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No âmbito da parceria estabelecida entre a Fundação de Serralves e o município de Faro, o Teatro das Figuras inaugura na segunda-feira, dia 13 de maio, a exposição «Portobello» de Patrícia Almeida (Lisboa, 1970–2017).

Esta iniciativa integra-se num programa de exposições e apresentação de obras da Coleção de Serralves, selecionadas de propósito para os locais de exposição com o objetivo de tornar o seu acervo acessível a públicos diversificados de todas as regiões do país.

O «barlavento» teve oportunidade de falar com a artista durante durante a inauguração desta exposição que esteve patente na Casa das Artes de Tavira, entre julho e agosto de 2008, entrevista que agora recupera do arquivo.

Patrícia Almeida na Casa das Artes de Tavira, julho de 2009. Foto: Bruno Filipe Pires.

O escritor britânico JG Ballard é conhecido pelas histórias de como a felicidade e harmonia aparente dos residentes de um mundo perfeito são a fachada de algo negro e terrível. Em «Cocaine Nights», o mundo perfeito é uma estância balnear no sul de Espanha.

Um lugar de turismo de massas, onde se vive intensamente durante alguns dias de sol e noites de loucura. Um lugar, de certa forma, muito semelhante ao Algarve.

Foi este o livro que serviu de inspiração a Patrícia Almeida, para realizar a série fotográfica «Portobello», segundo explicou ao «barlavento»

«O título vem da ideia de um imaginário exótico genérico, digamos. Um pouco como aqueles nomes que podes encontrar em qualquer lugar do mundo, onde há turismo à beira-mar e férias de verão. Evoca a ideia da praia, dos bares e hotéis», descreveu.

Em termos técnicos, a série foi captada entre a zona de Quarteira e Portimão, entre 2005 e 2007, em filme de médio formato (6×6).

As cenas e os protagonistas «são gente com quem me fui cruzando e que pedia para fotografar», explicou a autora.

«Às vezes tentava mesmo reconstruir algo que tinha acabado de ver. Explicava que era para um projeto artístico, para um livro, mas muitas vezes as pessoas levam a mal», disse.

Além dos veraneantes, dos protetores solares e das toalhas de praia, a envolvente remete para uma desordem. Prédios com piscina onde à volta o mato selvagem cresce, por exemplo, paisagens feias que apesar de evidentes são desvalorizadas pela fotógrafa.

«Quando fiz o projeto, bem, na verdade, até tinha uma certa ideia romântica das férias aqui no Algarve, apesar de todo o caos urbanístico que se construiu neste território nos anos 1980 e 1990. Foi uma invasão de cimento que ainda continua. Aliás, surpreende-me como é que se continua a construir tanto. Mas por outro lado, diverti-me sempre muito no meio de tudo tudo. Por isso, não tive ideia de fazer juízos de valor», concluiu.

Ao longo da sua carreira, Patrícia Almeida construiu um corpo de trabalho singular no contexto da fotografia portuguesa, através de séries que abordam temáticas e assuntos tão diversos quanto a relação dos indivíduos com os espaços urbanos, a ligação entre música e juventude, ou a precariedade nos anos da profunda crise económica que assolou Portugal entre 2008 e 2013. Entre estas séries, uma das que mais contribuiu para a divulgação do seu trabalho foi, sem dúvida, «Portobello».

Depois da sua apresentação na Galeria Zé dos Bois (ZDB, Lisboa) em 2008 e, no ano seguinte, na segunda edição do Allgarve, a fotógrafa foi nomeada com esta série fotográfica para o legitimante Prémio BesPhoto 2009.

A série explora o «fenómeno do turismo de verão e o imaginário iconográfico a ele associado, cuja promoção institucional baseada em técnicas de marketing aborda a ideia de território em termos de lugar-marca. Um lugar para estar (não para habitar ou visitar), para experimentar, consumir, durante uma ou duas semanas. Apresenta-se assim como um lugar à beira da ficção, simultaneamente real e inventado, uma espécie de parque temático sem temática, mas ancorado num imaginário coletivo relacionado com as férias e construído a partir de estereótipos. Enquanto projeto documental, Portobello apresenta-se também como um ensaio fotográfico sobre a forma como os fluxos de ocupação temporária gerados pelo turismo de verão influenciam a construção da identidade de um lugar», descreveu a autora.