Geração 94

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«Somos os filhos do meio da História. Sem propósito ou lugar. Não temos um Grande Guerra. Não temos uma grande depressão. A nossa Grande Guerra é espiritual. A nossa grande depressão são as nossas vidas. Fomos criados à frente da televisão, acreditando que um dia íamos ser todos milionários, deuses do cinema e estrelas de rock… Mas não vamos». Chuck Palahniuk em «Fight Club».

2003, Brancanes

O Miguel, chamemos-lhe assim, só entrou na turma no 3º ano. O detalhe que marcou a minha primeira impressão dele foi um dia ele ter lanchado um tomate. No meio de putos a lambuzar-se com Bongos, Bollycaos e Ruffles, o Miguel tinha um tomate. A maioria da turma gozou com ele, mas o Miguel teve o dom de tornar o ato de comer um tomate cru no meio de uma visita de estudo do 3º ano a coisa mais fixe do mundo.

2011, Moncarapacho

O José, chamemos-lhe assim, gostava mais de tocar guitarra do que da própria vida. Tocava regularmente com a antiga banda do Diogo Piçarra e dedilhava «Stairway to Heaven» de olhos fechados. O José tem das gargalhadas mais contagiantes que já ouvi… Na noite em que o conheci, o seu discurso assemelhava-se ao de um messias: falou em caçar tigres-dentes-de-sabre para o pequeno-almoço, como o Jackie Chan o inspirava e em todo o dinheiro que ganhava em casinos online. O mundo era uma festa, o mundo era infinito. «Mano… Eu vou acabar na América! É só a pessoa certa me ouvir tocar!»

2014, Ilha do Farol

Não vi o Miguel durante 10 anos. Quando nos voltámos a cruzar, tínhamos seguido os mesmos passos: líamos demasiado, pensávamos demasiado, expressávamos demasiado. Perdidos na ilha do Farol com um grupo de amigos, onde ele facilmente dissertava Tolstoy, apercebi-me que o Miguel trazia um grande peso aos ombros: como se o mundo fosse acabar amanhã e só ele soubesse. Mas ao contrário do resto das pessoas que ali estavam, o Miguel não estava só à espera que a outra pessoa acabasse de falar: ele ouvia. O Miguel ia ser psicólogo.

2016, Faro

Deixei de ouvir falar do José. Os amigos que tínhamos em comum também não sabiam dele. A vida em casa não é fácil. A vida na rua não é fácil. Os mais próximos diziam que tinha fugido para viver entre festas de transe, algures no meio da serra algarvia. Passado uns anos, alguém me disse que ele tinha ido parar ao hospital e que teria de ser seguido por um médico, provavelmente, para o resto da sua vida. O José tinha-se tornado no seu pior inimigo.

2019, Olhão

No outro dia encontrei o Miguel. Trabalha nas obras para pagar as contas. Leva dois livros de Bukowski debaixo do braço. «Tenho que escrever mano… Nunca vou conseguir parar.» «Mas não chegaste a acabar o curso?» «Mais ou menos. Também não ia servir para nada.»

No outro dia encontrei o José. «E a guitarra mano, como está?» «Eu agora tou bem mano, tenho a cabeça em ordem…É só a pessoa certa me ouvir tocar…Eu vou acabar na América mano!» E presenteia-me com uma das suas famosas gargalhadas: um misto de riso e pranto.

Esta é a geração de ‘94.

Diogo Simão, autor, realizador, ator, produtor e formador. Trabalha a tempo inteiro na criação de uma capital europeia da cultura em Faro e no Shortcutz local.