Irmãos downhill querem saltar da serra algarvia para os trilhos austríacos

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Algures na fronteira entre as serras de Espinhaço de Cão e Monchique, o «barlavento» encontrou dois futuros atletas de BTT que, apesar da juventude, já dão provas de grande perícia. Em Portugal a idade ainda não lhes permite competir, por isso querem ir à Áustria mostrar o que valem.

Nui Tai e Ayun, de 9 e 12 anos, são dois irmãos que, como tantos outros miúdos desta idade, têm sonhos para realizar. Um deles está a cerca de 2500 quilómetros de distância.

Querem participar numa prova de downhill, modalidade de BTT que consiste em descer o mais rápido possível um determinado percurso com diversas irregularidades e obstáculos.

Como em Portugal só podem competir a partir dos 15 anos, os jovens gostavam de se estrear na International Rookies Championships 2019, que decorrerá na Áustria, em Serfaus-Fiss-Ladis, nos dias 2, 3 e 4 de agosto.

No final de março a família lançou uma campanha de financiamento coletivo (crowdfunding) com o objetivo de recolher fundos para a viagem.

Está disponível na plataforma gofundme.com, onde a dupla se apresenta com o nome downhill brothers. Segundo Miguel Trindade, pai dos pequenos atletas, que encoraja a «aventura austríaca», a adesão tem superado as expetativas.

Mas esta é uma história que começou muito mais cedo. Nui Tai e Ayun foram habituados pelos pais a gostar do contacto intenso com a natureza. As bicicletas foram uma boa estratégia para que tirassem melhor partido da vida no interior do concelho de Aljezur.

Há cerca de dois anos, contudo, a brincadeira tornou-se mais séria. Os dois irmãos descobriram uns vídeos radicais que lhes despertaram um gostinho pela adrenalina, que só o downhill proporciona.

Foi então que entrou em cena João Estevão, praticante inveterado, atleta consagrado e treinador com provas dadas, conhecido no meio como «João Alemão» ou «Pirata».

A pessoa certa para lhes indicar os truques e o caminho a seguir nesta vertente radical do BTT.

Ao «barlavento» o «Pirata» sublinha que simpatizou «com estes miúdos muito boa onda logo desde o início», quando se conheceram em Barão de São João.

Na altura, «tinham um par de bicicletas baratas, daquelas muito simples», mas mesmo assim «evoluíram muito positivamente» e integraram a Wildpack, uma Associação Desportiva que João Estevão integra.

Transformaram-se nos Downhill Brothers, treinando saltos numa pista artesanal construída no terreno da família, no ermo lugar de Moinho do Bispo.

Se conseguirem angariar os 3000 euros para a viagem, por estrada, até à Áustria, Ayun irá competir na Classe ‘Boys U15’ e Nui Tai na «Maxi Kids» da «Five Ten Kids Cup». O desafio será enorme para ambos, porque se trata da primeira competição a sério.

Em Portugal, a Federação Portuguesa de Ciclismo impõe limitações de idade nas competições de downhill e apenas quando tiverem 15 anos de idade Nui Tai e Ayun podem começar a competir integrando a categoria de Cadetes. Apesar de terem nascido na América Latina, Nui Tai (Costa Rica) e Ayun (Argentina) são ambos de nacionalidade portuguesa.

Miguel Trindade, pai destes jovens radicais, concorda que esta vertente do BTT comporta alguns riscos, mas «em todos os desportos os miúdos podem contrair lesões e, no entanto, há muitos exemplos de modalidades que não limitam a participação das crianças».

Miguel Trindade com os filhos Nui Tai e Ayun, de 9 e 12 anos.

Ele é, na verdade, um dos grandes apoios destes desportistas de palmo e meio, «com todo o incentivo que lhes transmite e o trabalho excelente que vai desenvolvendo», garantiu João «Pirata», que ainda acrescenta: «Tornei-me amigo deles e, após andar no mundo do downhill há tantos anos, é gratificante poder dar algo de volta».

Serfaus-Fiss-Ladis é uma daquelas localidades onde se pratica ski no inverno e BTT no verão. O dinheiro servirá para pagar a deslocação, a estadia e as inscrições nas competições.

Viajarão numa carrinha onde terão de caber os quatro, mais as bicicletas, equipamentos, ferramentas, peças suplentes, pneus e material de campismo. «É o básico para irmos, sem qualquer conforto especial», explica Miguel Trindade.

