IPMA: Algarve vai precisar «de todas as medidas» para travar a seca

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Miguel Miranda, presidente do Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA) diz que seca em fevereiro no Algarve é praticamente uma novidade e que a região vai precisar de «todas as medidas» para mitigar a falta de água, hoje e no futuro próximo.

A situação de seca que hoje acontece no Algarve deixa Miguel Miranda, presidente do Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA) admirado.

«Estamos a meio do inverno que até foi razoavelmente chuvoso no norte e no centro de Portugal e o Algarve ainda está em seca. No ponto em que nós estamos, eu diria que isto é praticamente uma novidade. Até no Alentejo choveu. Tivemos inundações graves no centro do país e as bacias hidrográficas quase todas com excesso de água que foi preciso escoar. Neste momento, algumas já escoaram para poderem receber mais chuva. Mas aqui no Algarve estamos ainda numa situação de seca quase em fevereiro», comparou.

O responsável pelo IPMA falou com os jornalistas à margem da cerimónia de abertura dos trabalho do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), organismo da ONU que reúne na Universidade do Algarve, em Faro, mais de 250 especialistas em alterações climáticas vindos de 60 países.

No uso da palavra, Miguel Miranda usou uma metáfora e disse que hoje «todos os sinos (de alarme) estão a tocar». O Algarve é a prova disso.

«Começamos a ter situações para as quais não estamos ainda totalmente preparados. Vai ser preciso colocar no terreno soluções que não se constroem instantaneamente», disse.

O responsável do IPMA explicou que «é muito difícil perante um fenómeno muito especial, dizermos que o mesmo é resultado da alteração climática. A alteração climática é uma estatística. E à medida que o tempo passa, vamos vendo as variações. Mas é verdade que todos os modelos apontavam para um aumento de seca nas latitudes em que Portugal se encontra, mais em particular as regiões do sul».

«Esses resultados estão-se hoje a obter. São capazes de reproduzir o que se passa na realidade, apesar de a precipitação ser o mais difícil dos parâmetros que os meteorologistas são capazes de prever», disse.

Miranda revelou-se preocupado. «Penso que se começarmos um novo ciclo de seca, com uma situação de deficiência de água logo à partida, vamos ter, como foi dito e bem, pelo presidente da Câmara de Faro, necessidade de um entendimento entre todos aqueles que são capazes de atuar», disse.

Questionado sobre se faz sentido fazer novas barragens, o presidente do IPMA, «diz que todas as medidas vão ser necessárias. E quanto mais tarde forem feitas, mais dramáticas serão».

«Todas as medidas vão ser necessárias para alimentar a população, para fazer chegar água à todas as atividades humanas que dela necessitam. E vai haver, provavelmente, alguma gestão mais rigorosa nas regiões com menores recursos hídricos, seguramente que vai», disse ainda o geofísico.

«Amanhã, o Algarve não vai ser um deserto. Não vai. Não é possível. Existe variabilidade climática suficiente para que isso não se verifique. A questão é: se daqui por décadas vamos ter um clima mais seco? É verdade. Vamos ter um clima mais seco nesta latitude», explicou.

«Ainda por cima, isso é quase uma infelicidade, porque a mudança climática e o aumento da temperatura, em geral, na Terra, vão se traduzir num aumento da precipitação. Menos nas latitudes em que nos encontramos», previu.

«A previsão da mudança climática é muito complexa. Não é toda ao mesmo tempo, nem muda tudo da mesma maneira. Não é o clima africano a subir para a Península Ibérica, não é nada disso. É mudarmos o padrão climático do mundo», esclareceu.

Em relação aos sinais de alarme, «penso que é difícil encontrar um sino mais gritante do que os fogos florestais na Austrália. É importante perceber que quem os terminou foi a chuva, não foi a ação humana. Já tinha acontecido uma algo semelhante na Califórnia. Estas situações, quer queiramos ou não, vão-se repetir. Daí a dificuldade em manter a calma e dar uma mensagem racional que as pessoas entendam que não se está a exagerar, mas que se está a ser realista».

«À nossa volta, os sinos estão a tocar em toda a parte e temos de ser capazes de os ouvir. A perceção que todos temos que o mundo está diferente tem de nos levar a sermos capazes de atuar, também, com maior rapidez», concluiu.