcos tradicionais

A Câmara Municipal de Lagoa adquiriu e recuperou dois barcos tradicionais de pesca. As embarcações à vela, de madeira, foram restauradas com todos os cuidados e estão em Ferragudo.

O autarca Luís Encarnação está orgulhoso por ter levado o projeto a bom porto. «Vão servir para pequenos passeios e atividades no âmbito dos roteiros do património. Simbolizam a ligação ancestral que o concelho tem com o Rio Arade e com a pesca artesanal, uma atividade que chegou a ter grande importância. São uma herança viva da nossa cultura», referiu. A apresentação oficial será agendada em breve.

Obra inédita do casal Almeida d’Eça nos ENFOLA 2020

Depois da grande exposição da obra de Artur Pastor em 2015 e de mostrar a fotografia inédita de Tim Motion, em 2017, britânico que viveu na Praia do Carvoeiro entre 1962 e 1975, os Encontros de Fotografia de Lagoa (ENFOLA) prometem voltar a surpreender na edição de 2020. Segundo Luís Encarnação, presidente da Câmara Municipal de Lagoa, «este é um projeto que veio para ficar. Na verdade, acabámos de assinar um protocolo com o município de Tomar para podermos ter acesso ao acervo do casal Almeida d’Eça, que fotografou muito o Algarve» nos anos 1950 e 1960. O protocolo envolve também a Universidade do Algarve e tem por objetivo produzir um grande exposição no próximo ano.

FATACIL celebrou 40 anos com novo recorde

O autarca Luís Encarnação não esconde a sua satisfação pela adesão entusiástica do público e dos expositores à 40ª edição da Feira de Artesanato, Turismo, Agricultura, Comércio e Indústria de Lagoa (FATACIL), que este ano decorreu de 16 a 25 de agosto. «Tivemos mais de 195 mil visitantes e pela primeira vez faltou muito pouco para atingirmos os 500 mil euros de receita só na bilheteira, o que é um feito impressionante», disse ao «barlavento». «Não tivemos um único problema de segurança, o acesso à feira foi com um tempo de espera no máximo de oito minutos e conseguimos reduzir as filas da EN125». No final, a autarquia ainda recebeu o feedback positivo dos expositores. O evento também não esqueceu o mais novos. «Lançámos a tenda tecnológica e correu muito bem, sempre cheia. Tivemos videojogos e youtubers a darem autógrafos. Estes miúdos são os visitantes de amanhã».