O plano é partir no dia 20 de julho, parar num bikepark em Andorra para treinar, e chegar com alguma antecedência ao destino, de forma a conhecer bem as descidas onde se disputará a International Rookies Championships 2019.

Quando o «barlavento» conversou com Miguel Trindade já se tinham atingido os 2486 euros, resultantes de 68 contribuições, de familiares, amigos, «mas não só. E por vezes com donativos simpáticos».

Além da campanha, os mentores da aventura estão a tentar outras possibilidades. «Já contactámos a Câmara Municipal de Aljezur e vamos reunir em breve». Quando a verba for atingida, a campanha continuará.

«Temos o pacote base, mas se conseguirmos um pouco mais talvez consigamos trocar uma noite de campismo por um alojamento, dando maior conforto à comitiva».

Como nos diz Ayun, entusiasmado, «até onde eu possa ir vou, não coloco limites». Um pouco como nos saltos, onde o céu é o limite para a sua coragem. Nui Tai sorri e já se imagina na Áustria.

No fim da conversa chega a mãe das crianças. Tiffy, argentina de nascimento. Entre risos, dá-nos a deixa que norteia a vida dos filhos.

«Às vezes fico surpreendida com alguns saltos, viro a cara, prefiro não ver. Depois, quando me mostram os vídeos, parece-me tudo mais suave, e já me entusiasmo muito. Mas proibir? Nunca. Eles são felizes nas bicicletas, e isso é o que me importa».

Pais encaram o risco desportivo com naturalidade

O downhill é um desporto com alguns riscos. Afinal de contas, trata-se de manobrar a bicicleta em saltos de alturas desafiantes que exigem técnica, concentração e tolerância zero ao erro.

Aos saltos, junta-se uma condução a elevada velocidade, em trilhos sinuosos de montanha. A precisão e o controlo total da máquina são a alma da modalidade que, sob uma imagem de uma certa irreverência, é na verdade, disputada por atletas de grande destreza.

Miguel Trindade, pai de Nui Tai e de Ayun, tem consciência dos perigos mas não se deixa intimidar. Considerando-se um homem «nada fatalista» e confiante «no lado positivo da vida», acrescenta que em cima das bicicletas, os seus filhos «estão mais concentrados que nunca, o que me agrada. Eu só posso ser feliz quando tenho dois filhos a fazer o que mais gostam. Eles estão felizes a pedalar e a saltar».

No entanto, deixa escapar uma confidência. «Eu ando com eles várias vezes, até consigo fazer uns saltos, mas há outros que não tenho coragem».

Equilíbrio entre tecnologia e desporto

Pergunte-se a qualquer pai (ou mãe) sobre o tempo que as gerações mais novas gastam com as novas tecnologias.

Miguel Trindade diz nunca ter «proibido o acesso do Nui Tai e do Ayun» aos tablets e smartphones, e, ao invés, preferiu equilibrar o tempo das crianças também com outras atividades.

Admite que viver no campo ajuda, pois «estimulou o lado mais explorador e aventureiro» dos filhos.

Mas Ayun, de 12 anos, descobriu, devido ao interesse pelo downhill, o gosto pela edição de vídeo.

«É ele que edita alguns dos filmes que publicamos no nosso canal de youtube. É uma aptidão que lhe pode ser muito útil no futuro».

Algarve é «ideal» para a prática do downhill

«Tempo nem muito quente, nem muito frio». É assim que Nui Tai e Ayun descrevem as condições ideais para a prática do downhill.

E Ayun detalha: «no verão é mais difícil, porque está muito calor, por vezes apetece dar um mergulho na praia, mas nada me tira o foco do treino!».

Mas, findos esses meses mais quentes, «este é o sítio ideal».

O jovem, contudo, não tem dúvidas. «Prefiro o frio, porque acabamos por aquecer a pedalar». A chuva, essa, é inimiga.

«Tira-nos a visão e, sem óculos, acabamos por ter de confiar na sorte porque não vemos quase nada».

Já o vento, é «tramado», pois «ao bater nas rodas, durante um salto, pode provocar uma queda na aterragem».

O calor demasiado seco também tem uma desvantagem. «Esfarela as pistas, que começam a levantar muita poeira», conclui Miguel Trindade.

Fotografias – João Chambino @ Barlavento