Há sempre inquietações, inquietações… interpretações

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1) Naquele restaurante da minha aldeia, ao domingo, só entram casais idosos em busca do prato do dia, o cozido à portuguesa. Nesse dia, temos uma noção concreta de como a população vai envelhecendo, ao seu ritmo.

Vemos rosto suaves, lentos, gente com tempo para ocupar a mesa e conversar uns com os outros. Saboreiam a comida, saboreiam a vida. A estatística demonstra, na sua frieza, que o país está a envelhecer, não só na minha aldeia como no resto do país.

Somos um país de cabelos brancos. Mas, outro dia, o bom do Fernando esclareceu-me que o seu restaurante deixara de incluir na ementa o cozido: os idosos consomem menos e o pessoal do restaurante estava farto de comer, às segundas-feiras, o cozido que restava do dia anterior.

2) O Portugal de idade avançada não se limita às pessoas, mas abrange os costumes, as ideias e os problemas. É, por exemplo, longa a lista de situações em que um texto escrito é lido, reescrito e interpretado por certos leitores, conforme as suas angústias existenciais reveladoras de algum desgaste mental. Veja-se um caso concreto em que tive o privilégio de ser sujeito desse processo.

Na minha última crónica, neste jornal, abordei a questão de alguns sinais que o mundo vai dando e que, em minha opinião, traduzem motivos de esperança no futuro.

Num primeiro momento, referia as leituras de férias da senhora MerKel como um sinal positivo. Num segundo momento, narrava a história de uma pena branca numa turma do primeiro ciclo do Ensino Básico, e como isso me parecia metáfora de uma educação para a sensibilidade e os afetos.

Mas, num terceiro momento, elenquei alguns sinais de como o mundo está a funcionar em sentido contrário.

A versão inicial rezava assim: «… o mundo acontece no seu habitual ritmo sobressaltado, com guerras na Síria e em Israel, com o regresso das mortíferas manifestações na América Latina, com o acordo desacordado do Brexit, com os insultos inaceitáveis a deputadas no parlamento português, as primeiras de raça negra».

Seguia-se um novo parágrafo, a concluir, onde exprimia a esperança de que «Não deve faltar muito para que tudo mude para melhor outra vez».

3) O texto ficou, entretanto, a marinar no computador, até que, alguns dias depois, e dada a atualidade do momento, juntei, ao elenco citado, a história da demolição de um edifício sobranceiro à conhecida praia da nossa região.

Acontece que não reli o texto na sua nova versão. Nem atentei na hipótese de que o parágrafo final poderia ter um sentido político imediato, não previsto, para o leitor local, caso estivesse disposto a ligar o seu sentido apenas às frases referentes à história local, posteriormente acrescentadas.

E assim seguiu o texto para o jornal. O telefonema óbvio surgiu três dias depois: a nomenclatura do Partido, alarmada, relia o texto como o manifesto de uma intenção política pessoal, direcionada para as próximas autárquicas. Maior patetice absurda não ouvia há muito.

3.1) A quem não reparou, ainda, que o cozido já não consta da minha ementa, aconselho a leitura de «Falar com Desconhecidos» de M. Gladwell (Dom Quixote). Cruzam-se, neste volume, histórias de diálogos de surdos e mal-entendidos que acabaram em desastres.

O autor interroga-se sobre a origem dos erros de interpretação do outro e questiona a facilidade com que mergulhamos em equívocos fatais.

Um santo Natal para todos!

Manuel da Luz | Cidadão Algarvio